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Fervendo nas Letras

saothomeNo ônibus, o ar condensado constrói um elo energético entre os passageiros. Um bafo quente que serve de escudo para a madrugada fria ou qualquer fenômeno climático típico das estradas da vida. Era o retorno de mais uma viagem para o santo das letras: reduto de hippies, hipongas, hipsters, geólogos, historiadores, e uma porção de curiosos. Desta vez, o capitão responsável pela missão “fervística” recebia a alcunha de “guerreiro”. Em sua bagagem, milhares de quilômetros e de histórias interestaduais transportando malucos “com tudo” para picos estranhos onde a fervura não pára. E não poderia deixar de citar nessa breve introdução, os “truquezinhos” do nosso nobre comandante, verdadeiros coringas para a monotonia e o baixo astral. Mas também não perderei tempo tentando explicá-los, uma vez que só estando ao seu lado para compreender a grandeza poética presente nessa sábia palavra, ou gíria inventada.

Não sei exatamente se foi o calor provocado pelas janelas fechadas, as inspirações esfumaçadas vindas do novo parceiro de poltrona, ou talvez algum resquício lisérgico dos últimos dias, mas algo naquele ônibus travestido me fez olhar pra trás, numa ingênua tentativa de entender o que foram aqueles últimos dias, e porquê tudo parecia ter acontecido tão depressa, como um cigarro que se apaga ao vento.

Deve haver algo profundamente místico nesse vilarejo mineiro, talvez o mesmo magnetismo obscuro que faz os carros subirem ladeiras, e que atrai uma infinita variedade de doidões para um pedaço de terra feito com pedras brancas só vistas ali. E se a ilusão de ótica é a resposta pronta dos pseudo cientistas para as tais ladeiras, o que dizer das músicas que saem dos rádios de todos os cantos, sempre de qualidade e surpreendendo os ouvidos mais atentos. A pirâmide foi criada por seres extraterrestres e isso a gente não discute mais.

As chacoalhadas do busão seguem conectando neurônios adormecidos e trazendo lembranças de mais um feriado prolongado de um sete de setembro atípico, sem chuvas e com um sol vermelho de arrepiar. Na praça central, ao lado da gruta engraçada, havia um café. Ali conheci Joseph, um músico inglês que estava morando há 9 meses naquele lugar. Stones, Beatles, Cat Stevens, Neil Young e Tom Waits eram algumas das pérolas tocadas por Joseph, além das suas canções próprias. Mas foi no intervalo, entre cigarros, que descobri sua real vocação. Joseph era capaz de conversar com seu eu do passado ou seu eu do futuro, e era assim que ele compunha suas músicas. “O tempo não é linear como nos contam”, dizia ele. E ainda no mesmo recinto, Aninha ainda me apresentou para sua mais nova paixão – um senhor de 71 anos chamado Estélio e que havia feito parte do saudoso “partidão”. Hoje o senhor com aparência amigável semelhante ao Jorge Amado, seguia sua militância esquerdista, em seu carro adesivado cheio de santinhos vermelhos. “Temos muito o que Temer”, provavelmente teria dito ele, sob a sombra de uma ditadura que o perseguira tempos atrás e que agora parece ter virado novamente o assunto das mesas de bar.

São Thomé é das letras, das pedras, dos cogumelos, dos et’s, dos cachorros de rua e dos hippies de espírito livre. Durante quase uma semana, São Thomé também foi o cenário paradisíaco para uma trupe curitibana que incluía um argentino louco, um bebê e uma garota com uma suposta caxumba. Jovens de todas as idades em busca de fervo intenso, com direito a truquezinhos e muitas risadas no caminho.

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Meia Noite na Cidade das Separações

pace_isaA abelha esbarra no copo de vidro adquirido na promoção do mercado. Os cacos se esparramam pelo chão. No sinal vermelho a moto de corrida desafia a velocidade do som. A roda toca o paralelepípedo arremessando o condutor para longe. É meia noite na cidade grande e coisas estranhas começam a acontecer. O seriado do momento não me deixa esquecer.

Ecos da preanunciada separação reverberam timidamente em meu coração. Foram sete ou oito meses de tentativas, cumplicidades, afetos e um calhamaço de paciência. Nos tempos modernos há pouco espaço para adaptações. Os minutos são preciosos, ainda que passemos boa parte deles caçando personagens da nossa infância ou rolando a inútil linha do tempo em busca daquele estímulo fugaz que nos fará rir, chorar ou apenas “curtir”.

