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Blues e Delírios em Anto Nina

pace_bluesLá estavam eles, novamente no vilarejo charmoso e cheio de histórias pra contar. Antonina, ou a A Menina dos Olhos Rojos como havia sido batizada no ano passado, também estava lá, onipresente e pronta para outro evento blueseiro de proporções internacionais. Os pregadores do bom e velho blues também marcaram presença, de frente para a igreja matriz, convocando todos os anjos e demônios criados por esse estilo nascido nas fazendas de algodão. Escravos negros munidos de um talento nato, sorrateiros lamentos rompendo barreiras geográficas e sociais, e que ecoam até hoje pelos quatro cantos de um planeta em processo desconstrutivo, especialmente em becos populados por corações despedaçados e pulmões esfumaçados. São nesses becos que o blues sobrevive e certamente Antonina possui uma porção deles. Cenário perfeito para a explosão dos choros em forma de solos, protagonizados por guitarras em extinção, sinal dos tempos modernos. Cenário necessário para a construção da quarta edição do festival que precisou ser adiado por conta da greve dos caminhoneiros, sinal dos tempos sombrios permeados por políticos esquizofrênicos e presidentes ilegítimos. A Música, essa eterna companheira, segue pulsando e unindo mentes conflitantes, através dos corpos inquietos que vibram de acordo com o ritmo, ignorando posições políticas e ensinando que a música ou a arte não possui fronteiras. Elas estão no terraço blindado do prédio, enquanto as leis humanas moram centenas de andares abaixo, provavelmente no primeiro piso ainda sem janelas, onde os burocratas também costumam trabalhar e atrapalhar os planos daqueles que buscam a felicidade através do conhecimento interior.  

Lindos recuerdos de um fim de semana pra lá de especial. Nem tudo são flores quando a missão é fazer com que 25 planetas distintos orbitem em torno do mesmo objetivo. É nesse instante que começo a lembrar desses instantes inconstantes extremamente comuns e sempre carregados de significados: tetinhas e tretinhas, socos em monges índios, sumiços wallyanos, viagens marcianas em luas sorridentes, estridentes acordes azuis no festival dos horizontes, doces momentos sem tormentos, movimentos orquestrados por sinais visuais, raios e mais acordes de sol, deliciosos bobós de siri acariciadores de estômagos, vinhos produzidos por abelhas boêmias, jogos da copa das decepções, madrugadas embaladas por canções de jukebox, colchões esparramados na casa dos artistas, contundentes jams na avenida principal, místicas coreografias líquidas, improvisos musicais na oficina mecânica, saudades argentinas da filha finalmente livre, blues das antigas na padaria dos sonhos de nata da nata das bandas de um homem só, desfile de chapéus no restaurante dos sombreiros e dos mangues, titãs afundando como titanics, senhoras embebedadas por cataias sensualizando e bulinando plateias mais sérias, portuguesas sequestradoras de baixistas sentenciados, camarotes culturais de rádios am, irmãos roqueiros apavorando no blues gringo, gigantescos pastéis artesanais, obscuros encontros em fachadas históricas desmoronadas, rio e minas embelezando as brisas responsáveis por abastecer panças famintas, vagões e ornamentos carnavalescos emoldurando comboios emanadores de good grooves, o blues de chicago encontra o funk de Tim Maia, Elmore James Brown no palco principal, pioneiros do blues paranaense em reunion, criaturas do pântano animadoras de tardes ensolaradas, talentosos cabeludos obesos contadores de lorotas, pés vermelhos lançando discos em códigos digitais, paulistas interioranos viajantes do tempo em barracas de cachorro quente, símbolos e mais símbolos, êmbolos surreais que embolam na memória capenga e que agora se esforça para unir essa colcha de retalhos temperada pelo alho frito da frigideira das emoções livres de razões. Rimas dos amores, das dores e das loucuras oriundas desse blues cafetão capaz de penetrar almas opacas carentes de sentido.

E enquanto o mundo desaba diante desses nossos olhos rojos, talvez o melhor a fazer seja beber ao som do blues, assim como o cozinheiro verde havia dito na época em que esse festival permanecia no campo das ideias. Quatro anos se passaram e esse conselho parece ainda mais certo. Let the good times roll.

