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O Fora da Lei e o Xerife

billythekidNa saída do bar ibérico, ansioso por mais um cigarro e acompanhado de Letícia e das centenas de flores que costumo ver ao seu redor, foi quando o vi pela primeira vez. Incomodado com o meu comentário sobre estar contente por não ver mais carros de polícia estacionados na praça dos ciclistas e por sentir no ar o cheiro de uma fumaça diferente, William não escondeu sua opinião a respeito, balançando a cabeça e pronunciando algo como “eu não concordo”. Curioso, me aproximei do cara e perguntei “como assim, você não concorda?”. Ele me disse que havia muitos vagabundos por ali, bandidos prontos para aprontar e que a polícia era sim, necessária. Rebatendo, lhe disse que nunca havia visto tanta polícia em Curitiba e que essa coisa de segmentar o povo, afastando os “vileiros e manos”, apesar de ser uma tendência mundial ou, pelo menos, dos países de terceiro mundo, não era uma atitude bacana, pra não dizer fascista, elitista ou qualquer outro adjetivo negativo que você queira acrescentar.

William seguiu seu discurso duvidoso sobre a violência da cidade e sobre o massacre dos professores em que, segundo ele, houve excessos de ambas as partes. Quando mencionei o nome do Franscischini, ele não teve medo em declarar “sou amigo dele”. Interessante foi perceber sua identidade escondida, no momento em que Letícia indagara sobre ele ser um policial civil, amigo do seu irmão, também da profissão decadente, especialmente após incidentes como aquele ocorrido na Câmara dos Deputados. “Não sou policial, sou petista e blá blá blá…”, seguia William, esforçando-se para não parecer careta no meio da rua cheia de artistas, homossexuais, vagabundos e pseudo-esquerdistas.

William me fez lembrar o deputado Clodovil que, segundo ele, “era uma bichona, mas pelo menos aprovou algumas leis sérias para o país”, para em seguida, execrar veemente seu suposto sucessor gay no congresso, “um cabeludo, uma marionete, uma besta ambulante”. William se referia ao deputado do PSOL, Jean Wyllys. Falei de seu arquirrival e sobre o outro lado da moeda, o jocoso e bizarro Bolsonaro. Entre os dois, fico com o primeiro enquanto William parece preferir o segundo. Para ele, casais homossexuais que adotam crianças deveriam fazer tratamento psicológico, de maneira a evitar os transtornos na escola e demais instituições. Falei que achava que os pais heterossexuais também deveriam fazer tratamento, pois eles também cometiam erros grotescos.

Poderia citar outros pontos debatidos, opiniões divergentes e farpas trocadas, mas prefiro permanecer com o autoelogio de ter tido a calma e a paciência para lidar de maneira cordial com a situação toda, esforçando-me para tentar entender o que passa por uma cabeça totalmente diferente da minha. No final do encontro e das ideias antagônicas sobre segurança pública, maconha, desarmamento, gays e leis, cumprimentei-o com um aperto de mãos. Um aperto de mãos entre o xerife e eu, talvez no papel de Billy The Kid.

Para todos aqueles que acham que um diálogo entre forças opostas não é possível, eis meu relato, para provar o contrário. Agora só basta o governo do Estado entender isso e parar de tratar os professores e demais trabalhadores como se fossem bandidos. Franscischini, o brother do William, já não é mais o secretário responsável ao lado de Richa pela barbárie do dia 29. E sigamos lutando para que a democracia impere, mesmo nos estados governados pelo PSDB e por gente que acha que investir em segurança pública, colocando nas ruas homens camuflados e amplamente armados é mais importante que ter hospitais e salas de aula de qualidade.

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filmes, idéias

Quebrando o Tabu – O Fim da Guerra Contra as Drogas

Esse filme é de extrema importância para aqueles que querem entender as consequências de bilhões de dólares gastos na guerra contra as drogas. É muito bom ver antigos governantes, da Colômbia, Brasil, Estados Unidos e de outros países admitindo que suas políticas fracassaram e que é necessário revermos toda essa questão. Infelizmente os atuais governos não se pronunciam a respeito, provavelmente com medo de reações de determinados setores da sociedade, setores ignorantes que não conseguem entender que essa luta afeta suas próprias vidas, afinal, quem não conhece algum usuário de droga na sua própria família. Vejam o filme e tirem suas próprias conclusões:

