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Crônicas de Nácar #09: Cálices e a Santa Paciência

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O cálice de Chico e Milton explanado por Gil me faz lembrar do “cale-se” mental que ressoa mais uma vez na cabeça crescente e incandescente, borbulhando ideias persecutórias no vilarejo das mentiras convenientes. Essa história envolvendo o tio Jordi e seus parceiros do bom senso havia chacoalhado cantos obscuros carentes de sentido, e são nesses momentos e becos que sabemos onde precisamos estar, fortalecendo conexões sinceras de um passado recente, com gente massa que merece respeito, gente que sabe o que faz, gente sem a necessidade de gritar para o infinito horizonte todas as injustiças da humanidade, gente que entende que o verdadeiro papel do artista da vida é simplesmente continuar sendo e coexistindo em todos os espaços possíveis. Deixe a resistência para os indecisos, artistas não resistem, apenas vão continuar fazendo aquilo que sempre fizeram: arte em sua essência, seja no sax enferrujado do velho mestre e que ecoa nos prédios históricos de uma São Francisco cada vez mais decadente, ou no groove do baixo pulsando e se entrelaçando harmoniosamente com cada batida dos corações partidos de uma plateia de rua sedenta por cultura. A música seguirá guiando espíritos livres nas baladas solitárias de um mundo à beira do colapso, mais que necessário. As barreiras estão mais nítidas do que nunca. A paciência chegou em seu nível master, enquanto o grande mistério permanece lindo e tão puro quanto o brilho nos olhos dos velhos jovens. El amor despues del amor citado triplamente nesse espaço imaginário onde a liberdade plana sobre as nuvens cibernéticas, por entre fumaças coloridas, sinais eternos e limites invisíveis, esse amor precisa chegar no outro, ainda que esse outro esteja armado até os dentes e com músculos de algum personagem do quadrinho aventureiro de sua arrastada adolescência.  

Poderia berrar para os pais do vento algumas das atrocidades frequentes por essas bandas, bandas corrompidas por valores irreais, bandas e lugarzinhos tão pequeninos e mesquinhos, ocupados por seres opacos com cabeças cheias de vácuo. Caetano sabe que “o mundo é um fluxo sem leito e é só no oco do seu peito que corre um rio”. Policiais, médicos e advogados: vocês receberão os primeiros raios luminosos mais poderosos do universo, raios que romperão cada célula de seus corpos robóticos e que já não respondem por si há séculos. O poder e a ilusão do dinheiro comeram suas essências amargas, talvez em algum momento oportuno de suas escolas inventadas e com princípios maldosos. Chegou a hora desses raios penetrarem seus suados poros e fazerem vocês lembrarem da existência de algo que costumamos chamar de consciência. A consciência que fará vocês entenderem de uma vez por todas o real significado de suas supostas profissões, algo que clareie as relações interpessoais e faça vocês perceberem que do outro lado haverá outro ser humano, que precisa ser respeitado e compreendido. Deixe a arrogância no baú da ganância e que começará a ser enterrado assim que esses raios se aproximarem. Políticos, vocês também estão nesse bolo fecal construído por falsos pilares e ícones desprovidos de valores básicos, tão básicos como a terra que vocês um dia pisaram, pra depois cementarem e estragarem as esperanças de povos inteiros, cansados de serem humilhados e tratados como o lixo que vocês também esqueceram de reciclar. O admirável Novo subiu em suas cabeças e seus discursos bonitinhos estão tão desbotados como suas almas ou o brilho de seus olhos.

Sim, estamos nesse pálido planetinha inundado por belezas mil, populado por oito milhões de espécies não-especistas, espécies de todos os tamanhos e cores, espécies que valem infinitamente mais do que o seu prato de comida, seus diplomas ou seus contatos profissionais. Nesse mesmo espaço habitam seres obscuros enfeitiçados por antigos mitos e ritos, as velhas verdinhas e o eterno medo de diminuir o padrão econômico construído pela família ou seja lá o que for. Sim, estamos em um universo lindo e maravilhoso, mas com advogados que pedem instrumentos musicais em troca de serviços, médicos que preferem deixar mães nos hospitais em pleno dia das mães para assim receberem mais plata do plano de saúde, policiais que agridem, prendem e roubam equipamentos dos artistas de rua e depois ignoram assaltos covardes no largo da ordem higienizada pelos mesmos políticos que mandam bater em professores mal pagos. A lista de injustiças cresce exponencialmente, em especial em países onde as diferenças sociais berram. E serão nas republiquetas sem história que a ignorância será evidenciada, afinal são nessas “crises” permeadas por terrorismos midiáticos que a população sem reflexão clama por mais violência e pelo “mito” salvador que irá limpar o “crime” e a “indecência”, utilizando seus aprendizados oitentistas dos G.I. Joe´s ou “Comando em Ação”. Enquanto isso, esse sonhador de acá, continuará clamando pela intervenção alienígena que nos livrará do mal maior.

