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Pra Não Dizer Que Não Falei Das Empanadas

pace_buenosHá algo de belo na decadente Buenos Aires. Não está nas calles, cheias de lixo e com cheiro de mierda. Não está na antipatia “porteña”, do motorista de ônibus ao garçom, sempre com cara de cu. Não está na política, na economia ou no governo que envergonha seus habitantes menos abastados. Não está na falta de faso ou na sobra de merca.

Há algo de belo na cosmopolita Buenos Aires. Não está nos parques agora cercados ou nos boliches cada vez mais caros. Não está nos arredores da rodoviária mais grande e mais feia da América do Sul. E definitivamente não está na comida cheia de farinha branca, açúcar e carne. Muito menos naquele obelisco.

Há sim algo de belo na bagunçada Buenos Aires. É preciso procurar, vasculhar e cavar fundo. Sua beleza não é extravagante como as praias do Rio ou as montanhas de La Paz. É uma beleza meio escondida, meio camuflada, uma beleza centenária e descrita por seus poetas e “nobel” escritores. Talvez seja aí que reside a dificuldade de encontrarmos beleza nessa cidade. Talvez seja preciso ser poeta ou dono de algum espírito livre para enxergá-la.

Em tempos modernos, é bem provável que ela passe na sua frente enquanto você esteja respondendo alguma mensagem no celular.

Poderia citar pistas, lugares mais específicos, ou regalar mapas rabiscados. Poderia fazer comparações arriscadas, algo que aproxime as antigas garotas de Ipanema com as novas cocotas de Palermo. A verdade é que não existe uma fórmula. Mas sinto que encontrei essa beleza em algum canto sombrio de mais uma eterna madrugada. Algo a ver com a dramaticidade de seus tangos, a alegria de suas cumbias e a melancolia de suas milongas.

E só posso dizer que a beleza de Buenos Aires é amarga como seu fernet e doce como seu alfajor. Assim, posso concluir que é um tipo de beleza adulta, um fetiche que só será apreciado em sua totalidade por poucos. Quem sabe essa seja a sina dessa capital latina.

Pros demais, ainda existe o dulce de leche, as empanadas, a Recoleta, El Caminito e as churrascarias de Puerto Madero cheias de brasileiros.  

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Sobre as Coisinhas da Noite de Ontem

casbah“Se a felicidade está nas pequenas coisas, eu lhe desejo um monte de coisinhas”, dizia o bilhete poético fosforescente do artista de rua, que pediu licença no instante em que Laura cuspia algum pensamento sobre a arte… De rua. Havia lido outros poemas coloridos, mas por algum motivo cósmico-sideral esse fez mais sentido. As coisinhas, essas viriam depois.

Estávamos na mesa do lado de fora, no bar clashiano de outras historietas,  surpreendendo-nos com algumas coisinhas também: o trio punk tocando Bowie, Ramones, os psicopatas assassinos e mais Clash, para alegria de Laura; a posterior vitrola televisiva mandando um doolittle – o disco envenenado dos pixielados. O jazz no harvest já havia acabado, o show no lado B também, e nos restavam os minutos mágicos antecedentes da sexta feira 13, na companhia de outros seres benevolentes de mais uma noite de semana no baixo São Francisco; onde a alegria anda restrita a caixa de sapato cheia de surpresinhas e garotas legais, e os bares de rua fecham cada vez mais cedo. Sinais da crise boêmia, infinitamente mais aterrorizante que a da TV (é claro, falo por nós, vagabundos).

Antes eu e Mrs. Grieves já havíamos dado nossos rolês e visto várias coisinhas bacanas, desde as gravuras premiadas no museu do escritor e neto do grande pintor, passando pelos canapés, as mini-empadas e os frisantes regalados, e chegando aos dedos escuros do amigo artesão que trocou o anel de arames por um abraço apertado de Mrs. G. Olhando fixamente para seus dedos, quase pretos, provocados pelo vício inerente pelos quase famosos tabacos bolados; olhando para aqueles dedos me senti tranquilo e com menos medo, já que tenho apenas o polegar e o indicador direito que apresentam manchas amareladas do consumo dessa planta, demonizada em ambientes diurnos e endeusada nas madrugadas arrastadas, no cerne do presente pós-apocalíptico zumbi da cidade que cresce e padece.

Na vila dos hippies, onde horas atrás a menina berrou as canções clássicas da história do punk brasileiro, acompanhada de amigas e parceiras que dançavam e trocavam ideias tatuadas na espontaneidade da calçada; a mesma calçada que abrigava a senhora do cabelo oxigenado e seu cachorro que, segundo Laura, estava todo pesteado, com a barriga cheia de vermes e o pelo servindo de palco para um carnaval de pulgas e outras coisinhas que ainda não conseguimos identificar. Porém, não poderia esquecer os gestos de carinho e parceria desses dois seres da noite, que não incomodavam ninguém e ainda surrupiavam sorrisos pueris provocados pela natureza e pelo amor entre os humanos e os animais.  Coisinhas bonitinhas que continuam vivas e se repetindo por aí.

E todas essas presepadinhas e coisinhas que estou relatando enquanto escuto as meninas do Warpaint só aconteceram porque o jardim das Américas das bananas estava fechado para visitas inoportunas de vagabundos vampiros em busca do conforto dos sofás restaurados da casa dos papais.

Laura se despediu após cruzarmos com o irmão gente fina de Mrs. Grieves. Seguimos a jornada estapafúrdia, agora atrás de algum rango sem mortes. Encontramos bem ali no ponto de encontro das matinês dos adolescentes suburbanos vestidos de preto, bem em frente da boate das drags.

