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O Sonho Mais Impressionante de Toda a Minha Vida

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Caí da cama cedo, como raramente faço, após sonhar o sonho mais impressionante de toda a minha vida. Quando abri os olhos pela primeira vez senti vontade de dormir mais, sentia que era demasiado cedo para despertar, mas o sonho tinha sido louco demais para eu esquecê-lo assim, numa provável substituição por algum novo sonho fabricado por esse laboratório infinito e amoral chamado inconsciente.

É claro que não vou lembrar exatamente como esse sonho começou. Me recordo que nos primeiros instantes minha primeira namorada havia reaparecido e esboçava um evidente interesse em mim, após divorciar-se de seu marido, com quem tivera dois filhos. E foi essa imagem simbólica daquele primeiro amor inocente e completo que fez eu ter esperanças naquele universo onde as memórias se misturam e seguem criando novas histórias, muito mais interessantes do que essas que costumamos viver no dia-a-dia.  

O cenário assustava. Por algum motivo que eu também não vou conseguir lembrar agora, fui obrigado a participar de uma bizarra seita, onde eu parecia ser o único ser consciente do tamanho do absurdo que aquilo representava. Vivíamos em um templo majestoso, um palácio de dimensões medievais e com centenas de quartos. Suspeitei que além dos comprimidos oferecidos diariamente como se fossem alguma benção milagrosa, eles também estavam botando algum tipo de droga na nossa comida, manipulando nossas mentes para acreditar que tudo aquilo era pro bem ou qualquer outra merda do gênero.

Lembro de dois momentos em que tentei alertar pessoas de fora da seita, amigos que não vejo faz tempo, mas que em meus sonhos costumam ser personagens recorrentes. Havia um trem e um dos comissários era um dos cabeças desse clã do djanho, avisei Joana e tentei fugir, mas o cara foi mais rápido e em segundos eu estava novamente lá, naquele maldito palácio de ilusões. Nas reuniões matinais, para a introdução de novos membros e outras baboseiras típicas dessa gente, eu olhava para todos os cantos daquele imenso salão à procura da minha primeira namoradinha, sempre achando que quando a encontrasse todo aquele pesadelo acabaria em final feliz.

O engraçado foi encontrar não ela, mas uma outra menina de uma época ainda mais antiga, dos tempos de colégio e de quando eu pirava numa garotinha loira e cheia de malandragem pra idade em que eu ainda era bem tímido e não passava de um completo nerd mimado cheio de espinhas. Reencontrei essa pessoa algumas vezes, sempre pela noite, em alguma festa ou bar da cidade. No sonho ela pegou na minha mão, me levou para um quarto, tiramos a roupa e ela me disse no pé do ouvido: “Pode gozar, mas apenas uma vez.“

E assim o sonho seguiu seu rumo obscuro pelos caminhos da memória afetiva ou qualquer outro nome que os psicólogos querem dar. Em outro lapso de tempo, eu estava na frente da primeira casa que morei, local onde nasci e cresci até os 21 anos, quando finalmente eu decidi começar outra história, sem meus pais por perto. Reparei que havia colchões com texturas estranhas colocados na garagem e num sinal de que alguém estivesse se mudando para lá. Não entendia o que estava acontecendo, mas a curiosidade somada com um sentimento de alegria plena apenas por estar ali novamente, na casa onde eu cresci, e ainda com uma ínfima possibilidade de rever meus pais juntos, todo aquele retrato de uma infância feliz e que ficou pra trás, tudo aquilo me fez chorar de emoção! Adentrei o saudoso lar e ao invés de encontrar meus pais como gostaria, vi primeiro o marido da minha prima da Bahia, ajeitando a mesa e em seguida essa mesma prima vem e me abraça. Senti uma tristeza enorme no peito, como se aquilo fosse alguma representação da morte dos meus pais. De fato eu estava mesmo navegando em mares escuros de algum pesadelo da mente, mas o bacana era que em muitos momentos eu sabia que aquilo não era realidade, no máximo algum episódio estilo Black Mirror no qual a minha vida teria inspirado roteiristas endiabrados, capazes de provocar um tremendo mindfuck para o único espectador presente na plateia, euzinho, ou como descrito por famosos psicanalistas, o sonho foi lúcido.