A esperança, o amor e essa utopia da liberdade precisam persistir, encontrando lugar no âmago da alma encardida e na terra das redundâncias permitidas, e nem que pra isso precisem passar por caminhos tão tortuosos, malucos e sem respostas fáceis. Hay que sentir, deixar as vibrações provocarem os saltos quânticos das bolhas mágicas e que farão você: policial, advogado, médico, político ou blablablá, sair dessa falsa zona confortável que você criou para si mesmo. E que a consciência de suas ações ressoe nos minutos antecedentes dos vossos sonhos, embalados pelo refrão country do velho Allen: “você precisa abrir a sua vida para algumas coisas melhores, você precisa abrir sua alma como uma porta, deixe o seu coração ir para onde precisa ir”. Isso sim, é vida real. Para os outros, temos o natal, a coca-cola e o sexo convencional.

 

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A Empatia de Mettagozo

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A roda girante segue girando e dando voltas e mais voltas, em movimentos poliformes e repetições infinitas, histórias e personagens que se repetem, uns mais legais, outros mais chatos, tais como essas palavras medíocres que saem da cabeça enfervecida pelos ecos que emanam caos e decepção, influenciada por alguma fumaça típica da madrugada. Pequenos desvios de septo, de alguma memória guardada naquela gaveta antiga sem chave. Agora entendo que “fantasmas” você estava falando, Leonard ou essas “memórias que te torturam”, Willie. É preciso ressignificar eu disse no insta, errando no português. É preciso deixar as ondas, boas ou ruins, ressonarem nesse tronco profundo chamado alma. A explosão de ter conhecido o velho Mettagozo foi grande demais e só poderia agradecer a qualquer pachamama que você queira acreditar, por mais um dia maravilhoso, desses para recordar pelos próximos cinquenta anos, na companhia de sorridentes extraterrestres em alguma mesa de poker holográfica.

E se esse papo soa estranho demais, o anti-comandante pede gentilmente para você permanecer na terra segura e livre das maldades e dos milagres de um mar desconhecido, um oceano de possibilidades, desafios e aprendizados. “A história que revelarei agora” aconteceu aqui mesmo, em Curitiba. A mesma “curitiba doida” em caixa baixa como aprendi com você, meu velho amigo Paquito.

2016 “foi um ano ruim”. Estive na fossa composta por jacas de todos os tamanhos, me sucumbi ao diabo e suas boletas que controlam nosso humor e deixam as curvas da vida menos sinuosas; porém um sábio birmanês me trouxe de volta para a realidade maior, a natureza que independe da sua ou da minha opinião, apenas existe, profunda e mais esperta que todos os computadores desse universo, ainda que essas máquinas fossem controladas por bilhões de Hawkings. E foi nesse ano que o amigo enxaqueca encontrou no lixão uma gravura do gênio Mettagozo, em alguma caçamba por aí. Colocamos a obra de arte na sala de casa, e por lá permaneceu por vários meses, decorando um espaço subversivo e pseudo anti-sistema, onde loucos de todas as origens e idades se encontravam, comiam, bebiam, conversavam, riam, transavam e dormiam. Teve gente querendo colorir a obra e sinto que o autor não se importaria tanto caso isso de fato acontecesse, afinal o que está aí é para ser transformado e o artista que não gosta de ver seu trabalho modificado não percebe que toda a vez que repete essa postura ele está se colocando como maior ou mais importante que o pixador ou talvez o próximo Banksy. Ele ou sua obra, não importa. Obrigado meu novo amigo Rodô por não me fazer sentir tão sozinho nessa também. Essa natureza maior que tento explicar jamais entenderia essa mente mentirosa que diz que uma coisa é boa ou não, exatamente como estou fazendo agora.

Explicar o inexplicável cansa, ainda que outro sábio popular siga afirmando que “navegar é preciso”. Sentir é preciso. Viver é preciso e a palavra improviso não deveria existir no dicionário. Jamais algo terá mais precisão ou necessidade que o sentir. Papos intelectualóides necessitam de interrupções, seja de um Mettagozo inventando canções em um ukelele desafinado e com a voz toda fodida, ou de um jovem artista de rua mostrando alguma nova dimensão para uma plateia deslumbrada com a ilusão do poder chamado microfone anos-luz de gente que acha que a relatividade é a grande responsável pela merda do mundo, ou que quando alguém diz que é escritor, você deve questioná-lo: “Que faixa você é, preta, azul ou branca?

