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Crônicas de Nácar #02: Baseado em Contos Surreais

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A história que contarei não aconteceu exatamente na rua em questão, mas nas redondezas, bem no centro histórico da chamada República de Curitiba, nomezinho feio que inventaram recentemente, para descrever essa província pseudo européia localizada no sul do Brasil – um país bem diferente do que vemos por aqui.

Era mais ou menos umas onze e meia da noite, quando meus amigos decidiram lanchar no copo sujo, uma lanchonete 24h com coxinha de 1 real e uma série de personagens notívagos um tanto curiosos. Cumprida essa missão, Ed, Renata, Fernando e Nina, decidiram celebrar a saciedade de seus estômagos, e fumar unzinho bem na frente de um famoso restaurante, que em inglês, algo típico dessa republiqueta, diz pra gente que eles tem “o melhor hambúrguer do mundo”. Egocentrismos a parte, meus amigos estavam lá, cantando All You Need Is Love, no melhor astral que uma capital fria pode oferecer. Nina coloca o baseadinho na boca e de repente o cenário muda de figura: um camburão da polícia militar encosta e logo saem cinco homens com escopetas e expressões faciais de puro ódio. Chegam brincando e dizendo coisas do tipo “rodaram, rodaram, seus filhos da puta, maconheiros de merda, podem encostar na parede”.

Apesar das duas meninas e de serem cinco homens na abordagem, eles foram revistando os meus quatro amigos, ao som de xingamentos e esculachos, infelizmente típicos dessa polícia brasileira. Durante esse processo tosco, Fernando levou uma cacetada nos testículos, e quando esboçou uma reação perante uma das maiores crueldades que um homem pode passar, o policial pergunta “que que você tá se contorcendo aí viado?”. Fernando apenas explicou com seu sotaque nordestino inconfundível “você bateu nos meus ovos!”.

Nina, uma garota que esbanja alegria no viver, e não deve passar dos 50 quilos, também sofreu preconceito, talvez por ser negra, ou pelo fato de ter nascido no Rio de Janeiro. “Ah, você é uma carioca folgada. Volta lá pra sua terrinha de merda”. Renata, que veio de Londrina, mas que naquele momento bizarro resolveu dizer que era daqui e que morava no Pilarzinho, foi prontamente humilhada em um sentido reverso. “Ah, você veio de um bairro bom, o que a senhorita está fazendo com esses vagabundos: negros, nordestinos e bandidos por natureza?”. Só aí esses tais homens da lei cometeram pelo menos três tipos de crimes, crimes que a sociedade costuma ignorar, afinal, eles só estão cumprindo a lei“, algo a ver com os costumeiros “homens de bem” típicos desses cantos.

Ed, um dos maiores talentos musicais que conheci nos últimos anos, foi o único que decidiu rebater algumas das atrocidades ditas por esses cinco homens, sem rostos e sem um pingo de bom senso ou respeito, cinco homens que pensam que a farda possui alguma mágica especial que faz deles superiores a qualquer outro cidadão. Ed também é negro, tem um cabelo black power invejável e veio do interior de São Paulo. De cara ele afirmou pacificamente “sou maconheiro sim, mas sou trabalhador, trabalhei o dia todo e agora vocês querem me prender porque estou fumando um baseado com meus amigos?”.

Por motivos incompreensíveis esses cinco homens com escopetas algemaram Ed e o colocaram no camburão, enquanto meu amigo tentava explicar que o país estava uma merda justamente por essa hipocrisia. Com claustrofobia, Ed tentou meditar dentro daquele pequeno espaço escuro destinado a verdadeiros bandidos: assassinos, estupradores e quem sabe alguns políticos também. Mas sua meditação era sempre interrompida pelo policial baixinho com algum problema sério de auto estima, que seguia xingando e esculachando meu pobre amigo.

