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Casas Abertas e A Nova Contracultura

sarau02Cansados das festas particulares, dos grupos fechados e das ideias caretas de sempre, jovens de espírito livre vêm fomentando uma série de intervenções, festivais, rádios livres, encontros e festas em casas abertas, sem as chatices e mesmices do mercado coorporativo, onde marcas de cerveja e de celulares dominam o setor baladeiro, em megaeventos recheados de estrelas pop, bebidas caras, comerciais de TV e ingressos exorbitantes. Em paralelo, esses mesmos jovens promovem a democratização do conhecimento e da cultura, pregando a liberdade de expressão, a política da boa vizinhança, o consumo de alimentos naturais (e muitas vezes, vegetariano) e a evolução espiritual individual, sem obscurantismos, regras ou rituais pré-estabelecidos e com uma horizontalidade de poderes, onde ninguém é mais importante que ninguém e todos têm algo para aprender, para ensinar, e principalmente, compartilhar.

O conceito de casas abertas, crescente na comunidade curitibana, segue justamente essas linhas. Já tive a oportunidade de conhecer três casas diferentes, mas com propostas semelhantes. Normalmente em uma casa, três ou mais jovens dividem as despesas domésticas e juntos promovem uma série de atividades e oficinas no mesmo espaço, além das costumeiras festas igualmente abertas, regadas de arte, performances teatrais e música de qualidade e independente. Às vezes, paga-se uma entrada, que não costuma passar dos cinco reais, enquanto bebidas e comidas naturebas são vendidas separadamente, a preços justos.

Nas oficinas, em geral gratuitas, as pessoas aprendem técnicas de pintura, fotografia, música, culinária vegana e até malabares, além das práticas coletivas de meditação, yoga e o que mais a imaginação permitir.

Muitos desses grupos têm nomes próprios, os chamados “coletivos”, comumente formados por artistas, estudantes e profissionais liberais da área da saúde, ou ainda da medicina complementar. Jovens com tendências políticas anárquicas e/ou socialistas, no melhor sentido que esses termos possam ter.

O sistema vigente não mudará, o capitalismo continuará fazendo suas vítimas, os meios de comunicação em massa e os políticos continuarão corruptos até os ossos, a educação seguirá precária, porém há sim algo para se fazer. E essas comunidades (muitas, já autossustentáveis), essas casas abertas, formadas por cabeças jovens, cansadas de receberem ordens, cansadas de terem que dançar uma música não escolhida, cansadas dos mesmos canais de comunicação, dos mesmos líderes decadentes e das mesmas opções nos cardápios, cada vez mais caros, enfim, essas comunidades abertas parecem apontar a direção que deveríamos seguir.

De algum modo estranho, os protestos do ano passado seguem ecoando e as mudanças estão ocorrendo em doses homeopáticas, em corredores invisíveis e sem líderes ou partidos. Essas mudanças partem de seres humildes e com ideais libertadores, cheios de luz e força de vontade para criarem uma nova ordem, positiva e humana, com valores reais e sonhos coletivos possíveis. Os sonhos são coletivos, mas o trabalho será sempre individual e livre, respeitando as limitações de cada ser humano, e sem as classificações ilusórias de acordo com aparências. Os hippies estão de volta e estão mais conscientes do que nunca. A nova era, profetizada nos anos 80 pode estar sendo construída debaixo dos nossos olhos.

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A Morte

morteA senhora avisou. Ontem dois rapazes da funerária estiveram aqui no condomínio. Perguntaram se era ali que eles deveriam ir. Ela, assustada, disse que não ou, pelo menos, não sabia de ninguém que havia morrido aqui, na casa da minha querida mãe. A senhora me disse que os rapazes entraram e saíram do apartamento do vizinho com o corpo num latão, alguma espécie de caixão de lata, pré-caixão de madeira. Um dia esses rapazes virão para me colocar em um desses latões também. Eu, minha mãe, a senhora e você também, que está lendo esse texto de tons mórbidos.

E ainda nesse assunto, lembrei-me de um amigo que disse estar em casa outro dia, quando um casal bateu em sua porta pedindo informações sobre seu vizinho. Disseram que estavam tentando entrar em contato com ele há um tempo e, sem retorno, resolveram bater na porta dele, também sem resposta. Meu amigo decidiu pular a janela para averiguar a situação e quando entrou no apartamento, o vizinho, um senhor de cinquenta anos, corcunda e simpático, estava lá, na cama, sem pulso e sem simpatia, mortinho da silva.