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Vagos Vagões Verdes

pace_vagoesverdesO feixe de luz que entra pela fresta da janela levemente aberta provoca um espetáculo visual, especialmente pela fumaça acumulada dos parceiros e habitantes do quarto da tríplice fronteira argentina-paranaguá-fortaleza. Ondas esfumaçadas em movimento constante assim como os pensamentos incessantes de quatro estranhos seres que por obra do destino, compartem o mesmo espaço tempo construído a duras penas por gente maluca que continua acreditando no sonho do artista. Correntes de fumaça com 500 tons de cinza, notas musicais imaginárias, quadros esboçados pela mente, palavras não ditas, novelas vividas, ziquiziras somadas com os pêlos brancos que brotam em peles queimadas pelo sol dos primeiros dias de outono. Dias arrastados e abafados e que provocam sono, um sono com lindos sonhos delirantes e muitas vezes, reconfortantes. Sinais aleatórios que apontam a direção? Equações existenciais não resolvidas, teoremas sem lógica, cartas fora do baralho, contas que não fecham, relacionamentos pixelados criadores de enormes pontos de interrogação. Interrupções amorosas, paixões abruptas tão redundantes como os seus redondos seios, a vida segmentada, por vezes celibatária, anárquica em essência e indefinível na realidade. Quem sabe os códigos binários castigados pela idade pudessem facilitar essa resolução? Assim como o velho novo Zé, é preciso confundir para se fazer entender, e nada melhor que aquelas ondas esfumaçadas provocadas por aquele feixe de luz para incitar essas torres neurais, capazes de conexões improváveis numa tentativa de comprovar a teoria de tudo, ou talvez aquela que diga basicamente que somos todos um: somos todos Mussum, e Mussolini também. E o caos? Até o caos estaria conectado? Johns e Manu Chaos juntos pelas mãos do universo.

Silêncios rotineiros, falsas previsões do tempo: desse tempo marcado por incertezas, montanhas russas emocionais, feministas ucranianas e novelas de papel: do papel enrolado por beckenbauers bebendo Jack Bauers, enquanto na vitrola microscópica e irreal o jazz eclode pelas previsões do tempo do tio Jordi. Na mente, os velhos subterfúgios de siempre, subterrâneos e saudosos blues, submarinos amarelos e vegetarianos, subversivos e desalinhados subtextos, subtrações linguísticas, submissas palavras sublinhadas nos subúrbios cerebrais e nos “artificiosos brejos da alma”. O subcomandante é convocado para assumir a bronca. O comandante de campo Cohen abandonou o jogo, mas eu continuarei te escutando muito tempo depois de você ter nos deixado, thanks for that tip man. Retratos antiquados e repaginados na lojinha dos curiosos.

Na beira do mato a paisagem é uma floresta com bonecas semióticas do vô Jards. Na beira do mato o calor é interno, os abraços são ternos e o vento parece eterno. A encantada fogueira também. No palco os saltos da trupe ordinária alegram as cabeças presentes nesse extraordinário recanto, enquanto na cozinha as esfihas celebravam as vidas não-sacrificadas. Memórias póstumas de outro fim de semana com o combo certeiro para hippies e hipsters de plantão: natureza e festival musical capazes de encher as esperanças em tempos sombrios. Vivemos o pesadelo político capitaneado por vampiros do poder, milicos travestidos de heróis e juízes narcisistas com biografias encomendadas. O cenário perfeito para discursos estúpidos para uma plateia de fantoches, sejam eles amarelos, vermelhos ou albinos com pintas azuis. O pensamento crítico ficou enclausurado em postagens repetidas nas redes sociais, organizadas por algoritmos retardados. O compartilhamento de informações agigantou-se com a tecnologia, mas esses malditos algoritmos estragam qualquer possibilidade de debate real, ainda que em meio virtual e com gente que teria vergonha de dizer certas coisas caso o papo fosse de fato real. E por que a insistência em escolhermos um lado se está cada vez mais claro que a maldade faz parte da condição humana e não será um perfil de feicebuque ou um partido político que livrará alguém de fazer merda? Wallace Coopers e Walkilmers parecem já saber disso. Necessitamos de métodos mais eficazes para combatermos essa so called corrupção. Algo que dispensasse humanóides broncos e mal intencionados. Talvez esses mesmos algoritmos, misturados com conhecimentos da inteligência artificial bem no estilo daquele espelho preto que tanto adoramos, pudessem de fato, nos ajudar nessa aparentemente impossível tarefa de apontar os verdadeiros vilões da história, de forma 100% segura. E se as dúvidas das urnas eletrônicas atrapalharem a evolução desse poderoso projeto, podemos ignorá-las ou usarmos essas polêmicas urnas como um exemplo para não ser seguido. Guidos Faraônicos e Gustavos Marcianos parecem não saber disso.  