No fim, terminamos no hotel decadente das transas fugazes, recheado de coisinhas asquerosas, lençóis mal lavados, cobertores desconfortáveis, chuveiros sem água quente e cortinas melecadas com milhões de mosquitos baladeiros que impossibilitaram qualquer forma de descanso e sossego, com seus zumbidos irritantes e suas picadas intermináveis. Ao fundo, ainda se escutava os estrondos eletrônicos da boate dos gatos, alternados pelos berros dos travestis e de outras damas da noite. Ainda não consigo acreditar que os filhos da puta, donos daquela espelunca, possam ter a coragem de cobrar oitenta mangos para uma diversão perigosa de poucas dezenas de minutos, e um inferno de longas horas com os tais cobertores piniquentos e os malditos mosquitos que não deveriam ser respeitados nem pelos mais bondosos veganos desse planeta.

Mas claro, isso poderia ser bem pior. A parceria existiu e é bom poder compartilhar coisinhas como essas com a pessoa do lado.

Poeta das ruas, gratidão pelo conselho dado. Também desejo um monte de coisinhas pra você.

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Boulevard do Ócio Criativo

Metafísica
Jogos com fósforos
Palpites perdidos no tempo
Meu palpite é quatro
O seu é três
Jogos de palavras e palitos
O sol encobertando o frio

Boulevard e o ócio criativo
Boulevard e o ócio criativo
Boulevard e o ócio criativo
Boulevard e o ócio criativo

Nada para fazer ou pensar
Só sentimento e amor
Dois poetas e duas gangorras
Da vida iludida
Às vezes vivida
Às vezes sentida

Dois bebês e suas lindas babás
Pastéis de camarão
Símbolos da podridão
O sol não brilha para todos
No boulevard dos sonhos perdidos

(Marquês de Casanova e Igor Moura, 17/09/2014)

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FEBRE DO RATO OU HELLCIFE PELOS OLHOS DE UM POETA

febredorato“Quem disse que poesia não embala, quem disse que poesia não embriaga,…” Os versos declamados pelo poeta do filme, o personagem Zizo, ilustram um pouco do universo caótico, libertário e anarquista do próprio diretor do filme, o “poeta audiovisual” Claudio Assis.

Após caminhar por estradas tortas e becos obscuros, alcançando resultados brilhantes (vide Amarelo Manga e Baixio das Bestas), Claudio Assis chega ao seu terceiro longa com a lucidez só encontrada nos loucos, transmutando a poesia esquecida das ruas e  colocando-a na tela do cinema: viva, intensa, sincera e multifacetada, como ela sempre foi.

Recife ou Hellcife, serve como cenário para um verdadeiro pandemônio, um cenário que é impossível dissociar dos personagens ou da própria história contada. “Esse filme não tem história”, diz uma personagem em relação ao filme a que estão assistindo e numa metalinguagem, ao próprio filme de Claudio Assis. O poeta Zizo, uma espécie de alter ego do diretor, responde: “Esse filme é sobre a minha vida, a história você vai criando na sua cabeça”.

E não é uma só, já que temos as brigas de amor do “paizinho” e sua esposa travesti, e temos a história de Zizo, e sua luta para, através da sua mídia livre, o jornal “Febre do Rato”, conseguir mudar o sistema vigente, que oprime e deixa as pessoas sem a capacidade de “espernear” contra as coisas erradas que acontecem por aí.

A história de Zizo culmina quando ele e seus amigos de bairro resolvem protestar em pleno 7 de setembro, afinal “Até a Anarquia precisa de tradição!”, em uma cena que me lembrou “Zabriskie Point” do Antonioni, pela libertinagem e também “Um Filme Falado” do Manuel de Oliveira, pelo corte abrupto e o final esquisito que orfaniza a plateia. 

Concordo que esse final possa gerar desconforto no expectador e compreendo as razões para isso acontecer, mas acredito que Assis só procurou mostrar o que rola por aí e como o sistema segue opressor como nunca. É claro que todos nós gostaríamos de viver nesse sonho anárquico pós-moderno, onde tudo é possível e as leis são feitas naturalmente pelo próprio grupo, mas infelizmente essa realidade segue próxima da ilusão.

A Febre do Rato de Claudio Assis, enfatizada pela fotografia monocolorida e pelas lentes hipnóticas do mestre Walter Carvalho, é cheia dessas divagações, dessas poesias viscerais que nos fazem questionar o status quo e toda a ordem pré-estabelecida, que nos fazem sentir que há uma luz no fim desse imenso túnel de caretice que assola a humanidade. Uma pena não termos mais diretores honestos e corajosos como esse pernambucano cachaceiro arretado chamado Claudio Assis. Obrigado mais uma vez por sacudir nossos traseiros!

É anarquia, é mídia livre, é orgia e é poesia, é porra, é cachaça e maconha, é pansexualidade, é pichação, é ação e emoção, é liberdade e é panfletagem, é Assis nos lembrando que a POESIA ainda existe! Viva os loucos!

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Desapego

Comprei um casaco
Charmoso, descolado e barato,
Que encontrei no brechó.

Perdi o telefone
Perdi oitenta reais,
Meu sobrenome e o esmalte dos dentes.

Perdi meu chapéu escuro
E como o gato sem bigode,
Fiquei sem rumo.

Tonto, quase perco a carteira, os documentos e os créditos.
O amigo diz: isso é coisa de sequelado!

Pra mim, isso é tudo culpa do casaco.

Doei um casaco
Feioso, largado e sem sorte.

Encontraram meu chapéu!
A mulher diz: isso é coisa de dia dos namorados.