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Crônicas de Nácar #05: Tiras, Números e as Velhas Camadas

pace_universoholografico

Choveu mais uma vez em Curitiba. Choveu a chuva que os curitibanos mais otimistas estavam anunciando há anos. Choveu, choveu, choveu canivetes como diria o amigo gralha, choveu palavras e gritos e fardas e lágrimas. Lágrimas de injustiça, lágrimas de tristeza por sentir que estamos mais perto do fim. E antes que eu soe demasiado fatalista, sigo sonhando com a compreensão mútua. Quero falar sobre esse fim que nunca acaba, apenas recomeça, se repete e depois termina como mais um texto prolixo com algumas conexões mais ou menos interessantes e outras tantas que ninguém vai entender. Entender o outro? Como entender o outro sem estar em uma insólita micro nave instalada em seus neurônios? Você nasceu assim, teve uma família que te criou, ou não, teve suas escolinhas, seu trabalho, seu país, seu signo e tantas outras camadas ilusórias desse umbigo e dessa palavra feia chamada ego. Por qualquer motivo você nasceu nessa época e por mais que você pense diferente, que sua alma é francesa dos anos 20 ou maia de 2000 anos atrás, você nasceu assim e jamais outra pessoa vai sentir ou ver as coisas do seu modo. Nem mesmo sua irmã gêmea criada na mesma caixinha. Supor, imaginar ou compreender contextualmente questões ou tretas alheias é outro papo.

Em Nácar, tudo azul para mais uma encontro lunático pós eclipse. Jordi Miami Vice me acompanhou ao mercado, na missão dos gelos e dos vinhos promocionais. Enchemos o carrinho e quando estávamos semi parados na fila do caixa invisível, um senhor com a braguilha aberta e com a expressão típica de urina eminente, nos pede licença. Prontamente engatamos a marcha ré, dando passe livre para o senhor acessar o banheiro que resolveria sua necessidade extrema. Retornamos lentamente para o outro lado da linha que separa os caixas da saída do mercado que não nos ama. Nesse instante, Jordi comenta “se a gente saísse direto sem pagar ninguém iria ver”. Pensei como sempre pensei em ocasiões semelhantes, auxiliado pelos capricórnios unicórnios em busca de mares navegáveis. “Não quero terminar a noite em uma delegacia˜, e em seguida cantarolei Temptation, da espera de Tom, enquanto o cabeludo Jordi concluía a dura tarefa de encontrar a menor fila do pedaço.

Passamos os gelos, os gluglus e os vinhos, que foram diretamente armazenados em uma caixa de papelão, com divisórias próprias para esse fim. Foi quando a garota no caixa parou e disse que precisávamos colocar etiquetas de “OK” em todas as garrafas, causando frustração para Jordi e eu, uma vez que a fila estava longa e as pessoas poderiam perder a paciência. Mais mente, mente, mind, suposições. Perguntamos se a nota fiscal não seria o suficiente, em outra suposta abordagem do segurança. “Preciso consultar minha supervisora”, que curiosamente já estava resolvendo outro enrosco para a colega. Nesse momento percebi: “A máquina da estupidez precisa seguir funcionando e assim, ninguém mais precisa pensar em suas ações, apenas seguir as regras que outros seres menores criaram. Afinal as regras vêm antes do bom senso, né não?”. Percebi também que a indignação do companheiro (só pra continuar provocando os politiks da banda mais fria da cidade, cheios de tiques e pra quebrar minha própria regra de não usar parênteses e agora dos professores que me ensinaram a não esticar muito essas curvas). Ajudei a moça-caixa colocando os adesivos errados nas garrafas corretas – o vinho continua sagrado e não seria ele o responsável por mais uma babaquice inventada por seres humanos ocupados em produzir separações e tristezas como aquelas já citadas, provocadas por esse bolo com fermento demais, receita da família, da cultura e por “La Sociedad”, exatamente como o nome de outra banda rabiscada em algumas das milhares de folhas brancas da cabeça explosiva dos freakie friends.

Aos poucos tudo ficará no seu devido lugar, e eu, o ladrão de versos desconhecidos e populares em outros campos, também regressarei ao começo, ao infinito e silencioso nothing, um lugarzinho bem confortável onde opiniões, regras, preconceitos e mágoas serão pontos opacos há anos-luz de distância, em um planetinha azulzinho, bem triste e injusto, mas com uma beleza infinita, bem como esse Eu maior e maiúsculo que temos dificuldade de sacar em tempos modernos pós junguianos, imbuídos de estímulos e distrações, lindas e horríveis, meras miragens holográficas de Talbot. Reveja o show de Truman and you will know the truth, leia o livro do Tim branco, ou escute o argento Tim ecoar os ensinamentos de seu mestre paulista.