Os vagões da mente seguem desconexos, rompendo limites e com a infindável missão de encontrar trilhos seguros que me levem para pueblos tranquilos, onde o bom senso possa reinar e me salvar do apocalipse iminente. E chega de ser do contra, “não quero torcer contra, quero torcer a favor de nós”, ainda que seja preciso desatar nós seculares para que esse Nós capital se desprenda dessas raízes terrestres que nos fazem cada vez mais insignificantes, e assim possamos perceber que essas raízes são de fato, celestes, e portanto, universais!  

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Crônicas de Nácar #03: Amolecendo a Ditadura

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Ton é talvez o garoto mais puro que conheci nesses últimos anos. Dono de uma risada inconfundível, estridente e potente, comparável com a Fafá de Belém, o Bira ou qualquer outro conhecido que costumamos encontrar em esquinas e casas malucas por aí. Novamente não presenciei o acontecido, mas ontem no telefone fixo Ed me contou o que rolou e só pude agradecer novamente ao universo e a tal natureza descrita pelo alien viajante no tempo que revi pela quarta vez na máquina vermelha maior do mundo.

Ton é músico de rua e costuma tocar sopros invisíveis com sua guitarra enferrujada, ao lado de seus parceiros de mangue: Jordi e Fred. Juntos eles formam um power trio instrumental bem doido, consumidores de néctar e daqueles que fazem você tirar o chapéu, e depois encher o chapéu deles, contribuindo pela arte de rua em uma cidade dominada por seres grotescos que ainda não enxergaram o verdadeiro valor deste tipo de apresentação. E foi justamente durante uma apresentação deste grupo, em plena Praça Ozório – berço da malandragem curitibana e também de lindas feiras cheias de artesanato e apetitosos rangos; foi nesse local aparentemente ordinário que policiais interromperam o show da banda de Ton, com a velha premissa de “quero ver a autorização de vocês, pois pra tocar e alegrar os transeuntes necessitamos de papéis!”. Jordi que havia descolado o tal documento junto a Fundação, outro órgão que já teve dias melhores, mas que como toda célula burocrática de um sistema antiquado e capenga, sofrerá baixas naturais.

Dedicarei um punhado de palavras para descrever algumas das atrocidades dessas supostas autoridades de uma “Coolritiba” que parece legal nos cartazes, mas que esconde sujeira e muco para todos os lados, deixando seus moradores doentes, com a garganta fodida e uma voz rouca e falha, cansada de já não possuir valor especialmente quando lidamos com humanóides que têm o poder na forma de uma arma na cintura. Alguns destes absurdos já foram retratados nesse mesmo blog pseudo hipster de valor duvidoso.

Primeiramente, fora… Piadas desbotadas à parte, esses mesmos policiais que pediram o alvará para o trio em questão, sabiam que eles estavam “legais”, pois já haviam pedido o famigerado documento em outros momentos. Jordi que havia esquecido o papel na Casa de Nácar, algo típico de artistas e demais portadores de DDA, correu para poder depois esfregar na cara da sociedade que eles estavam dentro da lei, e assim, poderiam seguir seu show, esquentando corações em processo de congelamento favorecido pelas últimas mudanças climáticas. Porém esse papel não foi encontrado, e restou para Jordi pedir desculpas aos seus comparsas, afinal, estamos falando de bandidos que escolheram a música como forma de sustento.