Logo retornei para aquele cenário pseudo religioso e agora meus amigos atuais, Henrique e Anderson eram os novos membros da seita. Ao contrário de mim, eles pareciam contentes em fazer parte daquela palhaçada, me diziam que haviam encontrado um sentido pra vida e que estavam adorando a rotina e as brincadeiras perpetuadas ali.

No final, quando pensei que tinha conseguido me livrar daqueles malucos, caminhei pela rua XV e vi pelo menos outros quarenta grupos coloridos e que repetiam frases clássicas “Deus é Amor“ ou “Venha com a gente e garanta seu lugar no paraíso“. Cada seita tinha uma cor predominante em seu figurino e sorrisos emoldurados em todos seus fiéis, num lance meio hare krishna que já vemos por aí. Fiquei apavorado com aquela percepção de que o mundo havia sido tomado por gananciosos líderes religiosos e que as pessoas estavam mesmo comprando aquelas ideias estúpidas.

Minha última recordação foi um breve diálogo com algum outro amigo. Falávamos sobre Deus e de como cada ser possui um Deus dentro de si, mas que era justamente ali que morava o perigo. Afinal, se podemos criar o que quisermos, também podemos criar seitas com o intuito de provarmos nosso poder, apenas como forma de divertimento pessoal.

E como leremos no início da nossa série favorita, qualquer relação com personagens da vida real será sempre mais uma coincidência.  

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Fragmentos de uma noite doce

pace_luaA noite aterrissou em minha cabeça em estilo pouso forçado, sem avisos luminosos ou máscaras de oxigênio. Era sexta, a lua estava cheia e apesar do anúncio dos astrólogos, ninguém estava preparado para aquela avalanche de sentimentos e piruetas potencializadas por agentes químicos interestelares. “O calendário resumiu-se a quase um mês”, culpa do garoto maroto com sono.

Pra mim, a noite era de despedidas, as argentinas retornariam finalmente para seu país de origem, após um mês de viagens não programadas, iniciadas na rodoviária mais caótica da América do Sul. Um caminho torto envolvendo cataratas avassaladoras, ilhas desertas sem proteção solar, romances estranhos e uma porção de dias na casa dos malucos, na cidade do poeta maldito mais pop do Brasil.  

Na casa o clima era de festa, daquelas improvisadas, sem convidados especiais ou atrações confirmadas, apenas cervejas, violões e os loucos de sempre: verdadeiras espécies em extinção, abelhas e sabiás de terras desconhecidas. Volumosas risadas nos guiaram em direção à natureza mais próxima, uma espécie de universidade às avessas, sem professores ou alunos, apenas mato, bichos, um lago e uma pedreira nos protegendo dos ventos gélidos e das energias pesadas oriundas da capital.

No palco principal a atriz, mais bela e ancestral que se tem notícia, protagonizava o show espacial, com a ajuda de um coro de figurantes esfumaçados que insistiam em transitar na sua frente. Na Terra o pré-carnaval da trupe beltrâmica rolava na beira da lagoa escura distante do abaeté, e próxima dos adolescentes embebedados por catuaba e pelo velho som eletrônico das antigas raves. Enquanto isso, na roda fervística, homenageávamos o mestre Caetano e suas transas revisitadas: pérolas históricas das canções populares eternizadas em nossos corações, vagabundos desde sempre.

Tamanha beleza só poderia ser contraposta pelos rostos derretidos dos meus amigos. Sem eles a viagem seria em vão e não passaria de uma mera egotrip por mares já navegados.

