contos

Vagos Vagões Verdes

pace_vagoesverdesO feixe de luz que entra pela fresta da janela levemente aberta provoca um espetáculo visual, especialmente pela fumaça acumulada dos parceiros e habitantes do quarto da tríplice fronteira argentina-paranaguá-fortaleza. Ondas esfumaçadas em movimento constante assim como os pensamentos incessantes de quatro estranhos seres que por obra do destino, compartem o mesmo espaço tempo construído a duras penas por gente maluca que continua acreditando no sonho do artista. Correntes de fumaça com 500 tons de cinza, notas musicais imaginárias, quadros esboçados pela mente, palavras não ditas, novelas vividas, ziquiziras somadas com os pêlos brancos que brotam em peles queimadas pelo sol dos primeiros dias de outono. Dias arrastados e abafados e que provocam sono, um sono com lindos sonhos delirantes e muitas vezes, reconfortantes. Sinais aleatórios que apontam a direção? Equações existenciais não resolvidas, teoremas sem lógica, cartas fora do baralho, contas que não fecham, relacionamentos pixelados criadores de enormes pontos de interrogação. Interrupções amorosas, paixões abruptas tão redundantes como os seus redondos seios, a vida segmentada, por vezes celibatária, anárquica em essência e indefinível na realidade. Quem sabe os códigos binários castigados pela idade pudessem facilitar essa resolução? Assim como o velho novo Zé, é preciso confundir para se fazer entender, e nada melhor que aquelas ondas esfumaçadas provocadas por aquele feixe de luz para incitar essas torres neurais, capazes de conexões improváveis numa tentativa de comprovar a teoria de tudo, ou talvez aquela que diga basicamente que somos todos um: somos todos Mussum, e Mussolini também. E o caos? Até o caos estaria conectado? Johns e Manu Chaos juntos pelas mãos do universo.

Silêncios rotineiros, falsas previsões do tempo: desse tempo marcado por incertezas, montanhas russas emocionais, feministas ucranianas e novelas de papel: do papel enrolado por beckenbauers bebendo Jack Bauers, enquanto na vitrola microscópica e irreal o jazz eclode pelas previsões do tempo do tio Jordi. Na mente, os velhos subterfúgios de siempre, subterrâneos e saudosos blues, submarinos amarelos e vegetarianos, subversivos e desalinhados subtextos, subtrações linguísticas, submissas palavras sublinhadas nos subúrbios cerebrais e nos “artificiosos brejos da alma”. O subcomandante é convocado para assumir a bronca. O comandante de campo Cohen abandonou o jogo, mas eu continuarei te escutando muito tempo depois de você ter nos deixado, thanks for that tip man. Retratos antiquados e repaginados na lojinha dos curiosos.

Na beira do mato a paisagem é uma floresta com bonecas semióticas do vô Jards. Na beira do mato o calor é interno, os abraços são ternos e o vento parece eterno. A encantada fogueira também. No palco os saltos da trupe ordinária alegram as cabeças presentes nesse extraordinário recanto, enquanto na cozinha as esfihas celebravam as vidas não-sacrificadas. Memórias póstumas de outro fim de semana com o combo certeiro para hippies e hipsters de plantão: natureza e festival musical capazes de encher as esperanças em tempos sombrios. Vivemos o pesadelo político capitaneado por vampiros do poder, milicos travestidos de heróis e juízes narcisistas com biografias encomendadas. O cenário perfeito para discursos estúpidos para uma plateia de fantoches, sejam eles amarelos, vermelhos ou albinos com pintas azuis. O pensamento crítico ficou enclausurado em postagens repetidas nas redes sociais, organizadas por algoritmos retardados. O compartilhamento de informações agigantou-se com a tecnologia, mas esses malditos algoritmos estragam qualquer possibilidade de debate real, ainda que em meio virtual e com gente que teria vergonha de dizer certas coisas caso o papo fosse de fato real. E por que a insistência em escolhermos um lado se está cada vez mais claro que a maldade faz parte da condição humana e não será um perfil de feicebuque ou um partido político que livrará alguém de fazer merda? Wallace Coopers e Walkilmers parecem já saber disso. Necessitamos de métodos mais eficazes para combatermos essa so called corrupção. Algo que dispensasse humanóides broncos e mal intencionados. Talvez esses mesmos algoritmos, misturados com conhecimentos da inteligência artificial bem no estilo daquele espelho preto que tanto adoramos, pudessem de fato, nos ajudar nessa aparentemente impossível tarefa de apontar os verdadeiros vilões da história, de forma 100% segura. E se as dúvidas das urnas eletrônicas atrapalharem a evolução desse poderoso projeto, podemos ignorá-las ou usarmos essas polêmicas urnas como um exemplo para não ser seguido. Guidos Faraônicos e Gustavos Marcianos parecem não saber disso.  