Sobre essa finitude, ninguém quer saber. A vida já é muito complicada pras pessoas se preocuparem com a morte. E pra não terem que se preocupar com esse problema, o povo paga seguros funerários, alguns até parcelam o terreno no cemitério, ao lado de outros membros da família, com direito à lápide talhada à mão e com frases de efeito, os famosos epitáfios. Há até um famoso epitáfio popular inglês que diz: “Lembre-me quando você caminha ao meu lado, como está agora, uma vez fui como sou agora, vai ser você. Prepare-se para a morte e siga-me.”

Mas quem sou eu pra me preparar para a morte? O George Harrison? Estou aprendendo, aos trancos e barrancos, a me preparar para a vida, com seus altos e baixos, seus longos períodos de apatia, onde tudo parece se repetir e nada de novo e realmente interessante acontece. Até que um belo dia, o universo decide jogar alguma missão em suas mãos, algo que fará você se sentir menos ordinário e mais heróico. Algo que você provavelmente não conseguirá explicar o porquê, mas sentirá em seu coração uma força imensa que o capacitará para realizar a missão, ou ao menos, tentar. Muitos desistem antes de tentar e isso é definitivamente muito triste.

E, no fim, nosso tempo aqui na Terra é curto demais e talvez não haja muitas dessas missões e se formos comparar nosso tempo, vivo, ao tempo do universo, aos bilhões de anos de existência desse planeta, que agora até irmão parecido tem, só o nome que é feio demais (Kepler-186f), enfim, se formos comparar nossos 50, 70 ou 100 anos de vida com esses outros bilhões aí, estamos aqui por frações de segundos. E isso, aliado à imensidão do universo, faz com que Carl Sagan diga que não passamos de um pálido ponto azul.

E você ainda quer que eu me preocupe com a morte?

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Formigas

sorrisoQue coisa é essa que faz os amigos sumirem? Que faz o tempo se tornar escasso e nos lembrar de que ele é finito como tudo na vida? É o dinheiro? O carro, o apartamento, as contas pra pagar e os filhos pra sustentar? É assim que nos ensinaram desde que éramos criancinhas brincando de esconde-esconde? Você cresce, estuda, passa no vestibular, se forma na faculdade e vai pra onde mesmo? Ah, o mercado de trabalho, o maldito mercado de trabalho que nos corrói, sacando o que há de mais belo e de mais sincero na vida. Falo da nossa individualidade, nossa liberdade para ser o que quisermos ser, sem compromissos ou roteiros pré-definidos.

Lá vem ele com aquele papo hiponga de sempre.

Definitivamente o tempo livre, o ócio, assusta. Não ter nada pra fazer, não ter prazos ou metas pra cumprir não é pra qualquer vagabundo. Tem que ter aptidão pra coisa, um certo dom dudeísta, pois como diz um velho ditado, mente vazia é oficina do diabo e é fácil se deixar levar por vícios, pelas drogas, pela prostituição ou, pior que tudo isso, pela TV. Ficar sem nada pra fazer e ligar a TV talvez seja o maior pecado que alguém possa cometer. É ali que o diabo opera, com seus reality shows, seus programas de auditório, seus telejornais, suas novelas e seus jogos de futebol.

Eu? Eu tento ficar longe dela, tento ocupar meu tempo com outros passatempos, como tocar piano porcamente, ou assistir alguma série decente na netflix. E para não me afundar na passividade, procuro produzir, pintar, escrever, fotografar, filmar, enfim, o meio não importa, a arte é pra mim a única coisa que se salva nessa vida, a única coisa que pode ser autêntica, mesmo que na maior parte das vezes não seja.

Profissões, empregos de carteira? São ilusões, e como diria Emile Hirsch, são apenas invenções do século 20. Já estamos no século 21 e o povo continua acreditando nisso.

Ok, entendo que ter um emprego nas costas e mais do que isso, um salário fixo e condizente com o padrão de vida que você queira ter é fundamental, mas você não precisa transformar esse emprego na sua vida. Há coisas muito mais importantes do que seguir instruções de algum chefe qualquer, ou cumprir metas e prazos. Pensar, refletir e filosofar é o que nos difere da maioria dos outros animais, no entanto, poucos o fazem. E não fazendo, tornam-se cada vez mais parecidos com as formigas, seres que passam a maior parte do tempo trabalhando sem questionar absolutamente nada.