Curtia seu jeito frenético de ser. Curtia sua história. Curtia seu sorriso e a cor das suas bochechas nos dias friorentos. Curtia seus cafés fortificados e suas torradas amanteigadas. Curtia uma série de pequenas coisas que não fazem a menor importância agora. O vento da mudança soprou novamente e “o passado é uma roupa que não nos serve mais”, cantaria o bigodudo desaparecido cheio de contas pra pagar.

Mas antes que esse trem obscuro siga viagem rumo a estações desconhecidas, não poderia deixar de agradecer imensamente o apoio que me foi dado. Nesses longos meses que passei do seu lado, estive caminhando por vales de solidão, loucura, medo e angústias mil. E apesar desses encontros constantes com meus demônios, você sempre esteve por perto. Enquanto eu me perdia em alucinações, você me mostrava o caminho, me abraçava e me dizia que “tudo vai ficar tudo bem”.

Quero que saiba disso e de mais um tanto. Minha admiração pela pessoa que é seguirá firme como seus sapatos descolados ilustrados pela artista da festa. Ficarão as lembranças das esticadas na cama e dos almoços ensolarados no restaurante indiano. Das viagens repentinas e das pequenas aventuras. Dos sambas no piano, da parede amarela e das conversas fiadas em inglês. Das reuniões com os amigos estranhos e das festas particulares para dois. Ficarão os “recuerdos” de uma história curta e intensa, com picos flamejantes e desesperos domados. Uma história criada aos trancos por dois seres distintos com algo em comum: a busca pela tão sonhada felicidade.

E que ela venha para ambos, ainda que em tempos e espaços diferentes, assim como o “pai da noite” quiser. E que o brilho das estrelas ilumine nossas estradas esburacadas e nos ajude a encontrarmos a estação da paz. Foi bom enquanto durou. Obrigado por tudo.

*sem revisão

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Meditações e Vicissitudes V.I.P…

pace_2016_01_forestJá não consigo lembrar se esse é o quinto ou o sexto dia. Escutei o sino e segui no caminho empedrado rumo ao humilde refeitório dos panos aparentemente sujos. Atrás de mim, seguiam outros caras, rostos que não eram mais desconhecidos, mas que seguiam calados, em completo silêncio conforme as instruções de outrora. As identidades permaneciam ocultas e eram, nos momentos comunitários em que minha cabeça se mantinha ocupada, numa tentativa minimamente criativa de imaginar personagens, reafirmando os velhos arquétipos presentes em sociedades dispersas pelo mundo afora.  Um retiro “nas montanhas da Serra do Tinguá” não seria diferente.

Transcorridos os primeiros dias e as primeiras indagações associadas aos fatos raros: sobre o isolamento, o silêncio, a segregação e a disciplina, ou ainda sobre a ausência dos tais estímulos externos; em seguida começo a recordar como escolhi estar aqui e como é importante eu seguir a corrente proposta, ainda que não consiga visualizar o final desse rio absorto em velhas novidades.

São quatro da matina e o sino toca. É hora de levantar, urinar e lavar os olhos remelados. No caminho escuro, vejo a aranha tropical e o medo da criança que ainda ecoa nesses instantes. O fluxo lento e preguiçoso dos companheiros me leva à sala de meditação, com suas mil almofadas e uma energia pacificadora normalmente constante nesses espaços. Sento em algumas dessas almofadas apostadas ao moderno banquinho emprestado. Medito, ou devo dizer, tento meditar, ainda que existam distrações e talvez a maior delas seja lidar com o tremendo sono que sinto às quatro e meia da manhã.

Confesso que por vezes me senti ligeiramente incomodado com a chegada de alguns retardatários. Mas quem sou eu para tecer qualquer tipo de crítica sobre eles, pois sentia que mais cedo ou mais tarde eu faria parte desse mesmo grupo; afinal, para alguém que havia meditado poucas dezenas de vezes na vida e por vinte minutos nos melhores casos, estar meditando por seis ou sete horas por dia parecia ser o suficiente.