No outro dia os tiras tiveram a cara de pau de pedir para uma mulher de aparência humilde e que sempre prestigia as bandas de Nácar, lançando sorrisos e moedas que consegue com a venda de balas infantis. Essa mesma mulher, que na ocasião estava com um bebê no colo, foi pedida para ser revistada, em plena praça pública. Tiraram seu filho, enquanto uma policial feminina com o instinto materno adormecido revistava cada parte do corpo da mulher, incluindo peitos e língua, em um claro sinal de humilhação. E não, esses tiras mal intencionados não encontraram nenhuma droga ou arma em seu corpo. Ed que tocava com seus amigos decidiu se manifestar do jeitinho que esses tiras de araque gostam de ouvir: “Hey, vocês não fizeram nada com aquele bêbado que não deixou a gente fazer nosso show e aí vocês revistam uma mãe com criança de colo? Em que mundo vocês vivem?”. E é óbvio que quando a autoridade e o trabalho deles é questionado publicamente, essa mesma classe se junta para justificar qualquer tipo de tosquice que eles estejam fazendo. “O que? Você tá querendo nos dizer como devemos fazer o NOSSO trabalho? Você vai querer nos humilhar em público?”. “Não meu senhor, desculpe pela maneira que falei,… Como vou discutir com alguém armado? Viver em um estado fascista é foda, mas ainda sinto amor e quero seguir vivo.”

“O Mal acha que faz mal” é a célebre frase repetida todos os dias pelo mestre argentino Tijuan. E foi assim, depois dessa sequência de bizarrices envolvendo fardas e papéis, que diversos músicos de Nácar, se reuniram em frente ao famoso bar hippie-good-vibes para insistir naquilo que eles acreditavam ser o correto: arte de rua jamais será um crime. E tocaram. Tocaram um pouco mais. Tocaram transbordando emoção e groove, e logo uma multidão se aglomerou em volta deles. Mas o xerife Mr. Garrett continuava insatisfeito, mandando uma viatura parar o show, exatamente as 8 e meia da noite de um domingo.

Ton, o menino dos olhos brilhantes, somatizou toda a dor e a tristeza daqueles companheiros de trabalho, músicos honestos “sem frescura”, e simplesmente desabou, derramando baldes de lágrimas. Ed que já havia enfrentado problemas com a lei recentemente e estava trabalhando essa energia dentro de si, olhou nos olhos do policial e disse, em tom sereno: “O meu amigo ali está chorando porque vocês não estão deixando a gente fazer nosso trabalho, só queremos tocar.”

E eis que a esperança em um mundo melhor surge do céu sob purpurinas e o policial demonstra compreender a situação explanada, movimentando positivamente sua cabeça e enchendo seus olhos de lágrima: “Podem tocar, a gente sai, tá tudo bem.”

Muito se fala hoje em dia: tememos um presidente ilegítimo, tememos mais ainda um presidente fascista que promete acabar com as esperanças de um povo sofrido e corrompido, mas que ainda sabe o valor da criatividade e da união em momentos de crise.

E se algum dia a tal revolução não televisionada acontecer de fato, ela será pelo coração e jamais pela mente, como nos acostumamos a pensar. E viva esse idioma que nos permite ter lições espirituais: “A mente mente” e o “O presente é um presente”. Pois sabemos que o amor é muito maior que qualquer arma inventada em impressoras 3D.

 

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Arte de Rua Não é Crime

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Sábado de sol, mas dessa vez não aluguei um caminhão e muito menos comprei feijão. E se tinha maconha, quase não vi. Vi outras coisas bem legais e essas palavras tentarão explicar um pouco o que foi o dia de anteontem. Pela segunda vez, vi diversos artistas de rua unidos para uma causa nem nobre, nem pobre, apenas necessária em tempos estranhos. Tempos em que o ódio e a ganância são exalados por todos os poros, tempos de guerra como sempre e tempos em que a polícia militar precisa de nove carros e trinta homens fortemente armados preparados para prender o pior bandido da história dessa cidade cada vez mais cinza. No caso esse bandido se chama Música de Rua, e quem sabe mais uma meia dúzia de inofensivos maconheiros.

Sim, os músicos de rua tem sofrido uma repressão desmedida apenas por estarem tocando na rua, como sempre fizeram. E não estou falando de mega shows pirotécnicos e clandestinos, em algum bairro residencial e em plena madrugada. Esses músicos têm sido abordados somente por estarem tocando um jazz-fusion-groove, ou seja lá como queira chamar, em pleno centro de Curitiba, às oito horas da noite de uma sexta-feira. Uma pequena multidão parou para vê-los e também contribuir para que continuem fazendo isso, colaborando com algum trocado.