Palavras e imagens deveriam ajudar, mas se “a liberdade está logo na esquina”, o que vai adiantar isso se “a verdade está tão distante de si”, diria o coringa de Bob. Repetirei quantas vezes precisar, a verdade está no sentir. O irmão está logo na sua frente, como disse certa vez o motorista carioca, acalmando os impacientes passageiros de um busão rumo ao carnaval dos milhões e das milhares de almas que conseguem sentir o verdadeiro espírito de qualquer festa popular. O mal ou o guru também pode estar em qualquer esquina. Converse com mais mendigos sem os medos do passado e você começará a entender o que tento dizer. E é sempre mais fácil ignorar a sabedoria alheia quando nos apegamos a opiniões cruzadas, lapsos de ira que só fazem o mestre retornar a posição de aprendiz, pela milésima vez. Quando as interpretações errôneas deixarem de existir e as lições acabarem, “mate-me por favor”.

O parceiro de caminhada Mettagozo parece tirar isso de letra, ou como costumo fazer por aqui, tirando ensinamentos espirituais ou “lições de moral” em letras de canções esquecidas. “Quando me espancaram na ditadura e arrancaram meus dentes, sabe o que eu fiz? Sorri, pois sabia que nada daquilo era real.” Homens e muitas mulheres adoram jogar pedras e colocar na fogueira os vagabundos iluminados que lhes mostram outro ponto de vista que não seja baseado em “tíorias”, apenas em percepções sensitivas dessa natureza infinita. Darwin deu apenas o primeiro e sempre gigantesco passo, a competitividade utilizada para justificar as atrocidades do capitalismo já não faz mais sentido e é preciso compreender que somos seres cooperativos. Isso se ainda quisermos nos salvar desse suposto fim anunciado exaustivamente por todos os poros.

Ah Mettagozo…que história eu estava tentando contar mesmo? Sobre o “menino infeliz que não se ilumina”? Quem sabe quando tivermos cajuína em curitiba as pessoas se iluminem mais. Fernando vem dessas bandas, onde o líquido sagrado se faz presente e onde ele tinha uma banda sequestradora de céus, que agora está sendo resgatada em ritmo homeopático. Nesse processo, seu coração vem sofrendo operações pontuais e com a ajuda de seres invisíveis, frequentadores dos rituais tribais de outrora. Porém antes de seguir mais esse causo tenho que retornar ao personagem principal: a gravura encontrada no lixo urbano desse artista bendito de sobrenome e idade sexual.

Havia uma casa charmosinha, sede de eventos culturais e produtos artesanais com valores duvidosos, ainda que essa equação “arte x preço” seja tão abstrata quanto “a vida em seus métodos”. Nessa casa, com flores em todos os cantos, rolava uma reunião de artistas, uns mais conhecidos, outros menos. Mettagozo estava lá, com seus desenhos, seus “poeminhas” e principalmente seu espírito livre. Carla Brasa também estava lá, com sua beleza e suas opiniões. A conversa por vezes travada seguiu até um ponto, um ponto bem próximo do final, em que o interlocutor decidiu abrir o microfone para o público. My friend Fernando levantou a mão e nesse instante percebi que deveria fazer um esforço mínimo para conseguir o tal microfone dourado. Passei o cabo por volta de uma planta bacana e quando cheguei perto de Fer, senti o balanço do barco, mas felizmente ele aceitou a ideia de sair do anonimato.

“Heyyyy…você! Como é o seu nome mesmo?” Enquanto risos amarelos ressonavam no ambiente esterilizado, eu lhe disse baixinho “Mettagozo, mas a galera chama ele de Metta”. “O quê???”, ele titubeou. Fortaleza, eu te amo cada vez mais. Fernando, o cidadão instigado da vez fez a pergunta que não poderia deixar de ser feita. “Estive na ocupação do Iphan no Rio e percebi que havia uma separação nítida entre a classe artística, entre aqueles detentores do poder obtido pelos velhos editais e aqueles marginalizados, os artistas de rua que passam o chapéu e sofrem diariamente a repressão de uma polícia alinhada com os interesses elitistas de sempre. O que acham disso?” O poeta genioso divagou e não respondeu. Brasa sacou a inquietude do cabeludo com pinta de artista e tentou: “tem aquele artista que consegue um edital menor e paga 150 reais para um cara montar seu palco e depois fica grande e pomposo e continua pagando os mesmos 150 golpes.” E pior, seu discurso de classe segue intocável. Go figure.

Fernando, segurando o gibi do super-homem que fiz ele segurar para tirar uma foto dessa grama de instante real concluiu: “O que vocês acham de fazer um próximo encontro somente com artistas de rua?”. O barbudo interlocutor disse que seria um prazer, mas será que ele estava querendo impor condições? “Ao colocarmos condições, o amor evapora”, cantaria Kevin. É essa esperança Fer que eu e Kevin continuamos tendo, ainda que estejamos num “ciclo putrificado cheio de um sebo pastoso e repugnante, onde lambemos uns aos outros num gesto desprezível que chamamos falsamente de ‘empatia’.”