Nos breves intervalos, as placas limitadoras encurtavam as caminhadas exploradoras: da bendita sala ao banheiro, do banheiro ao bebedouro, do bebedouro aos arredores dos dormitórios e desses arredores ao quarto. No aposento dividido com outros dois parceiros mudos, a sensação é sempre estranha. A falta de palavras parece ser substituída pela comunicação corporal não visual, exacerbada em cada virada de lado da cama ou em cada levantada, mesmo que houvesse a preocupação excessiva de não incomodar os colegas.

Colegas estranhos: hippies cabeludos travestidos de jovens budas, surfistas australianos, gigantes alemães de saia, garotos mimados em busca de aventura, quarentões faxinando antigos karmas, curitibanos heteronormativos, cariocas linguarudos, xarás, geeks e toda sorte de freaks, espiritualistas e curiosos.

No meio desse pastiche, me sinto novamente em casa. Uma casa vazia e incolor, mas com o mínimo conforto necessário para recomeçar. Uma casa inexistente há pelo menos cinco meses ou o tempo do último texto desse blog capenga sobre esse tal rapaz latinoamericano sem mapas, mas com muitos documentos e responsabilidades pra zelar. Em um mundo inventado – ainda que seus limites sejam tão reais quanto o golpe político que seu país atravessa, ainda que ele só tenha ficado sabendo disso dias depois, no melhor estilo Adeus, Lenin. Ou como diria Donny no seu filme favorito, “I am the Walrus”.

Chega de saudade, a lei da impermeabilidade jamais será esquecida. Obrigado Dhamma, foi massa conhecê-lo mais de perto.

E que venham as tais vicissitudes, algo a ver com policiais sacanas, enfermeiras inexperientes, cuidadoras e uma mãe iluminada que descansa na serenidade de seu lar.

Meu pai estava certo, meditar é bom.

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Domingo de Chuva

chuvaDomingo de chuva, de uma chuva aclamada e pré-anunciada nos rodapés dos jornais, uma chuva esperada pelos fazendeiros e não desejada pelos feirantes e demais vendedores ambulantes, uma chuva típica da montanha e que não adianta ter medo dela, pois “a chuva voltando pra terra traz coisas do ar”. Ainda bem, pois era justamente disso que eu estava precisando.

Curitiba testemunhou o recorde histórico: mais de 90 dias de sol, céu azul e um clima árido típico da capital de um país em declínio e que o baterista argentino tem dificuldade de entender. “Vi domingo passado aquele protesto contra o governo, mas só vi gente de relógio caro, tênis de marca e camisa oficial da seleção brasileira… do que eles estão reclamando mesmo?”.  Meu amigo Mariano, dessa vez vou calar a boca e não serei aquele que te dirá que “a vida é séria e a guerra é dura”, pois quando penso assim, tudo fica tão chato e cinza como os papos dos granfinos ou os discursos pseudo politizados de gente que ainda não entende que as opiniões são como aqueles dados cheios de lados dos tabuleiros imaginários de RPG e que nunca fizeram minha cabeça chata de nordestino, assim como escutava na adolescência.

Na vitrola da sala, João canta sobre o nada e sobre Deus ser um “conceito pelo qual nós medimos nossa dor”, enquanto escuto aquele som neoclássico do aplicativo do momento, algo a ver com aquelas propagandas ridículas das operadoras de celular sobre mensagens ilimitadas, mensagens em que não consigo ver nenhuma vantagem, não nesse domingo de chuva, não nesse momento em que estou cansado, com dores nas costas e com um catarro verde escuro no pulmão e me sentindo grosseiro e estúpido com aqueles que ainda sentem alguma coisa boa por mim.

Será que um dia a gente vai entender que toda essa tecnologia é inútil na tarefa de suprir sentimentos básicos de solidão, carência e insegurança e que cabe a gente lidar com essas merdas sozinho, e não querer jogar isso pro outro ou, ainda pior, tentando se comunicar por um aparelho que foi feito com uma boa intenção, mas que como tudo que o homem ocidental tocou desde sempre, foi transformado em lixo, em guerra, em destruição e em uma má perdição. Sim, por que se perder é bom demais, mas só quando a gente tem essa consciência e sente que não está sendo guiado por um ego maior e ainda mais pervertido.

