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Crônicas de Nácar #09: Cálices e a Santa Paciência

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O cálice de Chico e Milton explanado por Gil me faz lembrar do “cale-se” mental que ressoa mais uma vez na cabeça crescente e incandescente, borbulhando ideias persecutórias no vilarejo das mentiras convenientes. Essa história envolvendo o tio Jordi e seus parceiros do bom senso havia chacoalhado cantos obscuros carentes de sentido, e são nesses momentos e becos que sabemos onde precisamos estar, fortalecendo conexões sinceras de um passado recente, com gente massa que merece respeito, gente que sabe o que faz, gente sem a necessidade de gritar para o infinito horizonte todas as injustiças da humanidade, gente que entende que o verdadeiro papel do artista da vida é simplesmente continuar sendo e coexistindo em todos os espaços possíveis. Deixe a resistência para os indecisos, artistas não resistem, apenas vão continuar fazendo aquilo que sempre fizeram: arte em sua essência, seja no sax enferrujado do velho mestre e que ecoa nos prédios históricos de uma São Francisco cada vez mais decadente, ou no groove do baixo pulsando e se entrelaçando harmoniosamente com cada batida dos corações partidos de uma plateia de rua sedenta por cultura. A música seguirá guiando espíritos livres nas baladas solitárias de um mundo à beira do colapso, mais que necessário. As barreiras estão mais nítidas do que nunca. A paciência chegou em seu nível master, enquanto o grande mistério permanece lindo e tão puro quanto o brilho nos olhos dos velhos jovens. El amor despues del amor citado triplamente nesse espaço imaginário onde a liberdade plana sobre as nuvens cibernéticas, por entre fumaças coloridas, sinais eternos e limites invisíveis, esse amor precisa chegar no outro, ainda que esse outro esteja armado até os dentes e com músculos de algum personagem do quadrinho aventureiro de sua arrastada adolescência.  

Poderia berrar para os pais do vento algumas das atrocidades frequentes por essas bandas, bandas corrompidas por valores irreais, bandas e lugarzinhos tão pequeninos e mesquinhos, ocupados por seres opacos com cabeças cheias de vácuo. Caetano sabe que “o mundo é um fluxo sem leito e é só no oco do seu peito que corre um rio”. Policiais, médicos e advogados: vocês receberão os primeiros raios luminosos mais poderosos do universo, raios que romperão cada célula de seus corpos robóticos e que já não respondem por si há séculos. O poder e a ilusão do dinheiro comeram suas essências amargas, talvez em algum momento oportuno de suas escolas inventadas e com princípios maldosos. Chegou a hora desses raios penetrarem seus suados poros e fazerem vocês lembrarem da existência de algo que costumamos chamar de consciência. A consciência que fará vocês entenderem de uma vez por todas o real significado de suas supostas profissões, algo que clareie as relações interpessoais e faça vocês perceberem que do outro lado haverá outro ser humano, que precisa ser respeitado e compreendido. Deixe a arrogância no baú da ganância e que começará a ser enterrado assim que esses raios se aproximarem. Políticos, vocês também estão nesse bolo fecal construído por falsos pilares e ícones desprovidos de valores básicos, tão básicos como a terra que vocês um dia pisaram, pra depois cementarem e estragarem as esperanças de povos inteiros, cansados de serem humilhados e tratados como o lixo que vocês também esqueceram de reciclar. O admirável Novo subiu em suas cabeças e seus discursos bonitinhos estão tão desbotados como suas almas ou o brilho de seus olhos.