Mas o universo e essa empatia aí parecia estar do lado dos marginais e foi no final dos finais que Letícia sorteou uma gravura do Metta, ironicamente a MESMA que decorou a sala de casa, numa reciclagem pós-tropicalista de araque..e quem ganhou a versão que seria posteriormente autografada? Super-Fernando!!!

 

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Crônicas de Nácar #03: Amolecendo a Ditadura

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Ton é talvez o garoto mais puro que conheci nesses últimos anos. Dono de uma risada inconfundível, estridente e potente, comparável com a Fafá de Belém, o Bira ou qualquer outro conhecido que costumamos encontrar em esquinas e casas malucas por aí. Novamente não presenciei o acontecido, mas ontem no telefone fixo Ed me contou o que rolou e só pude agradecer novamente ao universo e a tal natureza descrita pelo alien viajante no tempo que revi pela quarta vez na máquina vermelha maior do mundo.

Ton é músico de rua e costuma tocar sopros invisíveis com sua guitarra enferrujada, ao lado de seus parceiros de mangue: Jordi e Fred. Juntos eles formam um power trio instrumental bem doido, consumidores de néctar e daqueles que fazem você tirar o chapéu, e depois encher o chapéu deles, contribuindo pela arte de rua em uma cidade dominada por seres grotescos que ainda não enxergaram o verdadeiro valor deste tipo de apresentação. E foi justamente durante uma apresentação deste grupo, em plena Praça Ozório – berço da malandragem curitibana e também de lindas feiras cheias de artesanato e apetitosos rangos; foi nesse local aparentemente ordinário que policiais interromperam o show da banda de Ton, com a velha premissa de “quero ver a autorização de vocês, pois pra tocar e alegrar os transeuntes necessitamos de papéis!”. Jordi que havia descolado o tal documento junto a Fundação, outro órgão que já teve dias melhores, mas que como toda célula burocrática de um sistema antiquado e capenga, sofrerá baixas naturais.

Dedicarei um punhado de palavras para descrever algumas das atrocidades dessas supostas autoridades de uma “Coolritiba” que parece legal nos cartazes, mas que esconde sujeira e muco para todos os lados, deixando seus moradores doentes, com a garganta fodida e uma voz rouca e falha, cansada de já não possuir valor especialmente quando lidamos com humanóides que têm o poder na forma de uma arma na cintura. Alguns destes absurdos já foram retratados nesse mesmo blog pseudo hipster de valor duvidoso.

Primeiramente, fora… Piadas desbotadas à parte, esses mesmos policiais que pediram o alvará para o trio em questão, sabiam que eles estavam “legais”, pois já haviam pedido o famigerado documento em outros momentos. Jordi que havia esquecido o papel na Casa de Nácar, algo típico de artistas e demais portadores de DDA, correu para poder depois esfregar na cara da sociedade que eles estavam dentro da lei, e assim, poderiam seguir seu show, esquentando corações em processo de congelamento favorecido pelas últimas mudanças climáticas. Porém esse papel não foi encontrado, e restou para Jordi pedir desculpas aos seus comparsas, afinal, estamos falando de bandidos que escolheram a música como forma de sustento.

No outro dia os tiras tiveram a cara de pau de pedir para uma mulher de aparência humilde e que sempre prestigia as bandas de Nácar, lançando sorrisos e moedas que consegue com a venda de balas infantis. Essa mesma mulher, que na ocasião estava com um bebê no colo, foi pedida para ser revistada, em plena praça pública. Tiraram seu filho, enquanto uma policial feminina com o instinto materno adormecido revistava cada parte do corpo da mulher, incluindo peitos e língua, em um claro sinal de humilhação. E não, esses tiras mal intencionados não encontraram nenhuma droga ou arma em seu corpo. Ed que tocava com seus amigos decidiu se manifestar do jeitinho que esses tiras de araque gostam de ouvir: “Hey, vocês não fizeram nada com aquele bêbado que não deixou a gente fazer nosso show e aí vocês revistam uma mãe com criança de colo? Em que mundo vocês vivem?”. E é óbvio que quando a autoridade e o trabalho deles é questionado publicamente, essa mesma classe se junta para justificar qualquer tipo de tosquice que eles estejam fazendo. “O que? Você tá querendo nos dizer como devemos fazer o NOSSO trabalho? Você vai querer nos humilhar em público?”. “Não meu senhor, desculpe pela maneira que falei,… Como vou discutir com alguém armado? Viver em um estado fascista é foda, mas ainda sinto amor e quero seguir vivo.”