Na volta lá pelas cinco da matina, o choque abrupto com uma imensa muralha de realidade: nosso amigo e novo residente da casa havia tentado se matar de uma maneira pouco criativa. Com a cabeça cheia de boletas e biritas e com uma depressão aguda nas costas, Nardo se viu no fundo de um corredor de desesperanças, pronto para desistir. Felizmente seus amigos – quatro especificamente que ficaram na casa e mais um que também ficou na casa, mas que por motivos explicáveis não poderia ajudar muito – esses quatro anjos disfarçados de malucos promoveram o resgate de Nardo, com o auxílio de mais três números de telefone e um casal de enfermeiros buena onda.

Nos segundos anteriores às primeiras horas merecidas de sono, quando a cuca tenta compreender o incompreensível, realizando suas bilhões de conexões e cálculos matemáticos sem lógica aparente, talvez nesses breves segundos de lucidez em que a mente por fim para de mentir, refaço os traços da noite e acordo com um desenho de Dali sendo levado pelo vento do esquecimento. E antes que ele fuja pela janela, me esforço para prendê-lo nessa jaula de memórias proibidas, chamada crônica.

 

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Novo Velho Amor, Me Tire Dessa Rima Fácil

pace_amor“Não, você nunca conseguirá tornar algo novo, de novo.” O refrão da canção da fita demo de M. Ward chama minha atenção. Definitivamente esse pensamento permeia minha mente nas últimas semanas e os motivos são tantos que eu nem perderia meu tempo descrevendo cada um deles. Os envolvidos saberão. Em seguida, os grandes nadadores de lagos cantam sobre escavações em busca de luz em poços escuros ou sobre seguir procurando sussurros no meio dos berros. Yoko vem para me lembrar em seu mantra que eu sou um mar de bondade e um mar de amor, ainda que ultimamente esses mares tenham provocado uma série de ressacas indesejáveis.

Sinto o coração enfraquecer, mas não é como daquela vez que precisei ser fisicamente operado e ter percebido depois que o ritual teria sido em grande parte, espiritual. É algo diferente, uma sensação estranha que faz a gente lembrar daquele imenso buraco dentro do nosso peito, e que precisa ser preenchido por fumaça, como naquela letra do Wilco.

Na cabeça, essa metralhadora de ideias e enganações, os caminhos parecem múltiplos. Porém sinto que dessa vez preciso, de uma vez por todas, confiar em meus instintos, ou apenas me entregar ao oceano de probabilidades impostas pelo universo. Meus miolos cansaram da guerra civil que estavam provocando, precisam de uma bandeira branca que indique a direção. E por favor, não estou falando de novas ideologias, seitas orientais ou apenas um novo guru. Quero falar de coisas reais, pois “mudá-las me interessa mais”, já diria o bigodudo divino.

O mundo mudou, muitas pessoas não se contentam mais com um “relacionamento sério”, ou qualquer outra coisa que isso possa querer dizer, elas querem gritar “somos livres”, ou algo como “não seja tão careta, venha para o poliamor”. Acho realmente lindo que muita gente esteja pensando assim, e confesso que adoro estar nesse tipo de situação, sem envolvimento emocional e sem as nóias de qualquer relacionamento. Mas preciso expressar minha profunda incapacidade de lidar com isso em momentos onde a razão parece alcançar distâncias lunares, e me sinto novamente como aquele adolescente da escola, escrevendo cartas de amor e tentando aos trancos, trazer aquele tal amor de volta, mesmo que seu retorno não represente garantia de paz alguma, afinal, o amor é cego e costuma provocar feridas.

É por isso que amar é brega pra caralho. É filme americano piegas, é novela mexicana e é teatro pro povão. Não importa o quanto queremos afastar esse sentimento chinfrim, ou o quanto nos aproximamos do chamado “amor livre”, um belo dia você acorda e percebe que novamente foi mordido por ele. Atordoado, febril e demente, você tenta fugir, inventar desculpas, dizer pra si mesmo que dessa vez será diferente. No fundo, sinto que as chances disso acontecer são praticamente nulas, pelo menos no atual ponto em que me encontro, e depois de diversas ilusões amorosas e histórias inconclusivas que me fazem seguir amando pessoas do passado, ainda que em menor intensidade.