E é isso que vejo acontecendo com a maioria dos meus amigos na faixa dos trinta. O trabalho se tornou a própria vida, simplesmente porque não sobra mais tempo para não fazerem mais nada. Ou, pelo menos, para saírem com os amigos, tomarem uma cerveja, falarem besteiras e olharem para Lua ou Marte que nesses dias, andou se aproximando da gente.

Se existe um Big Brother, os Illuminati ou seja lá quem, com certeza é isso que eles querem da gente. Não pensem, escolham uma profissão, estudem e depois trabalhem, trabalhem, trabalhem. Com todo esse trabalho vocês conseguirão comprar aquela TV de 60 polegadas, aquele celular da moda e, dependendo do esforço, talvez até um iate vocês terão um dia. Quando envelhecerem, parte desse dinheiro será gasto com cuidados médicos, necessários quando se passa metade do dia sentado na frente do computador em algum escritório no centro da cidade.

E talvez quando vocês tiverem 70 ou 80 anos, ao olharem o sorriso do seu neto, brincando de esconde-esconde, vocês perceberão que a vida, no sentido poético e verdadeiro, existe nesses momentos. O escritório, a sala de reunião, o consultório, a sala de recepção, o estúdio de gravação, tudo é pretexto pra que vocês continuem sendo… Formigas!

E como eu gostaria que essas linhas pretas expelidas em uma página de internet representassem alguma mudança real na vida dessas formigas, mas talvez essas linhas não passem de mais um lamento enferrujado, provocado pelo vagabundo da esquina que insiste em não gostar de trabalhar. Quanta teimosia!

 

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Facebook

Hoje eu não vou postar nenhuma foto de protesto contra o atual governo. Não irei postar flechas apontando como sou diferente dos outros. Não postarei mensagens filosóficas bonitas ou fotos dos lugares que estive. Também não postarei charges engraçadinhas ou clipes das bandas que costumo escutar. Não postarei notícias interessantes da BBC ou do Terra e muito menos fotos das festas dos meus amigos. Hoje não postarei as coordenadas de onde estou ou de onde entrei. Também não postarei memes ou fotos de crianças desaparecidas. Não postarei citações de gente famosa ou minha nova foto do meu perfil que acabei de tirar no celular. Hoje e especialmente hoje, não postarei mensagens sobre as coisas que gosto de fazer ou sobre como fui na prova de ontem. Não postarei imagens chocantes sobre grandes causas, sobre o desmatamento da floresta amazônica, a indústria da carne ou sobre a situação dos índios guarani-kaiowá. Também não irei postar mensagens informativas sobre questões de segurança das redes sociais ou mensagens de conscientização sobre a doação de sangue ou qualquer coisa do gênero. Hoje não postarei receitas milagrosas de curas ou de como conseguir dinheiro rápido ou o de como conseguir sua alma gêmea. Também não postarei nada em inglês ou em qualquer outra língua para soar mais inteligente do que os outros. Não postarei imagens engraçadas, piadas infames, mensagens sobre o dia de sei lá o quê, flyers do próximo show da cidade, fotos da minha nova tatoo, da minha nova namorada ou do meu novo carro, mensagens espirituais ou anti-homofóbicas, fotos de cachorrinhos perdidos ou para adoção, mensagens contra o rival do meu time, fotos da última catástrofe, propagandas de sites, promoções aéreas ou de qualquer outro produto, ofertas de emprego, fotos de quando eu era uma criança linda ou fotos de flagrantes do cotidiano, ditados populares, ilustrações iradas, esculturas de areia ou de cera ou de qualquer outro material imprevisível, fotos de bebês ou de animais fofos fazendo coisas fofas, fotos de casamento ou do filho que nasceu (essas costumam fazer muito sucesso), enfim, no dia de hoje e especialmente hoje não postarei nada dessas coisas e ao invés disso escreverei esse texto com o objetivo de se tornar uma espécie de ode a vida real, que quando vivida intensamente, não há espaço para uma coisa tão insignificante e banal chamada facebook.

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Fé.

Em tempos difíceis – para usar os mesmos termos que usei anteriormente, outra questão evidenciada e enfatizada por todos é justamente aquela que parece unir e ao mesmo tempo separar algumas pessoas. São duas letras capazes de produzirem uma série de divagações e convicções para todas as direções e sentidos: a fé.