“O Mal acha que faz mal” é a célebre frase repetida todos os dias pelo mestre argentino Tijuan. E foi assim, depois dessa sequência de bizarrices envolvendo fardas e papéis, que diversos músicos de Nácar, se reuniram em frente ao famoso bar hippie-good-vibes para insistir naquilo que eles acreditavam ser o correto: arte de rua jamais será um crime. E tocaram. Tocaram um pouco mais. Tocaram transbordando emoção e groove, e logo uma multidão se aglomerou em volta deles. Mas o xerife Mr. Garrett continuava insatisfeito, mandando uma viatura parar o show, exatamente as 8 e meia da noite de um domingo.

Ton, o menino dos olhos brilhantes, somatizou toda a dor e a tristeza daqueles companheiros de trabalho, músicos honestos “sem frescura”, e simplesmente desabou, derramando baldes de lágrimas. Ed que já havia enfrentado problemas com a lei recentemente e estava trabalhando essa energia dentro de si, olhou nos olhos do policial e disse, em tom sereno: “O meu amigo ali está chorando porque vocês não estão deixando a gente fazer nosso trabalho, só queremos tocar.”

E eis que a esperança em um mundo melhor surge do céu sob purpurinas e o policial demonstra compreender a situação explanada, movimentando positivamente sua cabeça e enchendo seus olhos de lágrima: “Podem tocar, a gente sai, tá tudo bem.”

Muito se fala hoje em dia: tememos um presidente ilegítimo, tememos mais ainda um presidente fascista que promete acabar com as esperanças de um povo sofrido e corrompido, mas que ainda sabe o valor da criatividade e da união em momentos de crise.

E se algum dia a tal revolução não televisionada acontecer de fato, ela será pelo coração e jamais pela mente, como nos acostumamos a pensar. E viva esse idioma que nos permite ter lições espirituais: “A mente mente” e o “O presente é um presente”. Pois sabemos que o amor é muito maior que qualquer arma inventada em impressoras 3D.

 

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Crônicas de Nácar #02: Baseado em Contos Surreais

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A história que contarei não aconteceu exatamente na rua em questão, mas nas redondezas, bem no centro histórico da chamada República de Curitiba, nomezinho feio que inventaram recentemente, para descrever essa província pseudo européia localizada no sul do Brasil – um país bem diferente do que vemos por aqui.

Era mais ou menos umas onze e meia da noite, quando meus amigos decidiram lanchar no copo sujo, uma lanchonete 24h com coxinha de 1 real e uma série de personagens notívagos um tanto curiosos. Cumprida essa missão, Ed, Renata, Fernando e Nina, decidiram celebrar a saciedade de seus estômagos, e fumar unzinho bem na frente de um famoso restaurante, que em inglês, algo típico dessa republiqueta, diz pra gente que eles tem “o melhor hambúrguer do mundo”. Egocentrismos a parte, meus amigos estavam lá, cantando All You Need Is Love, no melhor astral que uma capital fria pode oferecer. Nina coloca o baseadinho na boca e de repente o cenário muda de figura: um camburão da polícia militar encosta e logo saem cinco homens com escopetas e expressões faciais de puro ódio. Chegam brincando e dizendo coisas do tipo “rodaram, rodaram, seus filhos da puta, maconheiros de merda, podem encostar na parede”.

Apesar das duas meninas e de serem cinco homens na abordagem, eles foram revistando os meus quatro amigos, ao som de xingamentos e esculachos, infelizmente típicos dessa polícia brasileira. Durante esse processo tosco, Fernando levou uma cacetada nos testículos, e quando esboçou uma reação perante uma das maiores crueldades que um homem pode passar, o policial pergunta “que que você tá se contorcendo aí viado?”. Fernando apenas explicou com seu sotaque nordestino inconfundível “você bateu nos meus ovos!”.

Nina, uma garota que esbanja alegria no viver, e não deve passar dos 50 quilos, também sofreu preconceito, talvez por ser negra, ou pelo fato de ter nascido no Rio de Janeiro. “Ah, você é uma carioca folgada. Volta lá pra sua terrinha de merda”. Renata, que veio de Londrina, mas que naquele momento bizarro resolveu dizer que era daqui e que morava no Pilarzinho, foi prontamente humilhada em um sentido reverso. “Ah, você veio de um bairro bom, o que a senhorita está fazendo com esses vagabundos: negros, nordestinos e bandidos por natureza?”. Só aí esses tais homens da lei cometeram pelo menos três tipos de crimes, crimes que a sociedade costuma ignorar, afinal, eles só estão cumprindo a lei“, algo a ver com os costumeiros “homens de bem” típicos desses cantos.