Resumo de mais uma das milhares de histórias que se repetem na cidade onde “a lei funciona e é pra todos, menos se você for do PSDB”: levaram Ed até o décimo segundo batalhão da polícia militar, há pelo menos dez quilômetros do centro, fizeram ele assinar um termo estúpido e ainda ouvir aquela mesma ladainha de sempre “pô, você tá me fazendo trabalhar nessas horas só por um baseado?”. Fale isso pros policiais que levaram meu amigo, os mesmos policiais que passaram por ele e gritavam “Bolsonaro 2018!!! Pra acabarmos com esses vagabundos todos, vocês têm que morrer!!”.

All You Need Is Love, pois esse ódio todo não te pertence. E por favor, na próxima vez, deixe meus amigos fumarem. Talvez vocês também precisem disso para acalmarem essa mente doentia e lavada a seco nesse quartel de onde vocês vieram.

Ed foi encontrado somente duas horas depois, em um bucólico posto de gasolina, tentando conseguir algum celular emprestado para chamar um uber, enquanto era mangueado por outro músico de rua.

 

 

 

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O Fora da Lei e o Xerife

billythekidNa saída do bar ibérico, ansioso por mais um cigarro e acompanhado de Letícia e das centenas de flores que costumo ver ao seu redor, foi quando o vi pela primeira vez. Incomodado com o meu comentário sobre estar contente por não ver mais carros de polícia estacionados na praça dos ciclistas e por sentir no ar o cheiro de uma fumaça diferente, William não escondeu sua opinião a respeito, balançando a cabeça e pronunciando algo como “eu não concordo”. Curioso, me aproximei do cara e perguntei “como assim, você não concorda?”. Ele me disse que havia muitos vagabundos por ali, bandidos prontos para aprontar e que a polícia era sim, necessária. Rebatendo, lhe disse que nunca havia visto tanta polícia em Curitiba e que essa coisa de segmentar o povo, afastando os “vileiros e manos”, apesar de ser uma tendência mundial ou, pelo menos, dos países de terceiro mundo, não era uma atitude bacana, pra não dizer fascista, elitista ou qualquer outro adjetivo negativo que você queira acrescentar.

William seguiu seu discurso duvidoso sobre a violência da cidade e sobre o massacre dos professores em que, segundo ele, houve excessos de ambas as partes. Quando mencionei o nome do Franscischini, ele não teve medo em declarar “sou amigo dele”. Interessante foi perceber sua identidade escondida, no momento em que Letícia indagara sobre ele ser um policial civil, amigo do seu irmão, também da profissão decadente, especialmente após incidentes como aquele ocorrido na Câmara dos Deputados. “Não sou policial, sou petista e blá blá blá…”, seguia William, esforçando-se para não parecer careta no meio da rua cheia de artistas, homossexuais, vagabundos e pseudo-esquerdistas.

William me fez lembrar o deputado Clodovil que, segundo ele, “era uma bichona, mas pelo menos aprovou algumas leis sérias para o país”, para em seguida, execrar veemente seu suposto sucessor gay no congresso, “um cabeludo, uma marionete, uma besta ambulante”. William se referia ao deputado do PSOL, Jean Wyllys. Falei de seu arquirrival e sobre o outro lado da moeda, o jocoso e bizarro Bolsonaro. Entre os dois, fico com o primeiro enquanto William parece preferir o segundo. Para ele, casais homossexuais que adotam crianças deveriam fazer tratamento psicológico, de maneira a evitar os transtornos na escola e demais instituições. Falei que achava que os pais heterossexuais também deveriam fazer tratamento, pois eles também cometiam erros grotescos.

Poderia citar outros pontos debatidos, opiniões divergentes e farpas trocadas, mas prefiro permanecer com o autoelogio de ter tido a calma e a paciência para lidar de maneira cordial com a situação toda, esforçando-me para tentar entender o que passa por uma cabeça totalmente diferente da minha. No final do encontro e das ideias antagônicas sobre segurança pública, maconha, desarmamento, gays e leis, cumprimentei-o com um aperto de mãos. Um aperto de mãos entre o xerife e eu, talvez no papel de Billy The Kid.