“Não sei o que você anda lendo por aí”, ressoa una vez más o discurso evangélico de outrora e propagado de outras formas por falsos iluminados, extremistas veganos e onívoros, feministas e machistas, azuis e vermelhos, ingleses e alemães, metaleiros e pagodeiros, e todos esses seres que acreditam em algum cambio de consciência com tacos de bets ou beisebol nas mãos e a manipulável ciência-doutrina na outra, e esquecem de perceber que mudar de lado e seguir odiando o oposto é a brincadeira preferida dos adultos. Let the children play ou “deixe as crianças sozinhas”, pois professores como esses nós não precisamos mais, diria “Pink e o Cérebro” na tentativa de dominar o mundo pela maneira mais ilógica do horizonte: el amor después del amor, o amor mais que perfeito, o amor de roma, o amor em páli dos maravilhosos palíndromos reverenciados pelas caudas brancas do parceiro de rua.

E se o objetivo de outro enfadonho cursinho pré-qualquer-coisa que nunca fiz (graças a papai e mamãe por me poupar dessa também), ou quem sabe com todas essas regras eu conseguisse ser melhor compreendido, ainda que a sina de qualquer artista seja a escuridão e assim, se sentir um rei do rock ou do mambo, mais especialzinho e menos retardado, porém eternamente triste por estar só.

Finalize essa história de uma vez, seu garoto mimado! Tentarei antes que a bateria da maçã mordida se esvaia, e outra tentação reinicie outro conto sobre malandros fakes ou verdadeiros. “Fumamos muita coisa por aí e até ficamos todos reunidos em uma pessoa só” e assim, me tornei uma geleia de amendoim com açaí, em estilo buffet-brasil, misturando elementos demais e deixando todos confusos, os mamelucos e os cafuzos também e até os seis policiais que tocaram a campainha da casa recicladora de sonhos e fritadeira de mentes inquietas e humores swingados. E os outros cops que acabaram com os gritos de Fora T em plena praça pública, e mais aqueles que invadiram o barraco do mano da quebrada, empurraram sua namorada e depois o algemaram e o enfiaram em mais um camburão do governador playboy e que quase joguei uns amendoins nele quando o encontrei no aeroporto, meses após as bombas nos professores. Homens da lei na cidade do medo e no país dos bananas.

O “Escambau” que agora toca na vitrola mole do espelho preto me faz lembrar dos escambaus recorrentes e que quando as confusões se repetem demais, estamos “nos transformando e evoluindo, deixando algo pra trás” e hoje, depois de mais uma enxurrada necessária na montanha dos espelhos quebrados e dos símbolos falsos, araucárias e mais gralhas, hoje sinto a beleza dessas gotas batendo nos telhados baratos, e se “10% dos escombros eu escondi e nem sei como”, meu mapa do tesouro também teria um ou talvez quatro besouros, treze apóstolos que nunca li, magos e uma porção de vagabundos profetas, sábios sacanas, um pai-herói referência maior, uma mãe-amor conectora de destinos, dois grotescos vovôs deuses endiabrados e outras 69 lindas figuras femininas cheias de segredo e com nomes parecidos. Hoje choveu, choveu outras 1531 gotas de esperanza, do outro professorzinho, choveu gotas do artista sumido das gotas, choveu gostosas gotas de alguma liberdade que insiste em existir em um mundo cego dominado por zeros e uns. Hoje choveu, choveu sotaques e baques e bachs, choveu a gota mais preciosa, a gota do Om maior, a gota do abraço do amigo invisível. Choveu a gota de toda uma existência e que foi feita sob encomenda somente para… VOCÊ!

 

A felicidade fez mais um aniversário. Vamos dançar?