Ed, um dos maiores talentos musicais que conheci nos últimos anos, foi o único que decidiu rebater algumas das atrocidades ditas por esses cinco homens, sem rostos e sem um pingo de bom senso ou respeito, cinco homens que pensam que a farda possui alguma mágica especial que faz deles superiores a qualquer outro cidadão. Ed também é negro, tem um cabelo black power invejável e veio do interior de São Paulo. De cara ele afirmou pacificamente “sou maconheiro sim, mas sou trabalhador, trabalhei o dia todo e agora vocês querem me prender porque estou fumando um baseado com meus amigos?”.

Por motivos incompreensíveis esses cinco homens com escopetas algemaram Ed e o colocaram no camburão, enquanto meu amigo tentava explicar que o país estava uma merda justamente por essa hipocrisia. Com claustrofobia, Ed tentou meditar dentro daquele pequeno espaço escuro destinado a verdadeiros bandidos: assassinos, estupradores e quem sabe alguns políticos também. Mas sua meditação era sempre interrompida pelo policial baixinho com algum problema sério de auto estima, que seguia xingando e esculachando meu pobre amigo.

Resumo de mais uma das milhares de histórias que se repetem na cidade onde “a lei funciona e é pra todos, menos se você for do PSDB”: levaram Ed até o décimo segundo batalhão da polícia militar, há pelo menos dez quilômetros do centro, fizeram ele assinar um termo estúpido e ainda ouvir aquela mesma ladainha de sempre “pô, você tá me fazendo trabalhar nessas horas só por um baseado?”. Fale isso pros policiais que levaram meu amigo, os mesmos policiais que passaram por ele e gritavam “Bolsonaro 2018!!! Pra acabarmos com esses vagabundos todos, vocês têm que morrer!!”.

All You Need Is Love, pois esse ódio todo não te pertence. E por favor, na próxima vez, deixe meus amigos fumarem. Talvez vocês também precisem disso para acalmarem essa mente doentia e lavada a seco nesse quartel de onde vocês vieram.

Ed foi encontrado somente duas horas depois, em um bucólico posto de gasolina, tentando conseguir algum celular emprestado para chamar um uber, enquanto era mangueado por outro músico de rua.

 

 

 

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Arte de Rua Não é Crime

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Sábado de sol, mas dessa vez não aluguei um caminhão e muito menos comprei feijão. E se tinha maconha, quase não vi. Vi outras coisas bem legais e essas palavras tentarão explicar um pouco o que foi o dia de anteontem. Pela segunda vez, vi diversos artistas de rua unidos para uma causa nem nobre, nem pobre, apenas necessária em tempos estranhos. Tempos em que o ódio e a ganância são exalados por todos os poros, tempos de guerra como sempre e tempos em que a polícia militar precisa de nove carros e trinta homens fortemente armados preparados para prender o pior bandido da história dessa cidade cada vez mais cinza. No caso esse bandido se chama Música de Rua, e quem sabe mais uma meia dúzia de inofensivos maconheiros.

Sim, os músicos de rua tem sofrido uma repressão desmedida apenas por estarem tocando na rua, como sempre fizeram. E não estou falando de mega shows pirotécnicos e clandestinos, em algum bairro residencial e em plena madrugada. Esses músicos têm sido abordados somente por estarem tocando um jazz-fusion-groove, ou seja lá como queira chamar, em pleno centro de Curitiba, às oito horas da noite de uma sexta-feira. Uma pequena multidão parou para vê-los e também contribuir para que continuem fazendo isso, colaborando com algum trocado.

E sábado foi novamente um dia de protesto, um protesto artístico sem cartazes de ódio, sem a presença de maçons engravatados pedindo impeachment, nem panelas, nem camisas de futebol, nem megafones ou carros de som insuportavelmente chatos. Apenas música! Bem, talvez o principal fosse a música devido às últimas histórias bizarras envolvendo esses caras, mas também teve outras formas de arte, teve um palhaço de rua venezuelano andando em um monociclo de proporções girafais, teve dança de carimbó,  teve poesia e teatro misturada com música, e teve uma porção de fotógrafos e videomakers registrando tudin.

Pararam famílias, trabalhadores em dia de descanso, desempregados, lojistas, estudantes, turistas, outros artistas e mais um ou dois bêbados típicos de qualquer rua de cidade grande. Houveram outros transeuntes que não chegaram a parar, mas mexeram seus corpinhos em sinal de aprovação, ou como se estivessem alimentando brevemente suas almas carentes. Afinal, as ondas sonoras também cumprem esse papel.  