Para todos aqueles que acham que um diálogo entre forças opostas não é possível, eis meu relato, para provar o contrário. Agora só basta o governo do Estado entender isso e parar de tratar os professores e demais trabalhadores como se fossem bandidos. Franscischini, o brother do William, já não é mais o secretário responsável ao lado de Richa pela barbárie do dia 29. E sigamos lutando para que a democracia impere, mesmo nos estados governados pelo PSDB e por gente que acha que investir em segurança pública, colocando nas ruas homens camuflados e amplamente armados é mais importante que ter hospitais e salas de aula de qualidade.

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Crônica de Um Amigo Louco

caldabrancaJorge Caldabranca é um daqueles caras que a gente só conhece uma vez na vida. Quando penso em sua história, as luzes se apagam e imensos e coloridos pontos de interrogação feitos de papel cartão preenchem minha mente, gerando lacunas indecifráveis, capazes de enlouquecer o mais competente psicanalista que há no mercado. Ainda sim, farei esse esforço.

Como o Dylan da canção, ele também saiu de casa com 12 anos de idade, e assim como o personagem de Long Time Gone, sua mente ficou confusa desde então. Seus pais búlgaros o deixaram em um pedaço de terra chamado Caldabranca nos confins de São Paulo. O objetivo era chegar a Buenos Aires, e talvez o bebê estivesse atrapalhando seus planos. Foram sem ele e nunca mais voltaram.

Jorge Caldabranca viveu na rua, como andarilho, por alguns anos. Não foi mendigo e para evitar tal condição encontrava trabalhos temporários em troca de alguns trocados. Sempre foi esperto e, na primeira oportunidade, matriculou-se num curso do SENAC para aprender a ser garçom. Assalariado, pôde sair das ruas e se dedicar aos estudos. Formou-se em Letras e, de quebra, fez mestrado em Literatura só para poder realizar o sonho de garoto: ser escritor.

Foi professor universitário, escreveu cinco livros depois de ler mais de 1000. Boa parte das histórias que contou veio justamente das experiências vividas como andarilho ou mesmo depois, em subempregos que além de ajudarem nas contas no fim do mês, foram verdadeiros laboratórios sociais, capazes de produzir contos, poemas e romances sinceros e originais; sem as apelações dos escritores de classe média, enfurnados em apartamentos centrais. Suas referências literárias o auxiliam nessa função e, para isso, ele conta com a ajuda de Bukowskis, Kerouacs, Calvinos e uma porção de poetas malditos.

Não poderia ser diferente, conheci-o na rua, por entre retratos de artistas famosos e senhoras com suas sacolas cheias de verduras orgânicas. No segundo encontro, Caldabranca já estava munido de sua câmera de bolso, pronto para me entrevistar. Passamos longas tardes juntos, por entre nuvens esverdeadas e charros, contando causos e em devaneios febris, distantes de qualquer contato com a realidade – que a cada novo ano, se enche de tédio e caretice por todo lado.

Normalmente eu, que sempre fui taxado de prolixo e que sempre insisti em histórias longas, cheias de detalhes aparentemente insignificantes, ficava na maior parte do tempo em silêncio, ouvindo o que o velho Caldabranca tinha pra contar. Nem citarei a idade real do meu novo amigo Jorge, pois prefiro ficar com os “45” que ele mesmo disse que estava fazendo em seu último aniversário. Engraçado, logo 45, prum cara que sempre odiou e vomitou em cima da direita desse país. Sim, Caldabranca é petista de carteirinha, daqueles fanáticos mesmo, que continuam achando que o José Dirceu é mais um herói-vítima-do-sistema-que-ele-não-criou.

Politicagens à parte, Caldabranca se transformou em um personagem de si mesmo, construído a duras penas por um mundo que o cuspiu, o jogou na sarjeta e depois recebeu de volta, na mesma moeda. Seu nome de batismo pouco importa, Jorge Caldabranca ganhou o título honorário de Marquês, concedido por ele mesmo. Quer maior reconhecimento que esse? O de si próprio?