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Fervendo nas Letras

saothomeNo ônibus, o ar condensado constrói um elo energético entre os passageiros. Um bafo quente que serve de escudo para a madrugada fria ou qualquer fenômeno climático típico das estradas da vida. Era o retorno de mais uma viagem para o santo das letras: reduto de hippies, hipongas, hipsters, geólogos, historiadores, e uma porção de curiosos. Desta vez, o capitão responsável pela missão “fervística” recebia a alcunha de “guerreiro”. Em sua bagagem, milhares de quilômetros e de histórias interestaduais transportando malucos “com tudo” para picos estranhos onde a fervura não pára. E não poderia deixar de citar nessa breve introdução, os “truquezinhos” do nosso nobre comandante, verdadeiros coringas para a monotonia e o baixo astral. Mas também não perderei tempo tentando explicá-los, uma vez que só estando ao seu lado para compreender a grandeza poética presente nessa sábia palavra, ou gíria inventada.

Não sei exatamente se foi o calor provocado pelas janelas fechadas, as inspirações esfumaçadas vindas do novo parceiro de poltrona, ou talvez algum resquício lisérgico dos últimos dias, mas algo naquele ônibus travestido me fez olhar pra trás, numa ingênua tentativa de entender o que foram aqueles últimos dias, e porquê tudo parecia ter acontecido tão depressa, como um cigarro que se apaga ao vento.

Deve haver algo profundamente místico nesse vilarejo mineiro, talvez o mesmo magnetismo obscuro que faz os carros subirem ladeiras, e que atrai uma infinita variedade de doidões para um pedaço de terra feito com pedras brancas só vistas ali. E se a ilusão de ótica é a resposta pronta dos pseudo cientistas para as tais ladeiras, o que dizer das músicas que saem dos rádios de todos os cantos, sempre de qualidade e surpreendendo os ouvidos mais atentos. A pirâmide foi criada por seres extraterrestres e isso a gente não discute mais.

As chacoalhadas do busão seguem conectando neurônios adormecidos e trazendo lembranças de mais um feriado prolongado de um sete de setembro atípico, sem chuvas e com um sol vermelho de arrepiar. Na praça central, ao lado da gruta engraçada, havia um café. Ali conheci Joseph, um músico inglês que estava morando há 9 meses naquele lugar. Stones, Beatles, Cat Stevens, Neil Young e Tom Waits eram algumas das pérolas tocadas por Joseph, além das suas canções próprias. Mas foi no intervalo, entre cigarros, que descobri sua real vocação. Joseph era capaz de conversar com seu eu do passado ou seu eu do futuro, e era assim que ele compunha suas músicas. “O tempo não é linear como nos contam”, dizia ele. E ainda no mesmo recinto, Aninha ainda me apresentou para sua mais nova paixão – um senhor de 71 anos chamado Estélio e que havia feito parte do saudoso “partidão”. Hoje o senhor com aparência amigável semelhante ao Jorge Amado, seguia sua militância esquerdista, em seu carro adesivado cheio de santinhos vermelhos. “Temos muito o que Temer”, provavelmente teria dito ele, sob a sombra de uma ditadura que o perseguira tempos atrás e que agora parece ter virado novamente o assunto das mesas de bar.

São Thomé é das letras, das pedras, dos cogumelos, dos et’s, dos cachorros de rua e dos hippies de espírito livre. Durante quase uma semana, São Thomé também foi o cenário paradisíaco para uma trupe curitibana que incluía um argentino louco, um bebê e uma garota com uma suposta caxumba. Jovens de todas as idades em busca de fervo intenso, com direito a truquezinhos e muitas risadas no caminho.

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Meia Noite na Cidade das Separações

pace_isaA abelha esbarra no copo de vidro adquirido na promoção do mercado. Os cacos se esparramam pelo chão. No sinal vermelho a moto de corrida desafia a velocidade do som. A roda toca o paralelepípedo arremessando o condutor para longe. É meia noite na cidade grande e coisas estranhas começam a acontecer. O seriado do momento não me deixa esquecer.

Ecos da preanunciada separação reverberam timidamente em meu coração. Foram sete ou oito meses de tentativas, cumplicidades, afetos e um calhamaço de paciência. Nos tempos modernos há pouco espaço para adaptações. Os minutos são preciosos, ainda que passemos boa parte deles caçando personagens da nossa infância ou rolando a inútil linha do tempo em busca daquele estímulo fugaz que nos fará rir, chorar ou apenas “curtir”.

Curtia seu jeito frenético de ser. Curtia sua história. Curtia seu sorriso e a cor das suas bochechas nos dias friorentos. Curtia seus cafés fortificados e suas torradas amanteigadas. Curtia uma série de pequenas coisas que não fazem a menor importância agora. O vento da mudança soprou novamente e “o passado é uma roupa que não nos serve mais”, cantaria o bigodudo desaparecido cheio de contas pra pagar.