No fim do dia a sensação era de paz e de dever cumprido, ao menos pelos organizadores. E que venham novos atos de conscientização como esses últimos, cheios de amor e arte: dois lances que costumam andar lado a lado, se fundindo na maior parte do tempo e fazendo a gente perceber que a verdadeira transformação será sempre de dentro pra fora, ou seja, discursos inflamados e piquetes jamais serão suficientes, especialmente quando o espírito está fraco ou contaminado pelo ego que obstrui, aleija e faz a gente esquecer que o verdadeiro irmão não está no sangue ou na amizade, mas na sua frente.

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Domingo de Chuva

chuvaDomingo de chuva, de uma chuva aclamada e pré-anunciada nos rodapés dos jornais, uma chuva esperada pelos fazendeiros e não desejada pelos feirantes e demais vendedores ambulantes, uma chuva típica da montanha e que não adianta ter medo dela, pois “a chuva voltando pra terra traz coisas do ar”. Ainda bem, pois era justamente disso que eu estava precisando.

Curitiba testemunhou o recorde histórico: mais de 90 dias de sol, céu azul e um clima árido típico da capital de um país em declínio e que o baterista argentino tem dificuldade de entender. “Vi domingo passado aquele protesto contra o governo, mas só vi gente de relógio caro, tênis de marca e camisa oficial da seleção brasileira… do que eles estão reclamando mesmo?”.  Meu amigo Mariano, dessa vez vou calar a boca e não serei aquele que te dirá que “a vida é séria e a guerra é dura”, pois quando penso assim, tudo fica tão chato e cinza como os papos dos granfinos ou os discursos pseudo politizados de gente que ainda não entende que as opiniões são como aqueles dados cheios de lados dos tabuleiros imaginários de RPG e que nunca fizeram minha cabeça chata de nordestino, assim como escutava na adolescência.

Na vitrola da sala, João canta sobre o nada e sobre Deus ser um “conceito pelo qual nós medimos nossa dor”, enquanto escuto aquele som neoclássico do aplicativo do momento, algo a ver com aquelas propagandas ridículas das operadoras de celular sobre mensagens ilimitadas, mensagens em que não consigo ver nenhuma vantagem, não nesse domingo de chuva, não nesse momento em que estou cansado, com dores nas costas e com um catarro verde escuro no pulmão e me sentindo grosseiro e estúpido com aqueles que ainda sentem alguma coisa boa por mim.

Será que um dia a gente vai entender que toda essa tecnologia é inútil na tarefa de suprir sentimentos básicos de solidão, carência e insegurança e que cabe a gente lidar com essas merdas sozinho, e não querer jogar isso pro outro ou, ainda pior, tentando se comunicar por um aparelho que foi feito com uma boa intenção, mas que como tudo que o homem ocidental tocou desde sempre, foi transformado em lixo, em guerra, em destruição e em uma má perdição. Sim, por que se perder é bom demais, mas só quando a gente tem essa consciência e sente que não está sendo guiado por um ego maior e ainda mais pervertido.

Estou blue como o disco da Joni Mitchell que agora toca na sala, blue como o piano natalino daquela canção sobre a possibilidade de existir um rio congelado em  que a gente pudesse patinar pra bem longe. E falando em pianos e em tristezas, lembro daquele que está bem atrás de mim, e que já foi responsável por momentos lindos, de alegria, com a minha mãe tocando Fascinação e fazendo a amiga vizinha e que agora corrige meus textos, sentir a felicidade no ar, e logo me lembro de também me sentir bem ao escutar seu filho Pedro ouvindo Ramones no talo quando eu ainda era um moleque mimado e confinado a um condomínio fechado, desses que meu pai tem medo de retornar a morar e, é claro que eu entendo suas razões. Só não entendo por que esse piano que está atrás de mim precisa custar tão caro para voltar a soar afinado,… Malditas cravelhas!

Também não entendo por que a gente segue se apaixonando e acreditando nas pessoas e até na gente mesmo, pra depois vir essa onda blue e eu precisar de um amigo advogado para me lembrar que as pessoas são, no fundo, totalmente egoístas e que essa história de corrente do bem ou das pessoas “do bem” não passa de um marketing pra vender suco natural; ou ainda algum discurso aliciano da classe média alta que nunca viajou tanto pro exterior, mas que agora precisa economizar para pagar direitos trabalhistas e impostos para um governo comunista que insiste em patrocinar a ditadura cubana e roubar os cofres públicos sem sobreavisos ou julgamentos posteriores.