Inimigos de plantão e demais seres pré-históricos que preferem julgar antes de aceitar dirão que Caldabranca não passa do cara mais egocêntrico do planeta. E olha que esse título ele também não dispensa. Em um mundo infestado por falsos modestos e pseudo humildes, como meu outro amigo apontou, Caldabranca é a carta coringa do baralho e ainda que ele possua inúmeros defeitos, para mim ele tem algo inexorável, carente a 99% dos artistas que vemos por aí: autenticidade.

Sim, Caldabranca é, além de escritor, um artista “on the road”, como ele mesmo costuma enfatizar. Já foi ator e recitou sua poesia intitulada “Junkie” mais de 100 vezes em diversos palcos, porém principalmente no Madame Satã em SP. Já pintou um quadro com bolas de sinuca e pretende leiloá-lo em Paris por um milhão de dólares. Caldabranca também é cantor de blues e pretende viajar pelo Brasil com sua Big Band. Como se não bastasse, como roteirista ele pretende trabalhar em São Paulo, diretamente de sua suíte cinco estrelas para uma grande produtora nacional. Quando envelhecer verdadeiramente, morará em Montevidéu, ao lado de sua assistente, sua secretária e sua enfermeira particular. Mas antes, Caldabranca ainda viajará pela América do Sul com a grana do carro vendido e de tantos outros negócios oriundos de uma treta chamada OLX. Antes, Caldabranca também realizará o seu próprio festival de cinema “on the road”, diretamente do campus da USP, na Pauliceia Desvairada. Segundo ele, meus filmes de viagem estarão lá também, e tudo, tudo, não passa de… Metafísica!

E é justamente essa explosão de ideias, projetos e sonhos que fazem desse ser, ímpar, só pra ficar no clichê das palavras redundantes. Muita gente o colocaria no primeiro hospício, mas não poderia deixar de frisar seu senso de responsabilidade e zelo pela própria saúde, algo que faz a distância entre ele e seus possíveis colegas de instituição crescer consideravelmente. Para o senso comum, Caldabranca pode ser inoportuno e irremediavelmente expansivo, pode possuir o ego maior que o do John Lennon. Porém, para mim, ele não passa de um cara alegre, sincero, singular e que consegue aquilo que eu mais invejo em sua pessoa – a capacidade de ignorar a opinião dos outros – seguindo em sua felicidade plena, transbordando otimismo por cada célula de seu corpo ainda jovem, no melhor estilo “dança da realidade” que um tal de Jodorowsky explicou lá atrás, e em um mundo cheio de fakes, como ele próprio insiste em esbravejar por aí.

Caldabranca pode ser avistado na Boca Maldita ou por outras esquinas de Curitiba – a cidade que ele escolheu viver ao lado de Simonetta, sua amante italiana. Cabeludo, óculos escuros e sempre escutando Creedance e outros roques manjados no alto-falante de seu celular, Jorge Caldabranca, um zen-dudeísta de carterinha, exclamará: “pra toda essa gente sou e sempre serei um ghost”.

E só poderia terminar essa “crônica de um amigo louco”, citando outro ídolo maluco conhecido pela alcunha mutante de Arnaldo Baptista… Te amo, podes crer!

 

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Incêndio na Festa Proibida

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Burburinhos e pseudoameaças suicidas instauraram um clima de caos e tensão nas horas que antecederam a primeira grande festa do DCE – o centro acadêmico da UFPR, responsável por abandonar o prédio e deixá-lo infestado de junkies e nóias. Portanto a festa não seria propriamente do DCE, mas dos coletivos que ali coabitam: a rádio gralha com o incessante debate sobre mídia livre, o El Quinto com suas oficinas gratuitas de arte, fotografia e malabares, e o ANTIFA, um grupo antifascismo com sua resistência ao sistema vigente, que oprime e segrega e que não faz nada para mudar esse panorama.