Mas antes que esse trem obscuro siga viagem rumo a estações desconhecidas, não poderia deixar de agradecer imensamente o apoio que me foi dado. Nesses longos meses que passei do seu lado, estive caminhando por vales de solidão, loucura, medo e angústias mil. E apesar desses encontros constantes com meus demônios, você sempre esteve por perto. Enquanto eu me perdia em alucinações, você me mostrava o caminho, me abraçava e me dizia que “tudo vai ficar tudo bem”.

Quero que saiba disso e de mais um tanto. Minha admiração pela pessoa que é seguirá firme como seus sapatos descolados ilustrados pela artista da festa. Ficarão as lembranças das esticadas na cama e dos almoços ensolarados no restaurante indiano. Das viagens repentinas e das pequenas aventuras. Dos sambas no piano, da parede amarela e das conversas fiadas em inglês. Das reuniões com os amigos estranhos e das festas particulares para dois. Ficarão os “recuerdos” de uma história curta e intensa, com picos flamejantes e desesperos domados. Uma história criada aos trancos por dois seres distintos com algo em comum: a busca pela tão sonhada felicidade.

E que ela venha para ambos, ainda que em tempos e espaços diferentes, assim como o “pai da noite” quiser. E que o brilho das estrelas ilumine nossas estradas esburacadas e nos ajude a encontrarmos a estação da paz. Foi bom enquanto durou. Obrigado por tudo.

*sem revisão

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Meditações e Vicissitudes V.I.P…

pace_2016_01_forestJá não consigo lembrar se esse é o quinto ou o sexto dia. Escutei o sino e segui no caminho empedrado rumo ao humilde refeitório dos panos aparentemente sujos. Atrás de mim, seguiam outros caras, rostos que não eram mais desconhecidos, mas que seguiam calados, em completo silêncio conforme as instruções de outrora. As identidades permaneciam ocultas e eram, nos momentos comunitários em que minha cabeça se mantinha ocupada, numa tentativa minimamente criativa de imaginar personagens, reafirmando os velhos arquétipos presentes em sociedades dispersas pelo mundo afora.  Um retiro “nas montanhas da Serra do Tinguá” não seria diferente.

Transcorridos os primeiros dias e as primeiras indagações associadas aos fatos raros: sobre o isolamento, o silêncio, a segregação e a disciplina, ou ainda sobre a ausência dos tais estímulos externos; em seguida começo a recordar como escolhi estar aqui e como é importante eu seguir a corrente proposta, ainda que não consiga visualizar o final desse rio absorto em velhas novidades.

São quatro da matina e o sino toca. É hora de levantar, urinar e lavar os olhos remelados. No caminho escuro, vejo a aranha tropical e o medo da criança que ainda ecoa nesses instantes. O fluxo lento e preguiçoso dos companheiros me leva à sala de meditação, com suas mil almofadas e uma energia pacificadora normalmente constante nesses espaços. Sento em algumas dessas almofadas apostadas ao moderno banquinho emprestado. Medito, ou devo dizer, tento meditar, ainda que existam distrações e talvez a maior delas seja lidar com o tremendo sono que sinto às quatro e meia da manhã.

Confesso que por vezes me senti ligeiramente incomodado com a chegada de alguns retardatários. Mas quem sou eu para tecer qualquer tipo de crítica sobre eles, pois sentia que mais cedo ou mais tarde eu faria parte desse mesmo grupo; afinal, para alguém que havia meditado poucas dezenas de vezes na vida e por vinte minutos nos melhores casos, estar meditando por seis ou sete horas por dia parecia ser o suficiente.

Nos breves intervalos, as placas limitadoras encurtavam as caminhadas exploradoras: da bendita sala ao banheiro, do banheiro ao bebedouro, do bebedouro aos arredores dos dormitórios e desses arredores ao quarto. No aposento dividido com outros dois parceiros mudos, a sensação é sempre estranha. A falta de palavras parece ser substituída pela comunicação corporal não visual, exacerbada em cada virada de lado da cama ou em cada levantada, mesmo que houvesse a preocupação excessiva de não incomodar os colegas.