Posso tentar, mas tem certas coisas que são difíceis de negar, a flecha atravessou meu corpo capenga pela décima vez, provocando sequelas nos “artificiosos brejos da alma”, e o que vai sair disso tudo, só o universo sabe. Lições serão sempre bem vindas, mas quero saber mesmo quando poderei finalmente descansar esse coraçãozinho remendado, e poder focar em outros aspectos reais da vida.

“O amor verdadeiro te encontrará no final”, cantou o Daniel dos demônios, e é com esse sentimento que pretendo conviver o tal peso da existência, ou ao menos essa breve passagem em um planeta aleatório, cheio de contradições, destruições, anomalias e falsa moralidade. Quero ser um, como no discurso de Lynch, para assim, me sentir ainda mais perto de todos os amores que o acaso me deu. Quero ser um, para parar com essa mania de querer uma pessoa só. Quero ser um para que todos sejam meus e eu seja de todos. Quero ser o tipo de brega daquela música tribalista sobre saber namorar, e não o brega das milhões de canções sobre corações despedaçados. Prometo continuar amando seus versos e suas rimas engraçadas de amor, afinal, esse foi o combustível de infinitas fossas.

E enquanto esse amor sublime e universal não vem, seguirei contente com pelo menos um amor verdadeiro, sem rótulos ou grandes amarrações. Só não me deixe com esse silêncio brutal e descompassado com o tamanho do amor que sinto. Mensagens fabricadas não serão suficientes.

E que a paciência seja sempre a minha melhor amiga.

Em tempo, ontem Leonard Cohen partiu. Tenho certeza que esse era um cara que entendia bem desses assuntos.

    

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Meia Noite na Cidade das Separações

pace_isaA abelha esbarra no copo de vidro adquirido na promoção do mercado. Os cacos se esparramam pelo chão. No sinal vermelho a moto de corrida desafia a velocidade do som. A roda toca o paralelepípedo arremessando o condutor para longe. É meia noite na cidade grande e coisas estranhas começam a acontecer. O seriado do momento não me deixa esquecer.

Ecos da preanunciada separação reverberam timidamente em meu coração. Foram sete ou oito meses de tentativas, cumplicidades, afetos e um calhamaço de paciência. Nos tempos modernos há pouco espaço para adaptações. Os minutos são preciosos, ainda que passemos boa parte deles caçando personagens da nossa infância ou rolando a inútil linha do tempo em busca daquele estímulo fugaz que nos fará rir, chorar ou apenas “curtir”.

Curtia seu jeito frenético de ser. Curtia sua história. Curtia seu sorriso e a cor das suas bochechas nos dias friorentos. Curtia seus cafés fortificados e suas torradas amanteigadas. Curtia uma série de pequenas coisas que não fazem a menor importância agora. O vento da mudança soprou novamente e “o passado é uma roupa que não nos serve mais”, cantaria o bigodudo desaparecido cheio de contas pra pagar.

Mas antes que esse trem obscuro siga viagem rumo a estações desconhecidas, não poderia deixar de agradecer imensamente o apoio que me foi dado. Nesses longos meses que passei do seu lado, estive caminhando por vales de solidão, loucura, medo e angústias mil. E apesar desses encontros constantes com meus demônios, você sempre esteve por perto. Enquanto eu me perdia em alucinações, você me mostrava o caminho, me abraçava e me dizia que “tudo vai ficar tudo bem”.

Quero que saiba disso e de mais um tanto. Minha admiração pela pessoa que é seguirá firme como seus sapatos descolados ilustrados pela artista da festa. Ficarão as lembranças das esticadas na cama e dos almoços ensolarados no restaurante indiano. Das viagens repentinas e das pequenas aventuras. Dos sambas no piano, da parede amarela e das conversas fiadas em inglês. Das reuniões com os amigos estranhos e das festas particulares para dois. Ficarão os “recuerdos” de uma história curta e intensa, com picos flamejantes e desesperos domados. Uma história criada aos trancos por dois seres distintos com algo em comum: a busca pela tão sonhada felicidade.