idéias

Facebook

Hoje eu não vou postar nenhuma foto de protesto contra o atual governo. Não irei postar flechas apontando como sou diferente dos outros. Não postarei mensagens filosóficas bonitas ou fotos dos lugares que estive. Também não postarei charges engraçadinhas ou clipes das bandas que costumo escutar. Não postarei notícias interessantes da BBC ou do Terra e muito menos fotos das festas dos meus amigos. Hoje não postarei as coordenadas de onde estou ou de onde entrei. Também não postarei memes ou fotos de crianças desaparecidas. Não postarei citações de gente famosa ou minha nova foto do meu perfil que acabei de tirar no celular. Hoje e especialmente hoje, não postarei mensagens sobre as coisas que gosto de fazer ou sobre como fui na prova de ontem. Não postarei imagens chocantes sobre grandes causas, sobre o desmatamento da floresta amazônica, a indústria da carne ou sobre a situação dos índios guarani-kaiowá. Também não irei postar mensagens informativas sobre questões de segurança das redes sociais ou mensagens de conscientização sobre a doação de sangue ou qualquer coisa do gênero. Hoje não postarei receitas milagrosas de curas ou de como conseguir dinheiro rápido ou o de como conseguir sua alma gêmea. Também não postarei nada em inglês ou em qualquer outra língua para soar mais inteligente do que os outros. Não postarei imagens engraçadas, piadas infames, mensagens sobre o dia de sei lá o quê, flyers do próximo show da cidade, fotos da minha nova tatoo, da minha nova namorada ou do meu novo carro, mensagens espirituais ou anti-homofóbicas, fotos de cachorrinhos perdidos ou para adoção, mensagens contra o rival do meu time, fotos da última catástrofe, propagandas de sites, promoções aéreas ou de qualquer outro produto, ofertas de emprego, fotos de quando eu era uma criança linda ou fotos de flagrantes do cotidiano, ditados populares, ilustrações iradas, esculturas de areia ou de cera ou de qualquer outro material imprevisível, fotos de bebês ou de animais fofos fazendo coisas fofas, fotos de casamento ou do filho que nasceu (essas costumam fazer muito sucesso), enfim, no dia de hoje e especialmente hoje não postarei nada dessas coisas e ao invés disso escreverei esse texto com o objetivo de se tornar uma espécie de ode a vida real, que quando vivida intensamente, não há espaço para uma coisa tão insignificante e banal chamada facebook.

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Juízo Final?

Era uma noite qualquer do mês de dezembro de 2012. As comemorações para o suposto fim do mundo haviam durado a semana toda, culminando na noite de 21 de dezembro, conforme o calendário maia previa. Festas de todos os tipos e shows para todos os gostos se espalharam pelas grandes cidades. No interior, as pessoas foram menos eufóricas e se restringiram a reuniões familiares, com fartura de comida e muito vinho. Em cultos religiosos obscuros, animais foram sacrificados.

Mas como uma parcela de cientistas já havia previsto, o fim do mundo tinha sido mal calculado e não cairia mais no dia 21 e sim, uma semana depois.

Nessa noite, uma tempestade tomou conta de praticamente qualquer pedaço de terra do planeta. Durou pouco ou o suficiente para não alagar tudo e assim, acabar com o mundo de uma vez só. Alguns minutos antes do fim da chuva, luzes brancas de proporções gigantescas começaram a aparecer em diversos pontos do globo. De início, as pessoas achavam que eram apenas raios e trovões, mas logo perceberam que as luzes se movimentavam e que emitiam um sonido agudo constante e de volume baixo.

A tempestade já havia passado, quando os bilhões de habitantes das cidades iniciaram uma marcha silenciosa e lenta, em direção a espaços abertos: parques, praças, campos de futebol, calçadões e pistas de patinação ao ar livre. No interior, as famílias se reuniram em suas fazendas, em campos abertos e nos pastos. Curiosamente, ninguém falava com ninguém e o único som que se escutava, além das passadas das multidões era aquele estranho sonido agudo, que agora aumentava gradativamente de volume.

Pouco se soube do que realmente aconteceu naquela noite. No dia seguinte, várias mudanças foram notadas, muitas pessoas morreram e outras que estavam doentes acordaram saudáveis e sem nenhum resquício da doença no corpo. Paralíticos voltaram a andar e mudos agora cantavam, enquanto algumas pessoas perfeitamente sadias desapareceram, sem deixarem nenhum rastro pelo caminho.

Após alguns meses de caos e de luto por aqueles que haviam partido, a ordem foi sendo restabelecida com novos governantes no poder, enquanto outros foram derrubados. Ironicamente a maior parte deles havia sido dizimada, de forma inexplicável. Porém algo mais importante do que tudo isso havia mudado, mesmo que ninguém conseguisse lembrar do que aconteceu naquela fatídica noite de 28 de dezembro. Muitas hipóteses foram criadas e cada crença ou religião possuía a sua versão dos fatos. Sem provas ou imagens, aquele dia passou a ser conhecido como “O Dia Em Que a Terra Parou”, em uma alusão ao filme e a canção de Raul, mesmo que nada daquilo tivesse acontecido, ou caso tivesse, não havia uma pessoa sequer que pudesse comprovadamente relatar o ocorrido.