Após todas as correrias que envolvem uma festa como essa, as peças começaram a se encaixar quando cinco argentinos chegaram ao terceiro andar e montaram seus instrumentos. Munidos da buena onda e de sentimentos de estarem viajando o continente, tocando para o povo na rua e onde mais eles sejam requisitados, esses quatro caras e essa linda garota chamada Fiamma, incendiaram o palco improvisado, e desta vez o “incêndio criminoso” saía de suas incríveis melodias, improvisos jazzísticos e de uma cozinha coesa cheia de swing.

Quem estava ali mal podia crer no que acontecia diante de seus olhos, vermelhos e de brilho intenso, ou ainda debaixo de seus narizes, esbranquiçados e furados.  O prédio já havia abraçado centenas de bandas, normalmente de rock, rap e punk, mas talvez nunca uma banda de jazz argentina daquele calibre. A cada acorde, a cada soprada oriunda do trompete de Fiamma ou do sax de Pipi, o povo se extasiava, balançando os quadris para todos os lados.

Mélange de Culture, o nome do quinteto, poderia também ser considerado o melhor antidepressivo que há no mercado. A cada apresentação, eles seguem injetando doses cavalares de alegria e serotonina para jovens de até 90 anos de idade.

E nesse último sábado, não foi diferente. Em minutos, a sala ficou pequena, transformando-se em um poderoso caldeirão cultural, uma mistura de ritmos calcados no jazz e no improviso, um mélange que faria os beatniks se sentirem orgulhosos.

Curioso foi o desfecho do show, quando os músicos saíram do prédio e Fiamma foi abordada por um ogro sexual com uma mão cheia de más intenções. Com uma resposta instantânea, Fiamma  deu um tapa forte em sua cara de pau, o que fez com que esse ser desprovido de coração a empurrasse. Revoltado, Pipi revidou com um soco estilo Rocky Balboa.

Triste é ver essas coisas acontecerem justamente no prédio onde o debate acerca das minorias e dos tantos ismos se faz mais presente.

Ainda a caminho de casa, Fiamma, Mariano, Pipi e Gastón (o contrabaixista genial) se deparam com outra cena grotesca: um cara com um cordão no pescoço amarrado a um poste, enquanto uma garota, talvez sua ex-namorada, o xingava e pedia ajuda. Pipi decidiu cortar o cordão, provocando a ira do suicida que partiu pra cima dele, em mais uma confusão bisonha. Mariano, o baterista sex symbol da banda, disse que nunca havia visto Pipi brigar. Nesse dia, Pipi precisou acessar seus instintos selvagens em dois momentos distintos, separados por alguns minutos.

Seguramente ser uma banda nômade não é para qualquer um. Não basta ter talento ou um bom repertório, “é preciso força, é preciso ter raça… É preciso ter gana sempre”. Mélange de Culture parece pertencer a esse grupo de artistas da estrada que não deixam a peteca cair, ainda que o mundo e essa realidade distorcida, cheia de caos e miséria a puxem para baixo.

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Ubatuba Feelings

ubatuba2015 veio de repente e, após uma série de bebedeiras, traquinagens e histórias inconclusivas, era hora de partir novamente. O ano ainda estava nascendo e eu precisava sair, respirar novos ares, me livrar de antigos carmas, dos antigos amigos de sempre, e dos novos, mais malucos e incompreendidos e talvez mais próximos ou, ao menos, mais abertos a novas experiências. Para alguns, a velhice vem acompanhada de rabugices e da incorporação de novos preconceitos, novas cristalizações mentais que os impedem de conhecer gente nova. Felizmente ainda não faço parte desse clube.

Ernest Cash havia se mandado para Paraty em busca de alguma luz divina que o acalmasse ou talvez de um novo amor, alguma paixão intempestiva que o fizesse esquecer o peso de sua existência. Ernest foi sem se despedir, deixou boa parte das suas tralhas e de seus remédios na minha casa e partiu, sem avisos.

E depois de quinze horas de viagem, lanches caros, chacoalhadas e sonecas superficiais, eu estava lá, suado e sedento, à procura de um táxi que pudesse me levar ao local desejado. Esperei 20 minutos ao lado de uma família peruana e de mais quatro garotas paulistas. No fim, rachei um táxi com duas delas e assim cheguei ao hostel onde minha lady friend Ika trabalhava como voluntária. Fui recepcionado com olás, em inglês, em português e com sotaques variados. Freddie, o cachorro colombiano, latiu ferozmente e talvez essa tenha sido sua forma de dizer “hey, eu me lembro de você”.