E que ela venha para ambos, ainda que em tempos e espaços diferentes, assim como o “pai da noite” quiser. E que o brilho das estrelas ilumine nossas estradas esburacadas e nos ajude a encontrarmos a estação da paz. Foi bom enquanto durou. Obrigado por tudo.

*sem revisão

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Meditações e Vicissitudes V.I.P…

pace_2016_01_forestJá não consigo lembrar se esse é o quinto ou o sexto dia. Escutei o sino e segui no caminho empedrado rumo ao humilde refeitório dos panos aparentemente sujos. Atrás de mim, seguiam outros caras, rostos que não eram mais desconhecidos, mas que seguiam calados, em completo silêncio conforme as instruções de outrora. As identidades permaneciam ocultas e eram, nos momentos comunitários em que minha cabeça se mantinha ocupada, numa tentativa minimamente criativa de imaginar personagens, reafirmando os velhos arquétipos presentes em sociedades dispersas pelo mundo afora.  Um retiro “nas montanhas da Serra do Tinguá” não seria diferente.

Transcorridos os primeiros dias e as primeiras indagações associadas aos fatos raros: sobre o isolamento, o silêncio, a segregação e a disciplina, ou ainda sobre a ausência dos tais estímulos externos; em seguida começo a recordar como escolhi estar aqui e como é importante eu seguir a corrente proposta, ainda que não consiga visualizar o final desse rio absorto em velhas novidades.

São quatro da matina e o sino toca. É hora de levantar, urinar e lavar os olhos remelados. No caminho escuro, vejo a aranha tropical e o medo da criança que ainda ecoa nesses instantes. O fluxo lento e preguiçoso dos companheiros me leva à sala de meditação, com suas mil almofadas e uma energia pacificadora normalmente constante nesses espaços. Sento em algumas dessas almofadas apostadas ao moderno banquinho emprestado. Medito, ou devo dizer, tento meditar, ainda que existam distrações e talvez a maior delas seja lidar com o tremendo sono que sinto às quatro e meia da manhã.

Confesso que por vezes me senti ligeiramente incomodado com a chegada de alguns retardatários. Mas quem sou eu para tecer qualquer tipo de crítica sobre eles, pois sentia que mais cedo ou mais tarde eu faria parte desse mesmo grupo; afinal, para alguém que havia meditado poucas dezenas de vezes na vida e por vinte minutos nos melhores casos, estar meditando por seis ou sete horas por dia parecia ser o suficiente.

Nos breves intervalos, as placas limitadoras encurtavam as caminhadas exploradoras: da bendita sala ao banheiro, do banheiro ao bebedouro, do bebedouro aos arredores dos dormitórios e desses arredores ao quarto. No aposento dividido com outros dois parceiros mudos, a sensação é sempre estranha. A falta de palavras parece ser substituída pela comunicação corporal não visual, exacerbada em cada virada de lado da cama ou em cada levantada, mesmo que houvesse a preocupação excessiva de não incomodar os colegas.

Colegas estranhos: hippies cabeludos travestidos de jovens budas, surfistas australianos, gigantes alemães de saia, garotos mimados em busca de aventura, quarentões faxinando antigos karmas, curitibanos heteronormativos, cariocas linguarudos, xarás, geeks e toda sorte de freaks, espiritualistas e curiosos.

No meio desse pastiche, me sinto novamente em casa. Uma casa vazia e incolor, mas com o mínimo conforto necessário para recomeçar. Uma casa inexistente há pelo menos cinco meses ou o tempo do último texto desse blog capenga sobre esse tal rapaz latinoamericano sem mapas, mas com muitos documentos e responsabilidades pra zelar. Em um mundo inventado – ainda que seus limites sejam tão reais quanto o golpe político que seu país atravessa, ainda que ele só tenha ficado sabendo disso dias depois, no melhor estilo Adeus, Lenin. Ou como diria Donny no seu filme favorito, “I am the Walrus”.