Os vagões da mente seguem desconexos, rompendo limites e com a infindável missão de encontrar trilhos seguros que me levem para pueblos tranquilos, onde o bom senso possa reinar e me salvar do apocalipse iminente. E chega de ser do contra, “não quero torcer contra, quero torcer a favor de nós”, ainda que seja preciso desatar nós seculares para que esse Nós capital se desprenda dessas raízes terrestres que nos fazem cada vez mais insignificantes, e assim possamos perceber que essas raízes são de fato, celestes, e portanto, universais!  

Anúncios
contos

Argentos, Chicos e Letícias

argentos

Encanamento quebrado e um frigobar transformado em objeto científico, sem gás e recoberto de potentes fungos, capazes de provocarem um dos piores odores de que se tem notícia.

É nesse antro explosivo, repleto de manchas nos azulejos, marcas estranhas nos espelhos e de pinturas bipolares nas paredes, que eu tomo meu primeiro banho de porta aberta e me dou conta de que estou sozinho. Sozinho no velho espaço do último ciclo vital, ou naquele ambiente insólito que já chamei de casa.

Nem sei o que sentir, tem o vazio deixado pelos chicos e pelas marias, tem aquela cara de chegada de alguma viagem longa, dessas que a gente inventa por aí, de sair pedalando como o xará e o maestro, de levantar o dedo sob algum vento novo, de escalar morros ou simplesmente permanecer na própria cidade, zanzando e colocando as pestanas para propósitos verdadeiros, projetos intracontinentais, novas funções, criações momentâneas envolvendo uma meia dúzia de argentos, alguns instrumentos, uma bocada de empreendedores duvidosos, eventos multiculturais, muita paciência e ainda uma exposição reciclada sem capitães e em pleno setembro-chove.

Falando assim fica mais fácil, atropelo sentimentos tolos e caretas e deixo a palavra saudade acaçapada naquele dicionário da família Buarque de Holanda, distante dos outros idiomas que a desconhecem. Aproveito para agafanhar palavras desse livrinho roxo, e engranzar nessa história, cada detalhe e cada partícula de emoção, as boas e as ruins, que vivi nesses cinco locos meses ao lado dela e desses vagabundos callejeros – um bando de aproveitadores e inconsequentes, desses que insistem na utopia da liberdade galeana e para isso contam com a ajuda de algum bom coração, alguém que como eles, também se sente vivo e maldito por tentar ser artista na pior hora possível.

Atravessamos esse duro inverno curitibano, absortos em cortinas de fumaças variadas, transmutando as malas ondas e remando contra as correntes, mas espere, antes que eu siga nessa conjugação maioral e pluralizada, parte de algum discurso motivacional para uma plateia de adolescentes famintos por direções, antes que eu siga adiante na caminhada citada pelos seletores de freqüência; preciso respirar, acrescentar vírgulas, e esquecer um pouco esse papo de coletivo, de união e de não sei mais o quê.

Palavras ruidosas ou poéticas não irão me salvar e o consolo é saber que talvez tudo isso seja parte de alguma história maior, que será arquitetada nas próximas décadas em passos curtos, por gente cansada das ladainhas do passado e das promessas generosas, e que sabe ou sente que a pontuação é relativa, e que para chegarmos próximos de qualquer grande sonho é necessário começarmos por algum beco.

Com ela comecei, repetindo padrões impulsivos e provocando infindáveis discussões entre espelhos distorcidos e manipulados por premieres e photoshops, maquinetas capazes de transformar roteiros novelescos e fotos repetidas em algo supostamente fresco e palatável para a rotina caótica em que eu havia me metido.