De início, Ubatuba se mostrou mais estruturada e badalada do que eu havia imaginado, mas isso pouco abalou o encanto por esse povoado, um encanto natural e crescente por um lugar pacífico na beira do Atlântico, ao norte do estado mais famoso do país, um lugar de ritmo cadenciado, cercado por praias magníficas e amigas dos surfistas.

No hostel, éramos seis. Daniel, o dono boa onda fazia as honras da casa, cozinhando e acertando os ponteiros administrativos de seu estabelecimento. Razvan era um dos voluntários, juntamente com Ika e as alemãs Letta e Klaudia. Razvan é romeno e de origem vampiresca, nascido na Transilvânia. Considera-se uma espécie de nômade, um cigano dos tempos modernos, um ser em movimento em uma sociedade que clama por raízes. Razvan vinha do teatro, do improviso, do misticismo, da anarquia e da música popular urbana. Nos entendemos imediatamente.

Na bagagem, por entre roupas e bolas verdes, coloquei um mini isopor com queijo dentro, e esse pequeno empenho fez Letta explodir de alegria. Letta é uma alemã ovolactovegetariana, e queijos, especialmente aqueles fortes e tipicamente europeus, estavam entre suas laricas preferidas. As minhas também.

Logo me senti em casa, e à noite, outro membro se juntou à trupe: René, colombiano que, além de estudar Biologia em Medellín, também costuma grafitar animais em muros e esse foi o motivo para ele passar duas noites no hostel. Me empolguei com a ideia de pintar algo também e, no dia seguinte, havia feito dois desenhos coloridos. Após a aprovação de Daniel, e enquanto René pintava um cavalo marinho gigante em um dos muros do jardim, eu estava lá, pintando um dos meus desenhos ao lado do chuveiro externo. No dia seguinte, René ainda pintou um caranguejo azul em outro muro e depois partiu, sem grandes despedidas. Razvan, também se animou, e mesmo sem nunca ter pintado nenhuma parede na vida, foi lá e fez um pássaro vermelho envolto por luzes curativas por todos os lados.

Não poderia discorrer sobre a noite ubatubense, suas festas à beira mar ou suas infinitas barraquinhas de coquetéis, já que praticamente não saímos do hostel, exceto quando alguém ia ao mercado atrás de cervejas ou de algo mais. Fui com Ika a uma pizzaria e em outro momento, fomos de bicicleta até o centro da cidade. Em um terceiro dia, fomos à praia, fritamos ao sol e comemos um coco. De resto, ficávamos matando tempo no hostel, brincando com Freddie, ouvindo canções, tomando goles e inalando diferentes tipos de fumaça. Às vezes, eu e Razvan entrávamos em papos menos retos, divagando sobre divindades e existencialismos desnecessários. Conversas sem rumo e cheias de parênteses, feitas por vagabundos de plantão em trânsito.

Além das marcas de sol e dos mosquitos, acredito que Ubatuba tenha deixado outras marcas. Marcas singelas que ecoam outros tempos, menos complicados, de solitude, quando ainda viajava sozinho pela América, seguindo sem planos e sem direções, um caminho afetivo em busca de paz. Outro tempo, antes do vendaval por que fui atingido logo após meu retorno. Senti essa paz em Ubatuba ou, pelo menos, no hostel que tive o prazer de conhecer. Senti essa paz nas histórias de outros viajantes, nessa falta de objetivos concretos, nessa inocência de parecer ter se esquecido de onde veio ou quem foi, e agora só se importar com questões simples de subsistência. Se eu pudesse planejar algo além da minha próxima refeição, planejaria revisitar periodicamente esse universo que segue dentro das minhas entranhas, desfazendo nós, enxugando lágrimas do passado e reconstruindo caminhos criativos cheios de novas histórias para contar.