E sábado foi novamente um dia de protesto, um protesto artístico sem cartazes de ódio, sem a presença de maçons engravatados pedindo impeachment, nem panelas, nem camisas de futebol, nem megafones ou carros de som insuportavelmente chatos. Apenas música! Bem, talvez o principal fosse a música devido às últimas histórias bizarras envolvendo esses caras, mas também teve outras formas de arte, teve um palhaço de rua venezuelano andando em um monociclo de proporções girafais, teve dança de carimbó,  teve poesia e teatro misturada com música, e teve uma porção de fotógrafos e videomakers registrando tudin.

Pararam famílias, trabalhadores em dia de descanso, desempregados, lojistas, estudantes, turistas, outros artistas e mais um ou dois bêbados típicos de qualquer rua de cidade grande. Houveram outros transeuntes que não chegaram a parar, mas mexeram seus corpinhos em sinal de aprovação, ou como se estivessem alimentando brevemente suas almas carentes. Afinal, as ondas sonoras também cumprem esse papel.  

No fim do dia a sensação era de paz e de dever cumprido, ao menos pelos organizadores. E que venham novos atos de conscientização como esses últimos, cheios de amor e arte: dois lances que costumam andar lado a lado, se fundindo na maior parte do tempo e fazendo a gente perceber que a verdadeira transformação será sempre de dentro pra fora, ou seja, discursos inflamados e piquetes jamais serão suficientes, especialmente quando o espírito está fraco ou contaminado pelo ego que obstrui, aleija e faz a gente esquecer que o verdadeiro irmão não está no sangue ou na amizade, mas na sua frente.

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Novo Velho Amor, Me Tire Dessa Rima Fácil

pace_amor“Não, você nunca conseguirá tornar algo novo, de novo.” O refrão da canção da fita demo de M. Ward chama minha atenção. Definitivamente esse pensamento permeia minha mente nas últimas semanas e os motivos são tantos que eu nem perderia meu tempo descrevendo cada um deles. Os envolvidos saberão. Em seguida, os grandes nadadores de lagos cantam sobre escavações em busca de luz em poços escuros ou sobre seguir procurando sussurros no meio dos berros. Yoko vem para me lembrar em seu mantra que eu sou um mar de bondade e um mar de amor, ainda que ultimamente esses mares tenham provocado uma série de ressacas indesejáveis.

Sinto o coração enfraquecer, mas não é como daquela vez que precisei ser fisicamente operado e ter percebido depois que o ritual teria sido em grande parte, espiritual. É algo diferente, uma sensação estranha que faz a gente lembrar daquele imenso buraco dentro do nosso peito, e que precisa ser preenchido por fumaça, como naquela letra do Wilco.

Na cabeça, essa metralhadora de ideias e enganações, os caminhos parecem múltiplos. Porém sinto que dessa vez preciso, de uma vez por todas, confiar em meus instintos, ou apenas me entregar ao oceano de probabilidades impostas pelo universo. Meus miolos cansaram da guerra civil que estavam provocando, precisam de uma bandeira branca que indique a direção. E por favor, não estou falando de novas ideologias, seitas orientais ou apenas um novo guru. Quero falar de coisas reais, pois “mudá-las me interessa mais”, já diria o bigodudo divino.

O mundo mudou, muitas pessoas não se contentam mais com um “relacionamento sério”, ou qualquer outra coisa que isso possa querer dizer, elas querem gritar “somos livres”, ou algo como “não seja tão careta, venha para o poliamor”. Acho realmente lindo que muita gente esteja pensando assim, e confesso que adoro estar nesse tipo de situação, sem envolvimento emocional e sem as nóias de qualquer relacionamento. Mas preciso expressar minha profunda incapacidade de lidar com isso em momentos onde a razão parece alcançar distâncias lunares, e me sinto novamente como aquele adolescente da escola, escrevendo cartas de amor e tentando aos trancos, trazer aquele tal amor de volta, mesmo que seu retorno não represente garantia de paz alguma, afinal, o amor é cego e costuma provocar feridas.

É por isso que amar é brega pra caralho. É filme americano piegas, é novela mexicana e é teatro pro povão. Não importa o quanto queremos afastar esse sentimento chinfrim, ou o quanto nos aproximamos do chamado “amor livre”, um belo dia você acorda e percebe que novamente foi mordido por ele. Atordoado, febril e demente, você tenta fugir, inventar desculpas, dizer pra si mesmo que dessa vez será diferente. No fundo, sinto que as chances disso acontecer são praticamente nulas, pelo menos no atual ponto em que me encontro, e depois de diversas ilusões amorosas e histórias inconclusivas que me fazem seguir amando pessoas do passado, ainda que em menor intensidade.