Colegas estranhos: hippies cabeludos travestidos de jovens budas, surfistas australianos, gigantes alemães de saia, garotos mimados em busca de aventura, quarentões faxinando antigos karmas, curitibanos heteronormativos, cariocas linguarudos, xarás, geeks e toda sorte de freaks, espiritualistas e curiosos.

No meio desse pastiche, me sinto novamente em casa. Uma casa vazia e incolor, mas com o mínimo conforto necessário para recomeçar. Uma casa inexistente há pelo menos cinco meses ou o tempo do último texto desse blog capenga sobre esse tal rapaz latinoamericano sem mapas, mas com muitos documentos e responsabilidades pra zelar. Em um mundo inventado – ainda que seus limites sejam tão reais quanto o golpe político que seu país atravessa, ainda que ele só tenha ficado sabendo disso dias depois, no melhor estilo Adeus, Lenin. Ou como diria Donny no seu filme favorito, “I am the Walrus”.

Chega de saudade, a lei da impermeabilidade jamais será esquecida. Obrigado Dhamma, foi massa conhecê-lo mais de perto.

E que venham as tais vicissitudes, algo a ver com policiais sacanas, enfermeiras inexperientes, cuidadoras e uma mãe iluminada que descansa na serenidade de seu lar.

Meu pai estava certo, meditar é bom.

contos

Domingo de Chuva

chuvaDomingo de chuva, de uma chuva aclamada e pré-anunciada nos rodapés dos jornais, uma chuva esperada pelos fazendeiros e não desejada pelos feirantes e demais vendedores ambulantes, uma chuva típica da montanha e que não adianta ter medo dela, pois “a chuva voltando pra terra traz coisas do ar”. Ainda bem, pois era justamente disso que eu estava precisando.

Curitiba testemunhou o recorde histórico: mais de 90 dias de sol, céu azul e um clima árido típico da capital de um país em declínio e que o baterista argentino tem dificuldade de entender. “Vi domingo passado aquele protesto contra o governo, mas só vi gente de relógio caro, tênis de marca e camisa oficial da seleção brasileira… do que eles estão reclamando mesmo?”.  Meu amigo Mariano, dessa vez vou calar a boca e não serei aquele que te dirá que “a vida é séria e a guerra é dura”, pois quando penso assim, tudo fica tão chato e cinza como os papos dos granfinos ou os discursos pseudo politizados de gente que ainda não entende que as opiniões são como aqueles dados cheios de lados dos tabuleiros imaginários de RPG e que nunca fizeram minha cabeça chata de nordestino, assim como escutava na adolescência.

Na vitrola da sala, João canta sobre o nada e sobre Deus ser um “conceito pelo qual nós medimos nossa dor”, enquanto escuto aquele som neoclássico do aplicativo do momento, algo a ver com aquelas propagandas ridículas das operadoras de celular sobre mensagens ilimitadas, mensagens em que não consigo ver nenhuma vantagem, não nesse domingo de chuva, não nesse momento em que estou cansado, com dores nas costas e com um catarro verde escuro no pulmão e me sentindo grosseiro e estúpido com aqueles que ainda sentem alguma coisa boa por mim.

Será que um dia a gente vai entender que toda essa tecnologia é inútil na tarefa de suprir sentimentos básicos de solidão, carência e insegurança e que cabe a gente lidar com essas merdas sozinho, e não querer jogar isso pro outro ou, ainda pior, tentando se comunicar por um aparelho que foi feito com uma boa intenção, mas que como tudo que o homem ocidental tocou desde sempre, foi transformado em lixo, em guerra, em destruição e em uma má perdição. Sim, por que se perder é bom demais, mas só quando a gente tem essa consciência e sente que não está sendo guiado por um ego maior e ainda mais pervertido.

Estou blue como o disco da Joni Mitchell que agora toca na sala, blue como o piano natalino daquela canção sobre a possibilidade de existir um rio congelado em  que a gente pudesse patinar pra bem longe. E falando em pianos e em tristezas, lembro daquele que está bem atrás de mim, e que já foi responsável por momentos lindos, de alegria, com a minha mãe tocando Fascinação e fazendo a amiga vizinha e que agora corrige meus textos, sentir a felicidade no ar, e logo me lembro de também me sentir bem ao escutar seu filho Pedro ouvindo Ramones no talo quando eu ainda era um moleque mimado e confinado a um condomínio fechado, desses que meu pai tem medo de retornar a morar e, é claro que eu entendo suas razões. Só não entendo por que esse piano que está atrás de mim precisa custar tão caro para voltar a soar afinado,… Malditas cravelhas!