Pessoas supostamente inteligentes costumam dizer que não acreditam nessas coisas, que é tudo papo de igreja buscando fiéis e novos bolsos para construírem seus impérios pessoais ou seus templos estilo shopping center, de grandes vidros e de aparência messiânica.  E isso parece ser o caso toda a vez que vemos alguma história na TV, sobre algum pastor malandro, ou algum padre pedófilo, para não ficarmos na mesma religião. Afinal, perseguições e generalizações são de fato, ignorantes e produzem falhas que são difíceis de serem corrigidas em um curto prazo.

Pois bem, a fé, muitos dizem, não é para ser discutida. E isso eu preciso concordar. Afinal, discutir uma escolha pessoal é como discutir a preferência por algum time, ou até a preferência sexual, que por sinal, não acredito ser bem uma escolha, mas enfim, isso é papo para outro texto (já escrito antes nesse blog).

A questão é que existem pessoas que parecem insistir em uma idéia, e acabam utilizando os discursos errados e repetitivos para atraírem as outras pessoas para essa mesma idéia. E quando falo de idéia, não estou falando de algo necessariamente proveniente de um pensamento lógico, mas falo também daquelas pessoas que realmente tiveram experiências espirituais profundas que as levaram para alguma determinada religião, filosofia ou crença, ocidental, oriental ou até de outro planeta.

O que infelizmente essas pessoas não conseguem perceber, é que ao defenderem e promoverem suas ideologias, elas acabam se tornando escravas de seus próprios egos, pois possuem uma enorme dificuldade em entender um caminho diferente daquele traçado por elas mesmas. Somos filhos de Deus ou do Criador ou de qualquer outra coisa que não sabemos ao certo o que é. Quem sabe um ET se você se identificar com “Os Deuses São Astronautas” ou qualquer coisa do gênero. O que sabemos é que não somos maiores do que ninguém e, portanto, é de no mínimo desconfiar de alguém que diz ter encontrado a verdade absoluta e que essa verdade é restrita a um grupo de seguidores.

É no mínimo natural admirarmos aquilo que nos deu a vida, alçando essas coisas a um patamar grandioso, sejam nossas queridas mães ou em uma esfera mais ampla, o criador de tudo, ainda que esse criador esteja infinitamente acima de qualquer compreensão humana, ou mesmo que tenhamos vindo de uma grande explosão, como os cientistas gostam de nos lembrar (e nunca direi que eles estão errados, pelo menos não nesse papo).

Mas além de sermos filhos de alguém ou de algo, somos indivíduos e pela própria definição, temos características e personalidades próprias e de alguma forma ou de outra, tomamos nossas próprias decisões, mesmo que influenciadas por amigos, familiares ou o dito cujo “sistema”. E através dessas escolhas começamos a traçar nossos caminhos, levando em conta valores que julgamos interessantes: materiais, físicos, psicológicos, éticos, espirituais ou talvez uma combinação de dois deles ou de todos os cinco.

E toda a vez que escutamos uma idéia nova, ou somente uma simples palavra diferente, parecemos nos direcionar àquilo que já estávamos acostumados ou que já havíamos construído e solidificado em nossas mentes anteriormente. E assim, deixamos de escutar os argumentos do outro indivíduo, sem percebermos que assim, nos fechamos para algo que poderia ser bom para a gente, ou caso julguemos prejudicial, deixaria ao menos o outro mais contente pelo simples fato dessa outra pessoa perceber que você a escutou, sem julgamentos, preconceitos, ou radicalismos estúpidos.

Há também aqueles que por se cansarem dos mesmos discursos, muitas vezes em tom de pregações, de religiões modernas ou até de filosofias milenares, preferem se fechar nesse assunto, nessa coisa de buscar um caminho espiritual, mesmo que não convencional e longo, pra não dizer eterno.  E isso acaba entristecendo aqueles que por algum motivo, estão dando os primeiros passos nessa estrada e que sentiram suas vidas profundamente mudadas por esse negócio, difícil de explicar. E assim, gostariam que seus entes queridos, o acompanhassem nessa estreita estrada.