Estou blue como o disco da Joni Mitchell que agora toca na sala, blue como o piano natalino daquela canção sobre a possibilidade de existir um rio congelado em  que a gente pudesse patinar pra bem longe. E falando em pianos e em tristezas, lembro daquele que está bem atrás de mim, e que já foi responsável por momentos lindos, de alegria, com a minha mãe tocando Fascinação e fazendo a amiga vizinha e que agora corrige meus textos, sentir a felicidade no ar, e logo me lembro de também me sentir bem ao escutar seu filho Pedro ouvindo Ramones no talo quando eu ainda era um moleque mimado e confinado a um condomínio fechado, desses que meu pai tem medo de retornar a morar e, é claro que eu entendo suas razões. Só não entendo por que esse piano que está atrás de mim precisa custar tão caro para voltar a soar afinado,… Malditas cravelhas!

Também não entendo por que a gente segue se apaixonando e acreditando nas pessoas e até na gente mesmo, pra depois vir essa onda blue e eu precisar de um amigo advogado para me lembrar que as pessoas são, no fundo, totalmente egoístas e que essa história de corrente do bem ou das pessoas “do bem” não passa de um marketing pra vender suco natural; ou ainda algum discurso aliciano da classe média alta que nunca viajou tanto pro exterior, mas que agora precisa economizar para pagar direitos trabalhistas e impostos para um governo comunista que insiste em patrocinar a ditadura cubana e roubar os cofres públicos sem sobreavisos ou julgamentos posteriores.

Dr. Gonzo, meu amigo advogado que agora passou a me seguir por aí e me lembrar do lado demoníaco que existe em cada ser, Dr. Gonzo, você sim, será cada vez mais necessário. Já precisei de remédios controlados, de drogas ilegais, rituais orientais e até de iridologia para saber quem eu sou, mas agora, nesse domingo de chuva e nos outros tantos que estão por vir, nesse momento blue e down, sinto que precisarei sim de uma avalanche de papéis, assinaturas, cláusulas, processos, contratos e carimbos de todas as cores, frios ou preferivelmente quentes; ainda que eu continue anarquista ao ponto de odiar todas as formas de burocracia e legislação criadas por esses humanoides, que seguem existindo dentro de mim, para tentar organizar uma massa que não consegue usar o bom senso e o coração nem para sair de casa ou tomar um café, e que segue querendo cada vez mais, sem perceber que o barato da vida não está na “inútil luta contra os galhos”, mas sim no tronco, é lá e somente lá que “está o coringa do baralho”.

Dr. Gonzo, por favor, me ajude a cuidar desses galhos, e obrigado mais uma vez ao baiano que me ensinou a perder o medo da chuva e à outra baiana, a maior de todas, que me fez ter a cabeça chata, chata o suficiente para seguir sonhando e compreendendo que há muito mais para sentir e aprender, ainda que as decepções só cessem por completo quando eu, você e todas as pessoas desse planeta… Sumirem.

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Crônica de Um Amigo Louco

caldabrancaJorge Caldabranca é um daqueles caras que a gente só conhece uma vez na vida. Quando penso em sua história, as luzes se apagam e imensos e coloridos pontos de interrogação feitos de papel cartão preenchem minha mente, gerando lacunas indecifráveis, capazes de enlouquecer o mais competente psicanalista que há no mercado. Ainda sim, farei esse esforço.

Como o Dylan da canção, ele também saiu de casa com 12 anos de idade, e assim como o personagem de Long Time Gone, sua mente ficou confusa desde então. Seus pais búlgaros o deixaram em um pedaço de terra chamado Caldabranca nos confins de São Paulo. O objetivo era chegar a Buenos Aires, e talvez o bebê estivesse atrapalhando seus planos. Foram sem ele e nunca mais voltaram.

Jorge Caldabranca viveu na rua, como andarilho, por alguns anos. Não foi mendigo e para evitar tal condição encontrava trabalhos temporários em troca de alguns trocados. Sempre foi esperto e, na primeira oportunidade, matriculou-se num curso do SENAC para aprender a ser garçom. Assalariado, pôde sair das ruas e se dedicar aos estudos. Formou-se em Letras e, de quebra, fez mestrado em Literatura só para poder realizar o sonho de garoto: ser escritor.