Também não entendo por que a gente segue se apaixonando e acreditando nas pessoas e até na gente mesmo, pra depois vir essa onda blue e eu precisar de um amigo advogado para me lembrar que as pessoas são, no fundo, totalmente egoístas e que essa história de corrente do bem ou das pessoas “do bem” não passa de um marketing pra vender suco natural; ou ainda algum discurso aliciano da classe média alta que nunca viajou tanto pro exterior, mas que agora precisa economizar para pagar direitos trabalhistas e impostos para um governo comunista que insiste em patrocinar a ditadura cubana e roubar os cofres públicos sem sobreavisos ou julgamentos posteriores.

Dr. Gonzo, meu amigo advogado que agora passou a me seguir por aí e me lembrar do lado demoníaco que existe em cada ser, Dr. Gonzo, você sim, será cada vez mais necessário. Já precisei de remédios controlados, de drogas ilegais, rituais orientais e até de iridologia para saber quem eu sou, mas agora, nesse domingo de chuva e nos outros tantos que estão por vir, nesse momento blue e down, sinto que precisarei sim de uma avalanche de papéis, assinaturas, cláusulas, processos, contratos e carimbos de todas as cores, frios ou preferivelmente quentes; ainda que eu continue anarquista ao ponto de odiar todas as formas de burocracia e legislação criadas por esses humanoides, que seguem existindo dentro de mim, para tentar organizar uma massa que não consegue usar o bom senso e o coração nem para sair de casa ou tomar um café, e que segue querendo cada vez mais, sem perceber que o barato da vida não está na “inútil luta contra os galhos”, mas sim no tronco, é lá e somente lá que “está o coringa do baralho”.

Dr. Gonzo, por favor, me ajude a cuidar desses galhos, e obrigado mais uma vez ao baiano que me ensinou a perder o medo da chuva e à outra baiana, a maior de todas, que me fez ter a cabeça chata, chata o suficiente para seguir sonhando e compreendendo que há muito mais para sentir e aprender, ainda que as decepções só cessem por completo quando eu, você e todas as pessoas desse planeta… Sumirem.

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Crônica de Um Amigo Louco

caldabrancaJorge Caldabranca é um daqueles caras que a gente só conhece uma vez na vida. Quando penso em sua história, as luzes se apagam e imensos e coloridos pontos de interrogação feitos de papel cartão preenchem minha mente, gerando lacunas indecifráveis, capazes de enlouquecer o mais competente psicanalista que há no mercado. Ainda sim, farei esse esforço.

Como o Dylan da canção, ele também saiu de casa com 12 anos de idade, e assim como o personagem de Long Time Gone, sua mente ficou confusa desde então. Seus pais búlgaros o deixaram em um pedaço de terra chamado Caldabranca nos confins de São Paulo. O objetivo era chegar a Buenos Aires, e talvez o bebê estivesse atrapalhando seus planos. Foram sem ele e nunca mais voltaram.

Jorge Caldabranca viveu na rua, como andarilho, por alguns anos. Não foi mendigo e para evitar tal condição encontrava trabalhos temporários em troca de alguns trocados. Sempre foi esperto e, na primeira oportunidade, matriculou-se num curso do SENAC para aprender a ser garçom. Assalariado, pôde sair das ruas e se dedicar aos estudos. Formou-se em Letras e, de quebra, fez mestrado em Literatura só para poder realizar o sonho de garoto: ser escritor.

Foi professor universitário, escreveu cinco livros depois de ler mais de 1000. Boa parte das histórias que contou veio justamente das experiências vividas como andarilho ou mesmo depois, em subempregos que além de ajudarem nas contas no fim do mês, foram verdadeiros laboratórios sociais, capazes de produzir contos, poemas e romances sinceros e originais; sem as apelações dos escritores de classe média, enfurnados em apartamentos centrais. Suas referências literárias o auxiliam nessa função e, para isso, ele conta com a ajuda de Bukowskis, Kerouacs, Calvinos e uma porção de poetas malditos.

Não poderia ser diferente, conheci-o na rua, por entre retratos de artistas famosos e senhoras com suas sacolas cheias de verduras orgânicas. No segundo encontro, Caldabranca já estava munido de sua câmera de bolso, pronto para me entrevistar. Passamos longas tardes juntos, por entre nuvens esverdeadas e charros, contando causos e em devaneios febris, distantes de qualquer contato com a realidade – que a cada novo ano, se enche de tédio e caretice por todo lado.