Sim, estamos nesse pálido planetinha inundado por belezas mil, populado por oito milhões de espécies não-especistas, espécies de todos os tamanhos e cores, espécies que valem infinitamente mais do que o seu prato de comida, seus diplomas ou seus contatos profissionais. Nesse mesmo espaço habitam seres obscuros enfeitiçados por antigos mitos e ritos, as velhas verdinhas e o eterno medo de diminuir o padrão econômico construído pela família ou seja lá o que for. Sim, estamos em um universo lindo e maravilhoso, mas com advogados que pedem instrumentos musicais em troca de serviços, médicos que preferem deixar mães nos hospitais em pleno dia das mães para assim receberem mais plata do plano de saúde, policiais que agridem, prendem e roubam equipamentos dos artistas de rua e depois ignoram assaltos covardes no largo da ordem higienizada pelos mesmos políticos que mandam bater em professores mal pagos. A lista de injustiças cresce exponencialmente, em especial em países onde as diferenças sociais berram. E serão nas republiquetas sem história que a ignorância será evidenciada, afinal são nessas “crises” permeadas por terrorismos midiáticos que a população sem reflexão clama por mais violência e pelo “mito” salvador que irá limpar o “crime” e a “indecência”, utilizando seus aprendizados oitentistas dos G.I. Joe´s ou “Comando em Ação”. Enquanto isso, esse sonhador de acá, continuará clamando pela intervenção alienígena que nos livrará do mal maior.

A esperança, o amor e essa utopia da liberdade precisam persistir, encontrando lugar no âmago da alma encardida e na terra das redundâncias permitidas, e nem que pra isso precisem passar por caminhos tão tortuosos, malucos e sem respostas fáceis. Hay que sentir, deixar as vibrações provocarem os saltos quânticos das bolhas mágicas e que farão você: policial, advogado, médico, político ou blablablá, sair dessa falsa zona confortável que você criou para si mesmo. E que a consciência de suas ações ressoe nos minutos antecedentes dos vossos sonhos, embalados pelo refrão country do velho Allen: “você precisa abrir a sua vida para algumas coisas melhores, você precisa abrir sua alma como uma porta, deixe o seu coração ir para onde precisa ir”. Isso sim, é vida real. Para os outros, temos o natal, a coca-cola e o sexo convencional.

 

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O Fora da Lei e o Xerife

billythekidNa saída do bar ibérico, ansioso por mais um cigarro e acompanhado de Letícia e das centenas de flores que costumo ver ao seu redor, foi quando o vi pela primeira vez. Incomodado com o meu comentário sobre estar contente por não ver mais carros de polícia estacionados na praça dos ciclistas e por sentir no ar o cheiro de uma fumaça diferente, William não escondeu sua opinião a respeito, balançando a cabeça e pronunciando algo como “eu não concordo”. Curioso, me aproximei do cara e perguntei “como assim, você não concorda?”. Ele me disse que havia muitos vagabundos por ali, bandidos prontos para aprontar e que a polícia era sim, necessária. Rebatendo, lhe disse que nunca havia visto tanta polícia em Curitiba e que essa coisa de segmentar o povo, afastando os “vileiros e manos”, apesar de ser uma tendência mundial ou, pelo menos, dos países de terceiro mundo, não era uma atitude bacana, pra não dizer fascista, elitista ou qualquer outro adjetivo negativo que você queira acrescentar.

William seguiu seu discurso duvidoso sobre a violência da cidade e sobre o massacre dos professores em que, segundo ele, houve excessos de ambas as partes. Quando mencionei o nome do Franscischini, ele não teve medo em declarar “sou amigo dele”. Interessante foi perceber sua identidade escondida, no momento em que Letícia indagara sobre ele ser um policial civil, amigo do seu irmão, também da profissão decadente, especialmente após incidentes como aquele ocorrido na Câmara dos Deputados. “Não sou policial, sou petista e blá blá blá…”, seguia William, esforçando-se para não parecer careta no meio da rua cheia de artistas, homossexuais, vagabundos e pseudo-esquerdistas.

William me fez lembrar o deputado Clodovil que, segundo ele, “era uma bichona, mas pelo menos aprovou algumas leis sérias para o país”, para em seguida, execrar veemente seu suposto sucessor gay no congresso, “um cabeludo, uma marionete, uma besta ambulante”. William se referia ao deputado do PSOL, Jean Wyllys. Falei de seu arquirrival e sobre o outro lado da moeda, o jocoso e bizarro Bolsonaro. Entre os dois, fico com o primeiro enquanto William parece preferir o segundo. Para ele, casais homossexuais que adotam crianças deveriam fazer tratamento psicológico, de maneira a evitar os transtornos na escola e demais instituições. Falei que achava que os pais heterossexuais também deveriam fazer tratamento, pois eles também cometiam erros grotescos.