No apê circular convivi com Letícia, seu gato Rodrigo, seu amigo colorido, suas janelas sem cortinas e seu banheiro sintonizado na rádio em tempo quase integral. No quarto, imagens de divindades orientais e cobertores sedutores me lembravam das contradições ambulantes e agora, enquanto escrevo e redesenho essas imagens, percebo pelas rimas naturais dos dígitos que ainda levarei algum tempo para compreender aquela nossa relação, as reiteradas faíscas, os desejos conjugais partidos ou os defeitos gritantes de ambos os lados.

Enquanto isso, do outro lado do centro, na rua que homenageia solenemente o clássico “Besame Mucho”, os argentos mais piolas seguiam suas metas diárias, de conseguir moedas e notas pequenas para encherem suas panças no restaurante sem quilo, saciarem os tédios noturnos no bar dos facitos e manterem o quilombo no apê emprestado.

O bolo crescia ligeiramente e logo o local, que já fora palco de peças melancólicas estreladas por artistas quarentões, famílias em tratamento hospitalar e mochileiros estrangeiros, agora recebia membros de uma orquestra de músicos de rua, mesclados com uma trupe londrina e com o garoto de ouro da rádio clandestina.

Agora, definitivamente sozinho, sem Letícia, sem Caldabranca (este se foi para Roma, ser bonvivant) e sem os hermanos, tomo um banho de porta aberta, enquanto tento entender o que foram esses cinco loucos meses. Certamente aquele apê carregará histórias para as próximas décadas e como diria o velho Waits sobre despedidas: “Well today is grey skies/Tomorrow is tears/You’ll have to wait til yesterday is here”.

E se o ontem não está por aqui, resta a esperança no amanhã e a calma no hoje.

Primavera, seja bem vinda.

contos, Dicas Musicais

Sobre os chicos e outros caras legais

guacamate“As pessoas estão carentes e deprimidas, em busca de algo sincero e autêntico ou simplesmente amor”, disse o gaúcho, corretor de seguros contra desastres dentários. Isso antes da chuva que acabou com o sonho latino de um inverno curitibano que por algumas horas cedera espaço para cinco argentinos alegrarem o domingo dos passantes da feira que já foi hippie, mas que agora é só mais um cartão postal da “cidade dos normais”. E  na canção do Escambau, o rompante pop-radiofônico sobre a falta de emoção na vida daquelas pessoas havia sido quebrado pela eminência da chuva, naquele momento em que o céu ficou preto e eu atendi aquela ligação no meio de uma gravação através da máquina do tempo menor do mundo. Justo naquele momento tão alegre e pueril, com um maluco vestido de mulher e interpretando um ser invertebrado, um baterista virtuoso e humilde, um baixista buena onda, uma clarinetista aprendendo as canções enquanto toca e ainda uma trompetista tímida por não querer molestar o saxofonista antigo que tocava do outro lado. E como se não bastasse, na plateia ainda tinha uma miniatura de um James Dean, acompanhado de sua namoradinha de no máximo sete anos de idade, porra, naquele momento tão pleno e ingênuo e quando o sol ainda se esforçava para seguir brilhando e iluminando esse povo todo, o telefone toca e preciso fugir.

“Você abandonou sua barraca, as senhoras estão putas contigo, tem uma fila de gente para comprar suas coisas”. Desligo o celular da Janis mais preocupado com a gravação ou o coito interrompido pelo toque e talvez aquela viagem no tempo tenha ficado apenas na memória, e desde quando o homem ou Deus decidiu que a felicidade ou a alegria teria um prazo de validade? Corro como um louco e quase que instantaneamente, na medida em que mais gotas caem do céu, meus passos aceleram e sinto naqueles corpos estranhos, cheios de sacolas e sombreros, a tensão provocada pelos pingos e pelos ventos fortes que segundo alguma moça bonita na TV, também deve vir da Argentina.