Chega de saudade, a lei da impermeabilidade jamais será esquecida. Obrigado Dhamma, foi massa conhecê-lo mais de perto.

E que venham as tais vicissitudes, algo a ver com policiais sacanas, enfermeiras inexperientes, cuidadoras e uma mãe iluminada que descansa na serenidade de seu lar.

Meu pai estava certo, meditar é bom.

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Raios de Esperança

raiosTímidas luzes natalinas começam a aparecer na vizinhança de uma casa que agora está estranha e oca, faltando peças fundamentais e ecoando saudades por todos os lados. Randy Newman segue na sala na sua “terra de sonhos” provocando inspirações e divagações positivas, apesar dos pesares.

A semana havia começado bem, o sol de verão irradiava esperança nos ares, já mal acostumados com a chuva e o frio da nula primavera de Curitiba. Após a enxurrada provocada em meu coração operado, e todas aquelas histórias macabras envolvendo facas, celulares e ambulâncias, sentia que havia algo fresco no ambiente, algo que acalmaria meus pensamentos em chamas, algo que me fizesse seguir acreditando nesse mundo perdido cheio de nuvens e distrações.

A vida se mostrou frágil novamente como o piano melancólico de Monk, a música mais uma vez segue intensa e apontando a direção. O mundo lá fora ainda parece hostil e carente de sentido, mas os ventos praianos de dezembro anunciam o ano novo e abrem espaço para novas ideias e novos desafios. A TV prenuncia o apocalipse político brasileiro, enquanto na Argentina os hermanos se deprimem com o resultado das últimas eleições.

Balões vermelhos alegraram as crianças do shopping classe A, hippies roubaram a coroa do Cristo Rei e depois foram barrados no baile na mansão em contagem regressiva para sua implosão. Paranoias deixaram Caldabranca e Dr. Gonzo pilhadões, enquanto piadas veganas entretinham a plateia de londrinenses e malucos.

No hospital enxuto, a mãe segue sua batalha exalando vitalidade, por entre olhares curiosos, enfermeiras carinhosas e uma porção de médicos otimistas. Do lado de cá, a bondade alheia é valorizada, as imperfeições são apontadas, e a corrente de pensamentos felizes são somados às orações dos familiares e dos amigos. É preciso manter a cabeça sana e descansada, pois cada dia pode ser uma nova aventura.

Natal? No presente momento não quero pensar nessa brincadeira, ainda que as luzes dos vizinhos reafirmem esse rito antigo e capenga de significados populares. Por agora, vou continuar aproveitando o final dessa cerveja e as últimas notas de Monk, introspectivas e assertivas para a ocasião.

E que o choro de outrora seja transmutado amanhã, na roda do bar dos barbudos, ensanguentado de arte sulamericana, enquanto me preparo para encontrar a minha terra dos sonhos nos próximos dias. É hora de esvaziar os baldes e preparar o solo para a nova estação. “O pulso ainda pulsa”, e com isso, novos raios de esperança insistirão em nascer, para todos, em todos os cantos onde a “dança da realidade” esteja presente.

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Argentos, Chicos e Letícias

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Encanamento quebrado e um frigobar transformado em objeto científico, sem gás e recoberto de potentes fungos, capazes de provocarem um dos piores odores de que se tem notícia.

É nesse antro explosivo, repleto de manchas nos azulejos, marcas estranhas nos espelhos e de pinturas bipolares nas paredes, que eu tomo meu primeiro banho de porta aberta e me dou conta de que estou sozinho. Sozinho no velho espaço do último ciclo vital, ou naquele ambiente insólito que já chamei de casa.