Dr. Gonzo, meu amigo advogado que agora passou a me seguir por aí e me lembrar do lado demoníaco que existe em cada ser, Dr. Gonzo, você sim, será cada vez mais necessário. Já precisei de remédios controlados, de drogas ilegais, rituais orientais e até de iridologia para saber quem eu sou, mas agora, nesse domingo de chuva e nos outros tantos que estão por vir, nesse momento blue e down, sinto que precisarei sim de uma avalanche de papéis, assinaturas, cláusulas, processos, contratos e carimbos de todas as cores, frios ou preferivelmente quentes; ainda que eu continue anarquista ao ponto de odiar todas as formas de burocracia e legislação criadas por esses humanoides, que seguem existindo dentro de mim, para tentar organizar uma massa que não consegue usar o bom senso e o coração nem para sair de casa ou tomar um café, e que segue querendo cada vez mais, sem perceber que o barato da vida não está na “inútil luta contra os galhos”, mas sim no tronco, é lá e somente lá que “está o coringa do baralho”.

Dr. Gonzo, por favor, me ajude a cuidar desses galhos, e obrigado mais uma vez ao baiano que me ensinou a perder o medo da chuva e à outra baiana, a maior de todas, que me fez ter a cabeça chata, chata o suficiente para seguir sonhando e compreendendo que há muito mais para sentir e aprender, ainda que as decepções só cessem por completo quando eu, você e todas as pessoas desse planeta… Sumirem.

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O Fora da Lei e o Xerife

billythekidNa saída do bar ibérico, ansioso por mais um cigarro e acompanhado de Letícia e das centenas de flores que costumo ver ao seu redor, foi quando o vi pela primeira vez. Incomodado com o meu comentário sobre estar contente por não ver mais carros de polícia estacionados na praça dos ciclistas e por sentir no ar o cheiro de uma fumaça diferente, William não escondeu sua opinião a respeito, balançando a cabeça e pronunciando algo como “eu não concordo”. Curioso, me aproximei do cara e perguntei “como assim, você não concorda?”. Ele me disse que havia muitos vagabundos por ali, bandidos prontos para aprontar e que a polícia era sim, necessária. Rebatendo, lhe disse que nunca havia visto tanta polícia em Curitiba e que essa coisa de segmentar o povo, afastando os “vileiros e manos”, apesar de ser uma tendência mundial ou, pelo menos, dos países de terceiro mundo, não era uma atitude bacana, pra não dizer fascista, elitista ou qualquer outro adjetivo negativo que você queira acrescentar.

William seguiu seu discurso duvidoso sobre a violência da cidade e sobre o massacre dos professores em que, segundo ele, houve excessos de ambas as partes. Quando mencionei o nome do Franscischini, ele não teve medo em declarar “sou amigo dele”. Interessante foi perceber sua identidade escondida, no momento em que Letícia indagara sobre ele ser um policial civil, amigo do seu irmão, também da profissão decadente, especialmente após incidentes como aquele ocorrido na Câmara dos Deputados. “Não sou policial, sou petista e blá blá blá…”, seguia William, esforçando-se para não parecer careta no meio da rua cheia de artistas, homossexuais, vagabundos e pseudo-esquerdistas.

William me fez lembrar o deputado Clodovil que, segundo ele, “era uma bichona, mas pelo menos aprovou algumas leis sérias para o país”, para em seguida, execrar veemente seu suposto sucessor gay no congresso, “um cabeludo, uma marionete, uma besta ambulante”. William se referia ao deputado do PSOL, Jean Wyllys. Falei de seu arquirrival e sobre o outro lado da moeda, o jocoso e bizarro Bolsonaro. Entre os dois, fico com o primeiro enquanto William parece preferir o segundo. Para ele, casais homossexuais que adotam crianças deveriam fazer tratamento psicológico, de maneira a evitar os transtornos na escola e demais instituições. Falei que achava que os pais heterossexuais também deveriam fazer tratamento, pois eles também cometiam erros grotescos.

Poderia citar outros pontos debatidos, opiniões divergentes e farpas trocadas, mas prefiro permanecer com o autoelogio de ter tido a calma e a paciência para lidar de maneira cordial com a situação toda, esforçando-me para tentar entender o que passa por uma cabeça totalmente diferente da minha. No final do encontro e das ideias antagônicas sobre segurança pública, maconha, desarmamento, gays e leis, cumprimentei-o com um aperto de mãos. Um aperto de mãos entre o xerife e eu, talvez no papel de Billy The Kid.

Para todos aqueles que acham que um diálogo entre forças opostas não é possível, eis meu relato, para provar o contrário. Agora só basta o governo do Estado entender isso e parar de tratar os professores e demais trabalhadores como se fossem bandidos. Franscischini, o brother do William, já não é mais o secretário responsável ao lado de Richa pela barbárie do dia 29. E sigamos lutando para que a democracia impere, mesmo nos estados governados pelo PSDB e por gente que acha que investir em segurança pública, colocando nas ruas homens camuflados e amplamente armados é mais importante que ter hospitais e salas de aula de qualidade.