Mas algo mudou em mim naqueles segundos. Talvez eu estivesse cansado demais, cansado e mais sensível que uma garota de trinta anos em TPM ou como qualquer canção lenta do Roberto Carlos, pré 73. Já havia me emocionado pra caralho na noite anterior, quando vi de novo a banda callejera arrebentar naquele pub europeu cheio de gente rica bebendo whisky e champagne e fumando charutos grandes, bem no estilo daquele blues da prisão de Folsom. E se lá fora meus amigos se comportavam como jovens se comportam em bares de velhos, lá dentro eu me esforçava para não me sentir um jacu ou mais um rosto jovem estranho, vestindo roupas velhas e desbotadas e com botons duvidosos achando que entende alguma coisa de jazz e blues apenas por conseguir ficar calado por alguns minutos. Um bicho do mato e do Paraná, um forasteiro dentro da sua própria cidade, um Caldabranca ocupando um quarto de hotel em São Paulo enquanto luta para se manter invisível, um outsider visionário ou apenas um cachorro louco tentando “romper a barreira do tempo” num boteco típico dos beatniks de outrora; mas que no Brasil do século 21 é cenário pra gente bem sucedida gastar seus tostões e sentirem que estão em Londres, em Barcelona, Berlim ou em qualquer uma dessas partes escolhidas por brasileiros convencionais de uma classe média que há quinze anos se fodia para conseguir passar o fim de ano com a família que morava longe.

E talvez o que tenha me deixado ainda mais feliz nessa noite, além daquele jazz argentino cheio de malemolência e outras palavras da moda, e além daquela jam incrível dos chicos com aquele blues man e seu sapato de mil reais de couro de crocodilo comprado pela namorada, talvez o que tenha me deixado bem alegre e contente tenha acontecido depois dessas paradas todas.

João, o fotográfo de meia idade e cheio de ódio contra hipermercados e seus estacionamentos infinitos, João, o colecionador de vinis dos anos 80, quando seu cabelo ainda era preto e deveria pesar uns dez quilos a menos, João, esse nome que, porra, é o mesmo do meu pai que não vejo há décadas e que agora descubro que seu celular está desligado. João, o outro, o novo brother dos tragos e dos largos, João, me chama e me pergunta: “Hey, você já viu o que tem aqui fora, naquela caçamba de entulhos e lixos?” Me aproximo e João começa a me mostrar mapas de Paris antes de 1900, muito antes de aquela torre famosinha existir, e com certeza muito antes de qualquer brasileiro sonhar  ir para Europa, isso, é claro, se a pessoa não fosse um Villa-Lobos ou algum outro gênio apadrinhado pela nobreza. Logo os chicos buena onda se acercam do garimpo e ainda encontram um escorredor de pratos em perfeito estado, algo ainda inexistente naquele quilombo que eles se acostumaram a chamar de casa.

No dia seguinte, chego à casa de Letícia, a casa que aos poucos se transforma na minha também e lhe mostro um dos mapas que, pela idade e pela decadência natural do tempo agregadora de valor e estética, poderia muito bem ser a peça ideal para decorarmos nossa adega de vinhos promocionais que, por enquanto, segue existindo apenas nas nossas cabeças. Sim, porque existe a cabeça da mulher e a cabeça do homem e existe uma outra, ainda mais misteriosa e poderosa, que é a cabeça do casal, da entidade, que aos trancos começa a se constituir. Poderia seguir falando sobre cabeças, grandes ou pequenas, de um bando ou apenas de alguém bem especial que me ajudou a ser quem eu sou hoje e que agora descansa em uma cama ao lado de senhoras do bem. Poderia seguir falando de todas essas cabeças, mas vou preferir seguir lembrando esses dois instantes mágicos provocados por uma banda de jazz ou uma verdadeira locomotiva do amor, e por João “das Couves”, um cara conectado com a natureza e com cada coisa ao seu redor.

E como diria um tal “urbenauta”, viajar na sua própria cidade é mesmo muito legal.

contos, Dicas Musicais

Incêndio na Festa Proibida

melange

Burburinhos e pseudoameaças suicidas instauraram um clima de caos e tensão nas horas que antecederam a primeira grande festa do DCE – o centro acadêmico da UFPR, responsável por abandonar o prédio e deixá-lo infestado de junkies e nóias. Portanto a festa não seria propriamente do DCE, mas dos coletivos que ali coabitam: a rádio gralha com o incessante debate sobre mídia livre, o El Quinto com suas oficinas gratuitas de arte, fotografia e malabares, e o ANTIFA, um grupo antifascismo com sua resistência ao sistema vigente, que oprime e segrega e que não faz nada para mudar esse panorama.