Nem sei o que sentir, tem o vazio deixado pelos chicos e pelas marias, tem aquela cara de chegada de alguma viagem longa, dessas que a gente inventa por aí, de sair pedalando como o xará e o maestro, de levantar o dedo sob algum vento novo, de escalar morros ou simplesmente permanecer na própria cidade, zanzando e colocando as pestanas para propósitos verdadeiros, projetos intracontinentais, novas funções, criações momentâneas envolvendo uma meia dúzia de argentos, alguns instrumentos, uma bocada de empreendedores duvidosos, eventos multiculturais, muita paciência e ainda uma exposição reciclada sem capitães e em pleno setembro-chove.

Falando assim fica mais fácil, atropelo sentimentos tolos e caretas e deixo a palavra saudade acaçapada naquele dicionário da família Buarque de Holanda, distante dos outros idiomas que a desconhecem. Aproveito para agafanhar palavras desse livrinho roxo, e engranzar nessa história, cada detalhe e cada partícula de emoção, as boas e as ruins, que vivi nesses cinco locos meses ao lado dela e desses vagabundos callejeros – um bando de aproveitadores e inconsequentes, desses que insistem na utopia da liberdade galeana e para isso contam com a ajuda de algum bom coração, alguém que como eles, também se sente vivo e maldito por tentar ser artista na pior hora possível.

Atravessamos esse duro inverno curitibano, absortos em cortinas de fumaças variadas, transmutando as malas ondas e remando contra as correntes, mas espere, antes que eu siga nessa conjugação maioral e pluralizada, parte de algum discurso motivacional para uma plateia de adolescentes famintos por direções, antes que eu siga adiante na caminhada citada pelos seletores de freqüência; preciso respirar, acrescentar vírgulas, e esquecer um pouco esse papo de coletivo, de união e de não sei mais o quê.

Palavras ruidosas ou poéticas não irão me salvar e o consolo é saber que talvez tudo isso seja parte de alguma história maior, que será arquitetada nas próximas décadas em passos curtos, por gente cansada das ladainhas do passado e das promessas generosas, e que sabe ou sente que a pontuação é relativa, e que para chegarmos próximos de qualquer grande sonho é necessário começarmos por algum beco.

Com ela comecei, repetindo padrões impulsivos e provocando infindáveis discussões entre espelhos distorcidos e manipulados por premieres e photoshops, maquinetas capazes de transformar roteiros novelescos e fotos repetidas em algo supostamente fresco e palatável para a rotina caótica em que eu havia me metido.

No apê circular convivi com Letícia, seu gato Rodrigo, seu amigo colorido, suas janelas sem cortinas e seu banheiro sintonizado na rádio em tempo quase integral. No quarto, imagens de divindades orientais e cobertores sedutores me lembravam das contradições ambulantes e agora, enquanto escrevo e redesenho essas imagens, percebo pelas rimas naturais dos dígitos que ainda levarei algum tempo para compreender aquela nossa relação, as reiteradas faíscas, os desejos conjugais partidos ou os defeitos gritantes de ambos os lados.

Enquanto isso, do outro lado do centro, na rua que homenageia solenemente o clássico “Besame Mucho”, os argentos mais piolas seguiam suas metas diárias, de conseguir moedas e notas pequenas para encherem suas panças no restaurante sem quilo, saciarem os tédios noturnos no bar dos facitos e manterem o quilombo no apê emprestado.

O bolo crescia ligeiramente e logo o local, que já fora palco de peças melancólicas estreladas por artistas quarentões, famílias em tratamento hospitalar e mochileiros estrangeiros, agora recebia membros de uma orquestra de músicos de rua, mesclados com uma trupe londrina e com o garoto de ouro da rádio clandestina.

Agora, definitivamente sozinho, sem Letícia, sem Caldabranca (este se foi para Roma, ser bonvivant) e sem os hermanos, tomo um banho de porta aberta, enquanto tento entender o que foram esses cinco loucos meses. Certamente aquele apê carregará histórias para as próximas décadas e como diria o velho Waits sobre despedidas: “Well today is grey skies/Tomorrow is tears/You’ll have to wait til yesterday is here”.

E se o ontem não está por aqui, resta a esperança no amanhã e a calma no hoje.

Primavera, seja bem vinda.