Porém, precisamos se lembrar que nunca poderemos pensar pelo outro e muito menos sentir pelo outro. Podemos sim, falar das nossas experiências, do que acreditamos, mas sempre com o cuidado de não soarmos chatos e repetitivos, como ironicamente, já disse antes. E para falarmos desse assunto é imprescindível escutarmos o outro e usarmos a sensibilidade que nos foi dada, ou ao menos trabalhada, para sacar o que outro consegue entender, ou em outras palavras, precisamos falar sempre a mesma língua e para isso, é interessante buscarmos os símbolos corretos e que podem e irão variar de pessoa pra pessoa.

Parece uma missão impossível, eu sei, mas gosto de acreditar que o mundo está mesmo mudando e que aos poucos, as pessoas estão percebendo a necessidade de compreender o outro, e de perceber que justamente pelo mundo estar mudando é fundamental acompanharmos essas mudanças. Mesmo que para isso, necessitemos de bases sólidas (como diria Dylan “may you have a strong foundation when the winds of changes shift) e sigamos nossa intuição, no sentido de buscarmos o bem comum, sem complicações.

Por fim, cito outro compositor, David Bowie, que nos dá o toque: “Love will clean your mind and make you free”.

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A Força

Alguém me explique por que desde que o carnaval acabou os dias têm sido nublados e chuvosos? É verão, mas dentro de mim é o inverno mais frio de toda minha vida. Só posso pensar que isso tudo é porque minha mãe continua dormindo, descansando e se recuperando ao redor de homens e mulheres que não conheço, vestidos de branco, azul e verde-claro.

A vida da minha mãe sempre foi cheia dessa mesma vida, uma vida cheia de alegria e cores vibrantes, daquelas de arder o olho. E é com essa vida que quero vê-la, mesmo que os doutores digam que isso possa levar um tempo, alguns dias, semanas, ou sei lá o quê. Ninguém deixa de ser forte e persistente de repente e minha mãe não será diferente. Acredito na sua luz e que a cada dia é fortalecida pela luz daqueles que a amam. E olha que tem muita gente nessa corrente. Gente que eu nem lembrava mais que existia. Gente de longe, gente de perto. Gente do mesmo sangue ou não. Gente tão boa que fico feliz só de saber que minha mãe as conhece.

De fato, são dias difíceis. “Strange Days” como diria um tal cantor de rock aí. Mas a gente segue vivendo, respirando fundo e tentando organizar os pensamentos na cabeça, de alguma forma que eles possam nos confortar, ao invés de nos assustar. Afinal, como já diria outro poeta aí, a vida a gente inventa e você escolhe pra onde a bola vai parar. Uns a botam pra baixo e outros, pra cima. Minha mãe andou botando ela pra baixo em algumas ocasiões, mas a gente entende. Coisas de mãe.

Não sei, mas sinto que o momento presente pede pra que eu a chute lá pras estrelas, com a maior força possível.

Se precisar, quebrarei o pé tentando.

 

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“Projeto Zero”

Na praça central ou quem sabe na única praça daquela cidade no meio do deserto há um homem de meia idade. Ele carrega seu carrinho de bebê e a única outra forma de vida que o acompanha é seu cachorro, também de rua, preso em uma coleira feita com alguma corrente. No carrinho, alguns pães que são distribuídos aos poucos ao cachorro, saudavelmente faminto.

No fim da tarde, o senhor de barba rala regressa à sua casa, ao lado da ponte usada pelos mochileiros para conseguir alguma carona até a cidade grande mais próxima. Nesse momento, seu carrinho de bebê é usado para carregar a terra e o pó que cercam seu lar. No horizonte próximo, formações arenosas compõem um cenário desértico sereno de cores pastéis. E ainda em seu terreno improvisado, o senhor de meia idade utiliza seu carrinho de bebê cheio de terra e pó para construir o que ele chama de “Projeto Zero” – uma quadra de tênis feita da terra e do pó do deserto, com uma rede feita de sacos de plásticos ou batatas. Observando tudo do lado de fora da quadra, está seu cachorro, agora sem correntes e com o olhar atento.

Paciente e com um objetivo fixo na cabeça espessa, o homem descarrega seu carrinho de terra e mira um casal de mochileiros dizendo a eles que caso eles não consigam a desejada carona, há espaço em sua humilde casa feita de barro, logo ao lado de sua nobre construção esportiva feita de coração, suor e daquele pó do deserto, responsável por colorir as mochilas e roupas daquele casal de viajantes.

San Pedro de Atacama, Janeiro de 2011