Após todas as correrias que envolvem uma festa como essa, as peças começaram a se encaixar quando cinco argentinos chegaram ao terceiro andar e montaram seus instrumentos. Munidos da buena onda e de sentimentos de estarem viajando o continente, tocando para o povo na rua e onde mais eles sejam requisitados, esses quatro caras e essa linda garota chamada Fiamma, incendiaram o palco improvisado, e desta vez o “incêndio criminoso” saía de suas incríveis melodias, improvisos jazzísticos e de uma cozinha coesa cheia de swing.

Quem estava ali mal podia crer no que acontecia diante de seus olhos, vermelhos e de brilho intenso, ou ainda debaixo de seus narizes, esbranquiçados e furados.  O prédio já havia abraçado centenas de bandas, normalmente de rock, rap e punk, mas talvez nunca uma banda de jazz argentina daquele calibre. A cada acorde, a cada soprada oriunda do trompete de Fiamma ou do sax de Pipi, o povo se extasiava, balançando os quadris para todos os lados.

Mélange de Culture, o nome do quinteto, poderia também ser considerado o melhor antidepressivo que há no mercado. A cada apresentação, eles seguem injetando doses cavalares de alegria e serotonina para jovens de até 90 anos de idade.

E nesse último sábado, não foi diferente. Em minutos, a sala ficou pequena, transformando-se em um poderoso caldeirão cultural, uma mistura de ritmos calcados no jazz e no improviso, um mélange que faria os beatniks se sentirem orgulhosos.

Curioso foi o desfecho do show, quando os músicos saíram do prédio e Fiamma foi abordada por um ogro sexual com uma mão cheia de más intenções. Com uma resposta instantânea, Fiamma  deu um tapa forte em sua cara de pau, o que fez com que esse ser desprovido de coração a empurrasse. Revoltado, Pipi revidou com um soco estilo Rocky Balboa.

Triste é ver essas coisas acontecerem justamente no prédio onde o debate acerca das minorias e dos tantos ismos se faz mais presente.

Ainda a caminho de casa, Fiamma, Mariano, Pipi e Gastón (o contrabaixista genial) se deparam com outra cena grotesca: um cara com um cordão no pescoço amarrado a um poste, enquanto uma garota, talvez sua ex-namorada, o xingava e pedia ajuda. Pipi decidiu cortar o cordão, provocando a ira do suicida que partiu pra cima dele, em mais uma confusão bisonha. Mariano, o baterista sex symbol da banda, disse que nunca havia visto Pipi brigar. Nesse dia, Pipi precisou acessar seus instintos selvagens em dois momentos distintos, separados por alguns minutos.

Seguramente ser uma banda nômade não é para qualquer um. Não basta ter talento ou um bom repertório, “é preciso força, é preciso ter raça… É preciso ter gana sempre”. Mélange de Culture parece pertencer a esse grupo de artistas da estrada que não deixam a peteca cair, ainda que o mundo e essa realidade distorcida, cheia de caos e miséria a puxem para baixo.

contos

Tropeços, Delírios e Alegria no Festival Multicolor

psicodalia-005São as primeiras horas dentro de um ônibus rumo a Rio Negrinho, em direção ao carnaval dos loucos. Roberto, meu amigo e parceiro de caminhadas espirituais, me acompanha e apesar de não conhecermos mais ninguém nas outras poltronas, nos sentimos em casa – uma casa flutuante que percorre estradas com a energia pulsante resultante de corações apaixonados por essa coisa que nos acostumamos a chamar de vida. Roberto, com certa dificuldade, abre a primeira garrafa de cachaça feita de cereais e de bolinhas escuras de alguma fruta cujo nome minha memória capenga é incapaz de recordar. Compartilhamos o copo e logo aparecem outros e assim, bebemos e conhecemos nossos colegas de viagem, por entre copos de vodka, suco de laranja, vinho barato e a cachaça de Roberto, presente do ex-sogro. No banheiro, os cigarros proibidos de sempre.