Poderia citar outros pontos debatidos, opiniões divergentes e farpas trocadas, mas prefiro permanecer com o autoelogio de ter tido a calma e a paciência para lidar de maneira cordial com a situação toda, esforçando-me para tentar entender o que passa por uma cabeça totalmente diferente da minha. No final do encontro e das ideias antagônicas sobre segurança pública, maconha, desarmamento, gays e leis, cumprimentei-o com um aperto de mãos. Um aperto de mãos entre o xerife e eu, talvez no papel de Billy The Kid.

Para todos aqueles que acham que um diálogo entre forças opostas não é possível, eis meu relato, para provar o contrário. Agora só basta o governo do Estado entender isso e parar de tratar os professores e demais trabalhadores como se fossem bandidos. Franscischini, o brother do William, já não é mais o secretário responsável ao lado de Richa pela barbárie do dia 29. E sigamos lutando para que a democracia impere, mesmo nos estados governados pelo PSDB e por gente que acha que investir em segurança pública, colocando nas ruas homens camuflados e amplamente armados é mais importante que ter hospitais e salas de aula de qualidade.

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Quebrando o Tabu – O Fim da Guerra Contra as Drogas

Esse filme é de extrema importância para aqueles que querem entender as consequências de bilhões de dólares gastos na guerra contra as drogas. É muito bom ver antigos governantes, da Colômbia, Brasil, Estados Unidos e de outros países admitindo que suas políticas fracassaram e que é necessário revermos toda essa questão. Infelizmente os atuais governos não se pronunciam a respeito, provavelmente com medo de reações de determinados setores da sociedade, setores ignorantes que não conseguem entender que essa luta afeta suas próprias vidas, afinal, quem não conhece algum usuário de droga na sua própria família. Vejam o filme e tirem suas próprias conclusões:

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Facebook

Hoje eu não vou postar nenhuma foto de protesto contra o atual governo. Não irei postar flechas apontando como sou diferente dos outros. Não postarei mensagens filosóficas bonitas ou fotos dos lugares que estive. Também não postarei charges engraçadinhas ou clipes das bandas que costumo escutar. Não postarei notícias interessantes da BBC ou do Terra e muito menos fotos das festas dos meus amigos. Hoje não postarei as coordenadas de onde estou ou de onde entrei. Também não postarei memes ou fotos de crianças desaparecidas. Não postarei citações de gente famosa ou minha nova foto do meu perfil que acabei de tirar no celular. Hoje e especialmente hoje, não postarei mensagens sobre as coisas que gosto de fazer ou sobre como fui na prova de ontem. Não postarei imagens chocantes sobre grandes causas, sobre o desmatamento da floresta amazônica, a indústria da carne ou sobre a situação dos índios guarani-kaiowá. Também não irei postar mensagens informativas sobre questões de segurança das redes sociais ou mensagens de conscientização sobre a doação de sangue ou qualquer coisa do gênero. Hoje não postarei receitas milagrosas de curas ou de como conseguir dinheiro rápido ou o de como conseguir sua alma gêmea. Também não postarei nada em inglês ou em qualquer outra língua para soar mais inteligente do que os outros. Não postarei imagens engraçadas, piadas infames, mensagens sobre o dia de sei lá o quê, flyers do próximo show da cidade, fotos da minha nova tatoo, da minha nova namorada ou do meu novo carro, mensagens espirituais ou anti-homofóbicas, fotos de cachorrinhos perdidos ou para adoção, mensagens contra o rival do meu time, fotos da última catástrofe, propagandas de sites, promoções aéreas ou de qualquer outro produto, ofertas de emprego, fotos de quando eu era uma criança linda ou fotos de flagrantes do cotidiano, ditados populares, ilustrações iradas, esculturas de areia ou de cera ou de qualquer outro material imprevisível, fotos de bebês ou de animais fofos fazendo coisas fofas, fotos de casamento ou do filho que nasceu (essas costumam fazer muito sucesso), enfim, no dia de hoje e especialmente hoje não postarei nada dessas coisas e ao invés disso escreverei esse texto com o objetivo de se tornar uma espécie de ode a vida real, que quando vivida intensamente, não há espaço para uma coisa tão insignificante e banal chamada facebook.

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Juízo Final?