Dois anos depois, o mundo era outro. Questões fundamentais para nossa sobrevivência tinham sido resolvidas, não havia mais aquele medo generalizado por conta do aquecimento global, do desmatamento da floresta amazônica, do perigo de uma superpopulação ou de alguma crise econômica mundial. A vida tinha ficado mais tranqüila e todos agora trabalhavam não para si próprios, visando algum tipo de enriquecimento pessoal, mas para o outro, sempre pensando no todo e no planeta que agora dava os primeiros passos de uma nova Era. Os valores eram outros, bem como os maias previram. A ganância, o luxo, a inveja e a agressão deram espaço para a fraternidade, a humildade e o respeito ao próximo. O conhecimento passou a ser democrático e agora todos possuíam as mesmas oportunidades. O lixeiro passou a ganhar o mesmo que um médico, pois chegaram à conclusão de que todos são iguais e merecem os mesmos benefícios. Os animais finalmente receberam o respeito devido e deixaram de fazer parte das indústrias alimentícias, passando a viverem livres e felizes. A justiça também sofreu mudanças drásticas, sendo instaurada uma nova lei mundial, baseada em novos princípios universais. A tecnologia seguiu evoluindo a passos largos, porém agora ela andava atada nas questões éticas e morais e ao invés de servir para os interesses de grandes corporações, ela buscava um único objetivo: o bem comum.

De fato muito havia se transformado após aquele misterioso dia 28, a luz finalmente havia chegado aos corações e o amor passou a ser eterno novamente.

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Tom Zé, Beatles, As Mulheres e A História Sem Fim

A moça do café cult-intelectualóide me recebe prontamente. “Mesa pra quantos?”, “Sentarei com as meninas da sala ao lado, mas pra adiantar, quero uma taça de vinho, argentino ou coisa parecida, merlot, o mais econômico que tiverem”. Na mesa, uma amiga turca criada em Berlin come uma massa esbranquiçada com cogumelos frescos e escuros, enquanto na sua frente, sua amiga, curitibana e norte-americana por opção, ingere um caldo de feijão, brasileiro, por tradição. As duas dividem uma cerveja, brasileira também.

O vinho não chega e elas me contam que tiveram que esperar um par de horas para os pratos. Decido levantar e avaliar a situação e de fato a moça do café estava mais ocupada em organizar o pomposo buffett de frios, a trinta reais por pessoa, se esquecendo dos clientes interessados em simples taças de vinho, no caso esse chato que vos fala.

Hora de partir e ir para o museu ocular de grandes proporções, de um tal arquiteto famoso aí. “Hoje vai rolar show do Tom Zé, de graça, numa tenda lá”, havia dito uma amiga horas atrás. Levemos a gringa e a curitibana-estadunidense também, afinal, elas precisam conhecer o museu, mesmo que a noite e com o foco estando fora dele, no caso, na tenda mencionada. Também terei a oportunidade de encontrar essa amiga de bom gosto e rosto jovial, e que apontara a direção.

Chegamos e enquanto fumo meu tabaco sob olhares diversos, as explico (para a turca e a curitibana) quem é esse homem, um dos pais da tropicália e que ficara no ostracismo por uma série de motivos, e que graças a David Byrne e como o próprio Tom Zé havia dito, a um erro de um vendedor de discos que achava que seu trabalho se enquadrava no estilo samba e que sim, representava de alguma maneira a música brasileira de outrora – esse homem já com mais de 70 anos de corpo, renasceu no cenário cultural, realizando shows por toda a Europa e depois no Brasil, por que ainda tem essa coisa de fazer sucesso primeiro lá fora e aquele blábláblá todo. Pensei em lhes falar sobre aquele disco dele que é uma opereta da mulher ou daquele outro que a capa é um cu, como na primeira sílaba da palavra que dá nome a essa cidade, mas achei desnecessário, já que o homem estava ali, no palco e poderia lhes mostrar muito mais do que qualquer discurso cult-intelectualóide, normal para o café de momentos atrás.

O show começa e sem êxito, não encontro minha outra amiga e assim, me contento em permanecer distante do palco, ao meio de conversas furadas e atravessadas entre os grupos de pessoas ao redor.  Olho pra turco-alemã e que agora se assemelha a algum personagem do filme Persépolis (cult-intelectualóide também) e anuncio: “Vamos mais pra a frente pra sentirmos melhor essa coisa chamada show”. Timidamente nos aproximamos mais uns dez passos do palco, girafeio pros lados, mas continuo sem encontrar minha amiga, pequenina e no meio de uma multidão de desconhecidos. Tento mensagens de texto, tão em voga no momento, mas logo percebo que o lance é deixar para encontrá-la depois e que diferentemente das outras pessoas próximas e conectadas a redes sociais irreais, eu preferia estar com minha mente e meu coração abertos praquele homem, setentista de idade e de idéias, e sua banda de tirar qualquer chapéu (cult-intelectualóide) e que parecia se proliferar na platéia.