E sem maiores inconvenientes chegamos ao festival Psicodália. Descemos, pegamos nossas pulseiras e nossos cartões e voltamos para o busão que nos esperava no estacionamento com as nossas bagagens. Mas espere aí, onde está Roberto? Retorno ao portão de entrada e o vejo completamente alcoolizado, com sérias dificuldades motoras, cambaleando e abraçando hippies. Levo Roberto, aos trancos e barrancos, até o ônibus, pegamos nossas mochilas e barracas, mas meu amigo se mostra incapaz de carregar suas coisas até o camping, numa série de caídas e batidas nas laterais do ônibus. Deixamos nossas tralhas por ali e fomos caminhando lentamente até o suposto camping, porém na metade do caminho, Roberto cai estatelado sobre o gramado, nocauteado pela própria loucura e embriaguez. Deixo-o sozinho e parto por entre barracas desconhecidas e rostos estranhos, tentando encontrar Jorge, nosso amigo cabeludo pontagrossense e parceiro dessas transas.

Não o encontro e no caminho vejo as garotas curitibanas da excursão que decidem me acompanhar, solidárias com a situação que aos poucos adquire contornos bizarros e imprevistos. Voltamos para o ônibus e para onde nossas mochilas deveriam estar, mas nesse momento constatamos tristemente que elas haviam sumido. Por sorte, encontramos Guerreiro, apelido dado ao organizador da excursão, que nos devolve nossas tralhas, após um sermão necessário pelo transtorno causado.

As meninas me ajudam a levar nossas coisas e quando chegamos ao gramado, Roberto seguia em seu estado de semiconsciência, estirado na grama como um zumbi recém-baleado. Tentamos de várias maneiras despertá-lo e as únicas respostas que obtivemos vieram em sons monossilábicos arrastados. Fui até a ambulância do festival, atrás de uma dose de glicose que pudesse salvá-lo, mas, infelizmente, os enfermeiros de plantão não puderam nos ajudar.

Decidimos armar a barraca de Roberto ao seu lado e foi nesse instante que notei a ausência da minha barraca, que na realidade não me pertencia, era emprestada. Provavelmente ela fora extraviada durante o percurso, após passar por mãos estranhas e ter sido transportada por uma caminhonete de sei lá quem.

Depois de muito esforço, primeiro molhando o rosto de Roberto com água e depois o fazendo beber um pouco desse líquido sagrado, ele esboçou reações curativas, expelindo algum tipo de muco em forma de vômito. Porém, Roberto ainda estava longe de sarar e logo ele caiu novamente na grama e precisamos da ajuda de um terceiro elemento para carregá-lo até sua barraca. 

O festival multicolorido estava começando e eu já havia perdido minha barraca e até meu amigo, ao menos pelas próximas horas. Jorge e as amigas veganas Larissa e Mel, continuavam apenas no pensamento e eu não fazia a menor ideia de onde poderia encontrá-los.  

Seis horas após o incidente alcoólico, Roberto recuperou a consciência e insistia em dizer que não se lembrava de nada. “Apagão”, repetia ele. Teimava em querer saber como eu havia perdido minha barraca – uma história que precisei recontar dezenas de vezes para ele e para os demais interessados. 

E um texto é pouco para descrever tudo que rolou nesse festival. Teve cantor entrando no palco em um caixão, teve punk gaúcho ressurgindo das cinzas e cantando sobre uma canção inesperada, teve banda de velhos tocando velhos roques feitos no Brasil, teve psicodelia setentista de primeira, baiano reinventando a tropicália, um tal de Mestre Ouriço pra lá de doido, teve ciranda animada no palco do sol, instrumentista de peso mostrando suas safadezas no violão, teve festa de pirata com garotas nuas, teve Kombi hiponga dando canjas lisérgicas para os malucos de plantão, teve o Plá de Curitiba em show intimista com direito a violoncelo de acompanhamento, teve o som chapante das pedras brancas, teve a umbanda revisitada por músicos descolados, o velho baiano tocando o disco homônimo dos novos baianos ao lado de seu filho, teve big band tocando clássicos do jazz e do blues,  cantor e poeta nordestino retornando aos palcos com seu suingue único, teve o amigo das estradas, dos mitos e dos arrepios, cantando sobre o sertão e Santa Cruz de La Sierra, teve chapeleiros malucos, simpsons, bicicletas e quilos de ganja circulando livremente por toda parte, teve pastel de tofu, yakisoba, caldo de feijão e pizza vegetariana, teve paixões instantâneas por garotas gaúchas de vinte e poucos anos e de preferência do curso de letras, teve chopp classudo e oficinas intrigantes e chuva desabando e destruindo acampamentos.