Posso tentar, mas tem certas coisas que são difíceis de negar, a flecha atravessou meu corpo capenga pela décima vez, provocando sequelas nos “artificiosos brejos da alma”, e o que vai sair disso tudo, só o universo sabe. Lições serão sempre bem vindas, mas quero saber mesmo quando poderei finalmente descansar esse coraçãozinho remendado, e poder focar em outros aspectos reais da vida.

“O amor verdadeiro te encontrará no final”, cantou o Daniel dos demônios, e é com esse sentimento que pretendo conviver o tal peso da existência, ou ao menos essa breve passagem em um planeta aleatório, cheio de contradições, destruições, anomalias e falsa moralidade. Quero ser um, como no discurso de Lynch, para assim, me sentir ainda mais perto de todos os amores que o acaso me deu. Quero ser um, para parar com essa mania de querer uma pessoa só. Quero ser um para que todos sejam meus e eu seja de todos. Quero ser o tipo de brega daquela música tribalista sobre saber namorar, e não o brega das milhões de canções sobre corações despedaçados. Prometo continuar amando seus versos e suas rimas engraçadas de amor, afinal, esse foi o combustível de infinitas fossas.

E enquanto esse amor sublime e universal não vem, seguirei contente com pelo menos um amor verdadeiro, sem rótulos ou grandes amarrações. Só não me deixe com esse silêncio brutal e descompassado com o tamanho do amor que sinto. Mensagens fabricadas não serão suficientes.

E que a paciência seja sempre a minha melhor amiga.

Em tempo, ontem Leonard Cohen partiu. Tenho certeza que esse era um cara que entendia bem desses assuntos.

    

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Impressões Montanhosas

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Os últimos acordes estridentes do power trio invisível reverberam pelas montanhas, poucos minutos passados da meia-noite e para uma plateia encantada. Era o fim de um festival dominical que contou com a presença de uma série de artistas obstinados na criação de uma atmosfera amiga e unificadora, responsável pelos sorrisos contínuos de um dia dos pais atípico.

O cenário não poderia ser melhor: no pé da serra do mar, no portal dos sonhos possíveis, onde a natureza e o homem parecem provar que os dois podem conviver em harmonia, sem as distrações da cidade grande e com o sentimento mútuo de gratidão. Gratidão pelo lindo dia de sol e pela noite terna sem os costumeiros ventos gélidos do inverno paranaense. Gratidão pelas pessoas maravilhosas que por ali transitaram, tocaram, empolgaram e simplesmente existiram.

No palco das couves e das pedras, tivemos vulcões teatrais em erupção espontânea, chorinhos transmutados em roquinhos oitentistas, a voz marcante de Barretos acompanhada pelo tempero beltrâmico de sempre, os sons espaciais e transcendentais de um casal afinado com o universo, a eloquência e a malemolência dos garotos flamejantes, e por fim, o improviso psicodélico do trio já citado.

No café, tortas, bolos, pizzas e chapates artesanais, feitos com o carinho e a atenção necessária para transformar cada prato em uma experiência gastronômica com proporções astronômicas. Enquanto isso, na portaria, um maluco ex-cabeludo propicia minutos de puro prazer com seu brinquedo para todas as idades, um óculos capaz de teletransportar o sujeito para terras inusitadas. No bar, as cervejas trincavam.

Ainda em paralelo, aconteceram belas oficinas cheias de informações fundamentais para entendermos um pouco mais sobre essa tal América Latina, ou sobre como comermos de maneira saudável, sem precisarmos de animais ou fogões.

Poderia seguir citando as demais atrações, como as incríveis esculturas do artista tímido, ou o maravilhoso artesanato indígena local, ou ainda o charme do brechó com preços ainda mais charmosos. Poderia escrever linhas sobre o carimbó paraense que botou todo mundo pra dançar, poderia escrever muito mais, mas o fato é que fatalmente eu cairia no clichê de dizer que faltariam palavras para descrever a monstruosa satisfação de poder fazer parte dessa nova proposta cultural com potenciais inimagináveis.

Um abraço, daqueles cósmicos e atemporais, em cada alma presente neste dia. Esperamos poder repetir a dose, em uma outra ocasião, “circunstância, situação”, como diria o saudoso Júpiter. A montanha também pode ser um lugar do caralho.

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