E por trás de todos esses chapéus e de alguns namorados-malas, daqueles que te olham feio quando você pede licença pra passar, estava eu, agora, com todos os olhos voltados a Tom Zé, que alternava suas peripécias no palco, hora tocando uma serra-fita, hora comendo um jornal e sempre intercalando cada canção (na falta de uma palavra mais adequada) com algum dizer, normalmente dirigido pro público ou pra banda: “agora mais baixinho…”.  No bis ele satisfaz os fãs-mutantes de plantão, cantando o hino do rock rural e premonitório, aquele sobre o tal astronauta libertário, uma verdadeira ode aos tempos modernos onde somos “casados e solteiros”, “baianos e estrangeiros”, e é o “computador que resolve” a equação.  Uma pena que naquela platéia, uma parte parece ainda incrustada em alguma época antiga, conservadora e machista, e para esses, é bom ler a mensagem da banda agigantada pelo telão: “Machismo Mata”, em sintonia com a passeata das vadias e com aquela história do policial também incrustado em algum tempo remoto.

E antes que me esqueça, falarei mal da Alemanha, também lembrada por Tom Zé no fim do espetáculo. Afinal, ô país paradisíaco das mil maravilhas, onde todo mundo se respeita (?), ninguém rouba (?) e acho que ninguém passa frio também, já que todos são tão legais que devem emprestar suas jaquetas e luvas a quem as precise (ok, não esqueci dos aquecedores centrais). Todos têm seus defeitos e os curitibanos costumam ser exímios críticos nesse sentido, especialmente ao falarem da Europa (?).

Mas não são sobre essas coisas que gostaria de falar, talvez o mega-cérebro do Tom Zé tenha feito um pirulito na minha ciência, me fazendo viajar em temas distantes da história sem fim que pretendia contar.

Mas vamos lá, no final do show, encontro minha amiga e ao apresentá-la as outras, a curitibana-estadunidense faz a inocente pergunta: “Mas fulana, o que você faz?”, emendando com outra indagação muito pertinente: “Colégio?”. “Não, eu faço faculdade”, responde ela com sua fala mansa e suas bochechas coloradas, e por aí a conversa andou, em marcha-lenta, e em modo ultra-criativo. Mas como o branco pode ser preto e vice-versa, como os norte-americanos já devem ter percebido, a curitibana mostrou seu outro olhar, ao associar a lua a um poste de luz redondo e branco – observação compartilhada com minha amiga, que agora passou a falar “Bah”, como meus amigos gaúchos e algumas placas de automóveis por aí.

E foi esse grupo, agora com a inserção de um novo membro novo (minha querida amiga), que seguimos para a próxima atração da noite, a famosa banda cover dos Beatles, ou Liverpoolgas, como eles são chamados, em um bar estilo anos 80 freqüentado por jovens alternativos com preferência por cores escuras. Pego umas cervejas e as sirvo em uma mesa de madeira e momentos depois reparo na presença de um dos músicos da noite, um rapaz bacana e o qual já havia conversado diversas vezes em tempos e visuais atrás. Hoje ele está de aparelho, sem barba e de cabelo mais curto, estilo Beatles na transição da primeira pra segunda fase, enquanto eu, como ele mesmo brincou, estou no estilo “filósofo” ou Dom Pedro I.

Após um convite até a esquina mais próxima e uma viagem paralela prontamente atendida e experienciada, retornamos ao recinto para momentos depois, perdermos uma integrante antes mesmo de a banda iniciar suas atividades. A curitibana decide ir pra casa, alegando cansaço e dor nas pernas, provocada pela idade avançada (segundo ela). Brinco dizendo que idade é um estado de espírito, mas também lembrei mentalmente que cada um conhece seus limites (ou vaidades) e nesses casos, não adianta discutir.

 

Porém para encurtar a história e continuar seguindo os padrões blogueiros atuais, só tenho a acrescentar que a noite se estendeu por mais algumas horas, não vimos o show beatlemaníaco por inteiro, mas comemos um baita cachorro-quente vegetariano, esse sim, por inteiro e com muito gosto, enquanto discutíamos sobre algumas diferenças entre a Alemanha e o Brasil e aquele papo sobre lá ser tudo corretinho e simpático, enquanto aqui alguns gringos ainda morrem de medo da violência e da imprevisibilidade constante por esses lados.

E viva Tom Zé, os Beatles, Curitiba, Alemanha, Turquia, Brasil, o cachorro-quente vegetariano e principalmente, as diferenças!