E talvez o momento mais surreal e psicodélico no meio de tanta maluquice tenha sido a apresentação de uma banda tradicional alemã, no palco dos guerreiros, às quatro da matina, animando todos os presentes e fazendo-os lembrar da imigração, das raízes germânicas e das festas regadas a litros de cerveja.

Teve tudo isso e teve Roberto retornando pra casa mais cedo, com a amídala inflamada e os olhos tristes.

podcasts

[pace is the essence] Podcast #07: Animais (Parte 3 – Os do Ar)

CAPA-animais-do-arRetomando as atividades radiofônicas, segue o terceiro programa da série “Animais”, dedicado aos animais que voam, ou pelo menos chegam perto disso. Escute canções sobre o tema, além de curiosidades sobre pássaros, corujas, borboletas, mosquitos,…

Abaixo a tracklist:

ANDREW BIRD – Cock O´The Walk
O LENDÁRIO CHUCROBILLYMAN – Chicken Flow
HOWLIN´WOLF – The Red Rooster
THE DOORS – The Mosquito
NICK DRAKE – Fly
THE CRAMPS – Human Fly
NADA SURF – Fruit Fly
HOAGY CARMICHAEL – Casanova Cricket
MARCOS VALLE – Crickets Sing For Anamaria
DEAD KENNEDYS – I Am The Owl
COCOON – Owls
DEVENDRA BANHART – Lazy Butterfly
SÁ, RODRIX & GUARABIRA – Juriti Butterfly
CAETANO VELOSO – Asa, Asa
BRIAN WILSON AND VAN DYKE PARKS – Wings Of A Dove
JIM HENDRIX – Night Bird Flying
DOCES CARIOCAS – Blackbird e Asa Branca
HIS NAME IS ALIVE – Save The Birds
FATS DOMINO – Birds and Bees
CURUMIN – Passarinho
CHICO BUARQUE – Passaredo
BLOSSOM DEARIE – Little Jazz Bird
WOLFMOTHER – Where Eagles Have Been
CIDADÃO INSTIGADO – Os Urubus Só Pensam Em Te Comer
SIMON & GARFUNKEL – El Condor Pasa (If I Could)
FITO PAEZ – Mariposa Tecknicolor

Escutar Agora!  |   Download Gratuito

contos

A Solitude de Pedro José

leemorganSexta feira, dia de farrear, rever os amigos, azarar as gurias, beber até cair, dançar e todas essas coisas próprias da mocidade, mas que pra ele não vinham fazendo sentido desde tempos remotos.

Nessa sexta, Pedro José preferirá o aconchego de seu antigo lar, sem interferências externas, sem o brilho da expectativa de mais uma noite na rua e sem os encantos, por vezes decadentes, mas que ainda assim tanto o excitaram em outras épocas, de fato, mais alegres e menos compromissadas.

Nessa noite em que milhares de pessoas tentarão a sorte grande em esquinas tortas, baladas da moda, bares de sempre, festas em apartamentos de amigos ou ainda em reuniões informais com colegas de trabalho; Pedro José não verá e nem falará com ninguém. Beberá um vinho sozinho, escutará pela centésima vez a levada do piano que acompanha Lee Morgan e seu trompete hipnotizante, enquanto fumará o tabaco fabricado por seus dedos de menina. Tudo parte de um ritual desgastado e feito para gerar pensamentos delirantes e distantes de qualquer objetividade, meras projeções de uma mente castigada, fatigada e dilacerada nas cotidianidades da cidade e nas profundezas de seu coração remendado, amplificadas por noites mal dormidas e manhãs arrastadas.

Aturdido pela solitude autoimposta, ele se lembrará de seu passado construído aos trancos. Nesse momento, boa parte de suas escolhas parecerão fugazes e carecerão de significados. E é só depois de incessantes cavadas que ele conseguirá vislumbrar os feixes de luz que o fizeram sentir-se parte de algo maior que sua própria carne – a cada dia mais leve em números. E é nessas rachaduras, por onde a luz entra (para não deixar de parafrasear um de seus mestres) que Pedro José encontrará conforto, absorto na ideia cíclica de que tudo ou, ao menos o essencial, retornará ao tempo presente.