Navegar é preciso, em todos os sentidos.

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Artistas na Ilha dos Hipsters

superaguiTudo rolou rápido demais. Rápido como a estrela cadente que vi no céu da ilha ou como os pensamentos destrutivos do meu amigo Ernest Cash. Com ele parti para a rodoviária, com duas passagens para Pontal – a praia curitibana dos pobres e miseráveis. De lá tentamos pegar uma barca para a ilha de Superagui, algo que se mostrou impossível, não pelas questões geográficas, mas por uma mera organização das embarcações. De Pontal, poderíamos ter ido para a Ilha do Mel, mas já estávamos cansados de lá e nosso objetivo era desembarcar em Superagui – a ilha dos pescadores e dos frequentadores da Trajano, sedentos por um réveillon menos badalado e mais natureba, no sentido mais hipster do termo.

Não tínhamos reservas ou grandes planos, chegamos e encontramos meu outro amigo radiofônico com nome de alguma estrela da MPB. Gil nos indicou o camping em que estava alojado, juntamente com seus brothers do Boqueirão. Gil e seus brothers haviam logrado a tarefa hercúlea de viajar sem motor, apenas com suas bikes e suas canelas inchadas. Parabéns pra eles.

Comemos um peixe com feijão e arroz e caminhamos até o Poseidon, o último camping beira-mar e administrado por um sujeito chamado Posidônio.

Na grama e entre nossos vizinhos de barraca havia um cara chamado Spare – uma espécie de sobrevivente da geração gonzo e que carregava consigo um verdadeiro arsenal de psicotrópicos, relaxantes, estimulantes, papéis coloridos e outros cristais importados da Europa.

A ideia era expor minhas gravuras ao lado dos retratos grafitados por Ernest e com isso, conseguir clientes para meu amigo para que ele produzisse caricaturas e assim pudesse pagar suas despesas na ilha. Tentamos nos primeiros dois dias, armamos nossas tralhas, colocamos algumas músicas legais na jukebox e sentamos em alguma mesa com vista pro mar. Ficávamos lá, bebendo litros de cerveja e esperando que alguém se interessasse pela nossa arte.

Mas o tempo não colaborou e, quase sempre, poucas horas depois de armarmos nosso pequeno espetáculo visual, as nuvens escuras e apocalípticas se aproximavam, trazendo os ventos ferozes que, além de acabarem com nossos planos de tirar alguma grana daquela ilha, também destruíam os tetos improvisados do nosso camping.

E mesmo quando fazia sol, pouca gente se deu o trabalho de ver o que estávamos tentando fazer. Gente descoladinha que tenho certeza que se interessaria muito caso estivesse em Curitiba em algum café cult do centro da cidade, mas por estarem na ilha, parece que adentram algum tipo de realidade paralela, onde a maconha e os ácidos fazem com que essas pessoas se conectem com a natureza e com as amizades e se esqueçam de qualquer cultura urbana produzida por dois artistas em eterna decadência.

Mas Superagui está cheia de encantos e parece ser o cenário perfeito para encontros mágicos. Assim, conhecemos, por acaso, duas holandesas e um cachorro colombiano pra lá de simpático. Talvez as únicas gringas da ilha, uma delas estava viajando há mais de um ano pela América do Sul e, quando ainda estava na Colômbia, conheceu e se apaixonou por um cachorro de rua, batizado de Freddie, e que havia se transformado em seu leal parceiro de viagem.

Bebemos mais alguns litros de cerveja com elas e, no dia seguinte, fomos comemorar o aniversário da dona do cachorro – a bela Ika. Desde o primeiro encontro, conversei mais com Ika, enquanto meu amigo Ernest flertava com sua amiga, Pieta. O inglês de Ernest parecia haver saído de alguma película B sobre a máfia italiana, e talvez por sua barba e seus traços nórdicos, às vezes ele próprio parecia ter surgido de algum livro do Dostoievski, especialmente quando estava segurando uma garrafa de Cataia – o “whisky” caiçara consumido abundantemente em toda a ilha à qual Ernest se referia como sua “girlfriend”.