Era uma noite qualquer do mês de dezembro de 2012. As comemorações para o suposto fim do mundo haviam durado a semana toda, culminando na noite de 21 de dezembro, conforme o calendário maia previa. Festas de todos os tipos e shows para todos os gostos se espalharam pelas grandes cidades. No interior, as pessoas foram menos eufóricas e se restringiram a reuniões familiares, com fartura de comida e muito vinho. Em cultos religiosos obscuros, animais foram sacrificados.

Mas como uma parcela de cientistas já havia previsto, o fim do mundo tinha sido mal calculado e não cairia mais no dia 21 e sim, uma semana depois.

Nessa noite, uma tempestade tomou conta de praticamente qualquer pedaço de terra do planeta. Durou pouco ou o suficiente para não alagar tudo e assim, acabar com o mundo de uma vez só. Alguns minutos antes do fim da chuva, luzes brancas de proporções gigantescas começaram a aparecer em diversos pontos do globo. De início, as pessoas achavam que eram apenas raios e trovões, mas logo perceberam que as luzes se movimentavam e que emitiam um sonido agudo constante e de volume baixo.

A tempestade já havia passado, quando os bilhões de habitantes das cidades iniciaram uma marcha silenciosa e lenta, em direção a espaços abertos: parques, praças, campos de futebol, calçadões e pistas de patinação ao ar livre. No interior, as famílias se reuniram em suas fazendas, em campos abertos e nos pastos. Curiosamente, ninguém falava com ninguém e o único som que se escutava, além das passadas das multidões era aquele estranho sonido agudo, que agora aumentava gradativamente de volume.

Pouco se soube do que realmente aconteceu naquela noite. No dia seguinte, várias mudanças foram notadas, muitas pessoas morreram e outras que estavam doentes acordaram saudáveis e sem nenhum resquício da doença no corpo. Paralíticos voltaram a andar e mudos agora cantavam, enquanto algumas pessoas perfeitamente sadias desapareceram, sem deixarem nenhum rastro pelo caminho.

Após alguns meses de caos e de luto por aqueles que haviam partido, a ordem foi sendo restabelecida com novos governantes no poder, enquanto outros foram derrubados. Ironicamente a maior parte deles havia sido dizimada, de forma inexplicável. Porém algo mais importante do que tudo isso havia mudado, mesmo que ninguém conseguisse lembrar do que aconteceu naquela fatídica noite de 28 de dezembro. Muitas hipóteses foram criadas e cada crença ou religião possuía a sua versão dos fatos. Sem provas ou imagens, aquele dia passou a ser conhecido como “O Dia Em Que a Terra Parou”, em uma alusão ao filme e a canção de Raul, mesmo que nada daquilo tivesse acontecido, ou caso tivesse, não havia uma pessoa sequer que pudesse comprovadamente relatar o ocorrido.

Dois anos depois, o mundo era outro. Questões fundamentais para nossa sobrevivência tinham sido resolvidas, não havia mais aquele medo generalizado por conta do aquecimento global, do desmatamento da floresta amazônica, do perigo de uma superpopulação ou de alguma crise econômica mundial. A vida tinha ficado mais tranqüila e todos agora trabalhavam não para si próprios, visando algum tipo de enriquecimento pessoal, mas para o outro, sempre pensando no todo e no planeta que agora dava os primeiros passos de uma nova Era. Os valores eram outros, bem como os maias previram. A ganância, o luxo, a inveja e a agressão deram espaço para a fraternidade, a humildade e o respeito ao próximo. O conhecimento passou a ser democrático e agora todos possuíam as mesmas oportunidades. O lixeiro passou a ganhar o mesmo que um médico, pois chegaram à conclusão de que todos são iguais e merecem os mesmos benefícios. Os animais finalmente receberam o respeito devido e deixaram de fazer parte das indústrias alimentícias, passando a viverem livres e felizes. A justiça também sofreu mudanças drásticas, sendo instaurada uma nova lei mundial, baseada em novos princípios universais. A tecnologia seguiu evoluindo a passos largos, porém agora ela andava atada nas questões éticas e morais e ao invés de servir para os interesses de grandes corporações, ela buscava um único objetivo: o bem comum.

De fato muito havia se transformado após aquele misterioso dia 28, a luz finalmente havia chegado aos corações e o amor passou a ser eterno novamente.