Foi professor universitário, escreveu cinco livros depois de ler mais de 1000. Boa parte das histórias que contou veio justamente das experiências vividas como andarilho ou mesmo depois, em subempregos que além de ajudarem nas contas no fim do mês, foram verdadeiros laboratórios sociais, capazes de produzir contos, poemas e romances sinceros e originais; sem as apelações dos escritores de classe média, enfurnados em apartamentos centrais. Suas referências literárias o auxiliam nessa função e, para isso, ele conta com a ajuda de Bukowskis, Kerouacs, Calvinos e uma porção de poetas malditos.

Não poderia ser diferente, conheci-o na rua, por entre retratos de artistas famosos e senhoras com suas sacolas cheias de verduras orgânicas. No segundo encontro, Caldabranca já estava munido de sua câmera de bolso, pronto para me entrevistar. Passamos longas tardes juntos, por entre nuvens esverdeadas e charros, contando causos e em devaneios febris, distantes de qualquer contato com a realidade – que a cada novo ano, se enche de tédio e caretice por todo lado.

Normalmente eu, que sempre fui taxado de prolixo e que sempre insisti em histórias longas, cheias de detalhes aparentemente insignificantes, ficava na maior parte do tempo em silêncio, ouvindo o que o velho Caldabranca tinha pra contar. Nem citarei a idade real do meu novo amigo Jorge, pois prefiro ficar com os “45” que ele mesmo disse que estava fazendo em seu último aniversário. Engraçado, logo 45, prum cara que sempre odiou e vomitou em cima da direita desse país. Sim, Caldabranca é petista de carteirinha, daqueles fanáticos mesmo, que continuam achando que o José Dirceu é mais um herói-vítima-do-sistema-que-ele-não-criou.

Politicagens à parte, Caldabranca se transformou em um personagem de si mesmo, construído a duras penas por um mundo que o cuspiu, o jogou na sarjeta e depois recebeu de volta, na mesma moeda. Seu nome de batismo pouco importa, Jorge Caldabranca ganhou o título honorário de Marquês, concedido por ele mesmo. Quer maior reconhecimento que esse? O de si próprio?

Inimigos de plantão e demais seres pré-históricos que preferem julgar antes de aceitar dirão que Caldabranca não passa do cara mais egocêntrico do planeta. E olha que esse título ele também não dispensa. Em um mundo infestado por falsos modestos e pseudo humildes, como meu outro amigo apontou, Caldabranca é a carta coringa do baralho e ainda que ele possua inúmeros defeitos, para mim ele tem algo inexorável, carente a 99% dos artistas que vemos por aí: autenticidade.

Sim, Caldabranca é, além de escritor, um artista “on the road”, como ele mesmo costuma enfatizar. Já foi ator e recitou sua poesia intitulada “Junkie” mais de 100 vezes em diversos palcos, porém principalmente no Madame Satã em SP. Já pintou um quadro com bolas de sinuca e pretende leiloá-lo em Paris por um milhão de dólares. Caldabranca também é cantor de blues e pretende viajar pelo Brasil com sua Big Band. Como se não bastasse, como roteirista ele pretende trabalhar em São Paulo, diretamente de sua suíte cinco estrelas para uma grande produtora nacional. Quando envelhecer verdadeiramente, morará em Montevidéu, ao lado de sua assistente, sua secretária e sua enfermeira particular. Mas antes, Caldabranca ainda viajará pela América do Sul com a grana do carro vendido e de tantos outros negócios oriundos de uma treta chamada OLX. Antes, Caldabranca também realizará o seu próprio festival de cinema “on the road”, diretamente do campus da USP, na Pauliceia Desvairada. Segundo ele, meus filmes de viagem estarão lá também, e tudo, tudo, não passa de… Metafísica!

E é justamente essa explosão de ideias, projetos e sonhos que fazem desse ser, ímpar, só pra ficar no clichê das palavras redundantes. Muita gente o colocaria no primeiro hospício, mas não poderia deixar de frisar seu senso de responsabilidade e zelo pela própria saúde, algo que faz a distância entre ele e seus possíveis colegas de instituição crescer consideravelmente. Para o senso comum, Caldabranca pode ser inoportuno e irremediavelmente expansivo, pode possuir o ego maior que o do John Lennon. Porém, para mim, ele não passa de um cara alegre, sincero, singular e que consegue aquilo que eu mais invejo em sua pessoa – a capacidade de ignorar a opinião dos outros – seguindo em sua felicidade plena, transbordando otimismo por cada célula de seu corpo ainda jovem, no melhor estilo “dança da realidade” que um tal de Jodorowsky explicou lá atrás, e em um mundo cheio de fakes, como ele próprio insiste em esbravejar por aí.