Normalmente eu, que sempre fui taxado de prolixo e que sempre insisti em histórias longas, cheias de detalhes aparentemente insignificantes, ficava na maior parte do tempo em silêncio, ouvindo o que o velho Caldabranca tinha pra contar. Nem citarei a idade real do meu novo amigo Jorge, pois prefiro ficar com os “45” que ele mesmo disse que estava fazendo em seu último aniversário. Engraçado, logo 45, prum cara que sempre odiou e vomitou em cima da direita desse país. Sim, Caldabranca é petista de carteirinha, daqueles fanáticos mesmo, que continuam achando que o José Dirceu é mais um herói-vítima-do-sistema-que-ele-não-criou.

Politicagens à parte, Caldabranca se transformou em um personagem de si mesmo, construído a duras penas por um mundo que o cuspiu, o jogou na sarjeta e depois recebeu de volta, na mesma moeda. Seu nome de batismo pouco importa, Jorge Caldabranca ganhou o título honorário de Marquês, concedido por ele mesmo. Quer maior reconhecimento que esse? O de si próprio?

Inimigos de plantão e demais seres pré-históricos que preferem julgar antes de aceitar dirão que Caldabranca não passa do cara mais egocêntrico do planeta. E olha que esse título ele também não dispensa. Em um mundo infestado por falsos modestos e pseudo humildes, como meu outro amigo apontou, Caldabranca é a carta coringa do baralho e ainda que ele possua inúmeros defeitos, para mim ele tem algo inexorável, carente a 99% dos artistas que vemos por aí: autenticidade.

Sim, Caldabranca é, além de escritor, um artista “on the road”, como ele mesmo costuma enfatizar. Já foi ator e recitou sua poesia intitulada “Junkie” mais de 100 vezes em diversos palcos, porém principalmente no Madame Satã em SP. Já pintou um quadro com bolas de sinuca e pretende leiloá-lo em Paris por um milhão de dólares. Caldabranca também é cantor de blues e pretende viajar pelo Brasil com sua Big Band. Como se não bastasse, como roteirista ele pretende trabalhar em São Paulo, diretamente de sua suíte cinco estrelas para uma grande produtora nacional. Quando envelhecer verdadeiramente, morará em Montevidéu, ao lado de sua assistente, sua secretária e sua enfermeira particular. Mas antes, Caldabranca ainda viajará pela América do Sul com a grana do carro vendido e de tantos outros negócios oriundos de uma treta chamada OLX. Antes, Caldabranca também realizará o seu próprio festival de cinema “on the road”, diretamente do campus da USP, na Pauliceia Desvairada. Segundo ele, meus filmes de viagem estarão lá também, e tudo, tudo, não passa de… Metafísica!

E é justamente essa explosão de ideias, projetos e sonhos que fazem desse ser, ímpar, só pra ficar no clichê das palavras redundantes. Muita gente o colocaria no primeiro hospício, mas não poderia deixar de frisar seu senso de responsabilidade e zelo pela própria saúde, algo que faz a distância entre ele e seus possíveis colegas de instituição crescer consideravelmente. Para o senso comum, Caldabranca pode ser inoportuno e irremediavelmente expansivo, pode possuir o ego maior que o do John Lennon. Porém, para mim, ele não passa de um cara alegre, sincero, singular e que consegue aquilo que eu mais invejo em sua pessoa – a capacidade de ignorar a opinião dos outros – seguindo em sua felicidade plena, transbordando otimismo por cada célula de seu corpo ainda jovem, no melhor estilo “dança da realidade” que um tal de Jodorowsky explicou lá atrás, e em um mundo cheio de fakes, como ele próprio insiste em esbravejar por aí.

Caldabranca pode ser avistado na Boca Maldita ou por outras esquinas de Curitiba – a cidade que ele escolheu viver ao lado de Simonetta, sua amante italiana. Cabeludo, óculos escuros e sempre escutando Creedance e outros roques manjados no alto-falante de seu celular, Jorge Caldabranca, um zen-dudeísta de carterinha, exclamará: “pra toda essa gente sou e sempre serei um ghost”.

E só poderia terminar essa “crônica de um amigo louco”, citando outro ídolo maluco conhecido pela alcunha mutante de Arnaldo Baptista… Te amo, podes crer!