Não criei grandes expectativas com Ika, pois achava que as europeias não seriam tão abertas em relação ao amor livre e todas essas loucuras que rolam por aqui. Mas talvez por ser seu aniversário, ou talvez por ela estar meio puta com seu último namorado, um carioca que havia lhe dado um pé na bunda por whatsapp há poucos dias atrás, Ika concordou em ficar comigo naquela noite e quando fui perceber, estava caminhando ao seu lado em direção a alguma praia deserta e bem escura. Terminamos nos enrolando pela areia, seminus, meio como aqueles camarões empanados e fritos que comíamos todos os dias nos bares da ilha. Fomos interrompidos por algumas garotas nativas que passavam por ali e que gargalharam quando nos viram daquela maneira tão “natural” e pouco espontânea.

No dia seguinte, nos despedimos de Pieta e no final da tarde pegamos a última barca para Paranaguá. Chegamos a casa depois da meia-noite e quando me dei conta, havia voltado da ilha com uma família inteira pra cuidar: Ernest Cash ainda estava lá, e agora também teríamos a companhia de Ika e de seu cachorro Freddie.

Pelo menos no meu aniversário, dois dias depois, me senti menos sozinho. Superagui, mais uma vez, obrigado.

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Israelitas na Bahia

israelistasConflito Palestina-Israel, mortes todos os dias, mais palestinos, menos israelitas. Muito mais palestinos e muito menos israelitas. No Egito eles discutem a paz e uma trégua para o massacre, mas ninguém quer saber de estado palestino. No Morro do São Paulo, na Bahia, o hostel está cheio de israelitas e não há nenhum palestino por ali. Aliás, alguém já viu palestino viajando? De férias?

No hostel em questão, há uma bandeira judia convidando judeus israelitas e eles parecem atender ao pedido, lotando praticamente todos os quartos daquele estabelecimento. Eu acabei ficando no único quarto sem nenhum deles, juntamente com meu amigo italiano, duas holandesas e mais dois australianos.

Enquanto os israelitas passavam seu tempo fumando narguilés, bebendo camparis e conversando em hebreu, nós, do lado de cá, fumávamos erva, bebíamos rum com coca e conversávamos em inglês, a língua universal e mais fácil do mundo. Hebreu, me parece difícil pra caralho.

Tentamos contato, com o lado de lá, algumas vezes, mas a barreira criada era maciça e foi só quando uma das holandesas decidiu atravessar a fronteira e deitar na rede do quarto das israelitas foi quando os israelitas se aproximaram, deixando o hebreu de lado e passando a se comunicar em inglês, aparentemente dominado e com um acento característico.

Conversamos sobre temas controversos, perguntei quantos não-judeus havia em Israel e me disseram que algo em torno de 10%, entre cristãos e mulçumanos. Também disseram que não eram a favor da guerra e que é chato receber noticias de casa sobre bombas explodindo próximas das suas famílias.

Os rapazes eram simpáticos, porém quando as garotas chegaram e viram seu território invadido por brasileiros e holandesas, seus semblantes eram de desconforto e reprovação. Quando cruzava com elas na praia ou na rua, viravam o rosto e fingiam não me conhecer.

O que justifica esse tipo de comportamento? São os três anos de serviço militar obrigatório para homens e mulheres? São os conflitos com a Palestina? É a religião? Ou é só falta de educação mesmo?

Lembro-me de encontrá-los também em um vilarejo colombiano. Estava com um amigo canadense e cruzamos com alguns deles em uma estrada de chão. Senti como se estivesse em um campo de batalha, caracterizado pela língua estranha que falavam e pelo clima hostil que senti.

Não sei, para mim, os israelitas permanecem sendo um enorme mistério, um choque de cultura tão absurdo que não saberia emitir uma opinião concreta sobre eles.

E parece que aqueles que estão curtindo a praia na Bahia, não fazem o menor esforço para diminuírem esse obscurantismo que os cerca.

Axé neles!