Caldabranca pode ser avistado na Boca Maldita ou por outras esquinas de Curitiba – a cidade que ele escolheu viver ao lado de Simonetta, sua amante italiana. Cabeludo, óculos escuros e sempre escutando Creedance e outros roques manjados no alto-falante de seu celular, Jorge Caldabranca, um zen-dudeísta de carterinha, exclamará: “pra toda essa gente sou e sempre serei um ghost”.

E só poderia terminar essa “crônica de um amigo louco”, citando outro ídolo maluco conhecido pela alcunha mutante de Arnaldo Baptista… Te amo, podes crer!

 

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O Avô que Nunca Tive

avoquenaotive
Quando criança, perdi meus dois avôs e meu contato com eles foi tão mínimo que minha memória tenta, mas não consegue recordar de absolutamente nada. Um deles costumava brincar comigo e meu irmão mais velho, “como se fosse uma criança”, diria esse mesmo irmão mais velho. Sinais do Alzheimer, que naquele tempo, nem nome tinha.

Porém, eis que em uma tarde iluminada e ensolarada de Itaparica, na Bahia, tenho o prazer de finalmente conversar longamente com meu tio-avô, o “Doutor” Eufrásio. Eufrásio é irmão da minha falecida avó, por parte de mãe, e apesar de passar seus dias de semana em Salvador, dedica seus fins de semana para descansar na sua casa, na ilha de Itaparica, a 13 quilômetros da capital baiana. Uma casa, aliás, formidável, de espaços amplos, tetos altos e a poucos passos da praia. 

Sempre sonhei em ter um avô para, entre outras coisas, ouvir histórias da segunda guerra mundial ou de outras particularidades de seu tempo. Mas Eufrásio vai muito além disso e, em vez de me contar histórias trágicas de guerra, ele me conta que foi membro do partido comunista, e como precisou fugir do país durante o regime militar. Dizia que os militares eram tão burros que certa vez um deles o abordou na frente de seu prédio e perguntou “Você conhece o senhor Eufrásio?”. O próprio respondeu que sim e que “ele morava naquele prédio, atrás dele”. Enquanto o milico entrava no prédio, Eufrásio se esvaiu, indo parar na França.

Nos seus 20 anos, Eufrásio participou da UNE e junto com outros estudantes foi para a China em uma viagem que ficou marcada pela frase repetida por diversos familiares: “O Tio Eufrásio apertou a mão de Mao Tsé-tung”. Sim, ele me contou que Mao fez questão de apertar a mão de todos os presentes e ainda declarar aos brasileiros o intuito de estreitar relações entre os dois países, em uma espécie de previsão do que viria a ser a parceria atual entre os governos, fortalecida pelos BRICS.

Além desse feito, Eufrásio ainda foi fundamental na carreira de um dos pilares do tropicalismo: um outro baiano chamado Tom Zé. Tom Zé procurou Eufrásio, na época integrante do Centro Popular de Cultura, para dizer que estava pensando em voltar para Irará, sua terra natal, pois estava sem lugar para morar e até estava pensando em desistir da carreira musical. Eufrásio lhe disse que havia um quarto vago no apartamento que dividia com mais dois estudantes e que ele poderia ocupá-lo. Tom Zé morou alguns meses nesse apartamento e até hoje possui uma gratidão imensa por Eufrásio, que o acolheu em um momento de dificuldade.

E como não bastasse, Eufrásio, por ter feito parte do Centro Popular de Cultura, conheceu todos os grandes artistas baianos de seu tempo, mantendo relações próximas com Caetano até os dias atuais. Vez ou outra Eufrásio discorda de suas opiniões políticas e os dois acabam trocando emails acalorados como consequência.

Continuo não tendo um avô, mas acredito que Eufrásio, tecnicamente meu tio-avô, seja esse avô que nunca tive e hoje, após nossa última conversa, posso dizer que possuo uma admiração genuína por esse homem, por sua história e pela pessoa amável que ele sempre demonstrou ser.

“Naquela mesa ele me contou histórias que hoje na memória eu trago e sei de cor.”

Obrigado, Tio Eufrásio!