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Artista/Banda da Semana – Lonely Drifter Karen

Há uns bons meses atrás um grande amigo havia retornado de sua viagem itinerante por entre países europeus sortidos, o qual deve ter passado ótimos meses conhecendo aquele continente belo e decadente. Entre as grandes belezas descobertas, um curioso trio intitulado “Lonely Drifter Karen” parece ter ofuscado nomes manjados do cenário indie-pop em um tal festival, o qual ele pôde dar a graça de sua presença. (…)

Rapidamente fui atrás daquele nome curioso e para minha grata surpresa, ouvi seus dois discos, recebendo elogios do meu par de tímpanos, no desenrolar de cada nova canção. Misturando o bom e velho rock´n´roll folk com música de cabaret, de algum circo do além e daqueles sonhos inocentes da criança que temos dentro de nós, esse trio (composto por um espanhol, um italiano e a doce voz de uma austríaca) consegue cativar o ouvinte já nas primeiras audições.  Esse meu amigo sabe mesmo dar boas dicas musicais (entre outras). Só me resta passar essa dica adiante. Um grande abraço e tenha uma ótima semana nesse “mundo maluco”.

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Dicas Musicais

Artista/Banda da Semana – She & Him

No longínquo ano 2000 era lançado um filme bacana chamado “Quase Famosos”, contando a história do diretor Cameron Crowe e seu início de carreira como jornalista da revista Rolling Stone. Quem viu aquele grande filme adolescente, deve se lembrar da irmã mais velha do menino, que antes de “fugir” de casa para perseguir seu sonho de ser uma aeromoça (?), dá um toque no irmão pra ele verificar uma caixa que está embaixo de sua cama. E lá estavam os grandes discos de rock´n´roll que abririam um novo mundo na cabeçinha daquele garoto.

Pois bem, aquela irmã gente boa se chama Zooey Deschanel e depois de fazer uma série de outros bons filmes (incluindo a personagem descrita em “O Guia dos Mochileiros das Galáxias” como sendo “magra, humanóide, com grandes ondas de cabelo preto, uma boca inteira, um pequeno nariz e olhos ridiculamente marrons” no filme de mesmo nome), ela decide finalmente iniciar sua carreira musical ao lado de ninguém menos que M. Ward. Ok, talvez você não conheça muito bem ele, mas o cara é bão.

E assim surge “She & Him” e os discos “Volume One” e “Volume Two” com uma distância de dois anos. Por todos esses nomes, deu pra perceber que simplicidade é o que o duo procura (e facilmente encontra). E se Zooey gosta de ouvir uma tal rádio AM com clássicos californianos dos anos 70, essa influência se faz presente nas suas músicas, resultando em lindas canções country-folk-pop assoviáveis . E é aí que M. Ward consegue se encaixar perfeitamente, produzindo e compondo arranjos magicamente atemporais.

Como se não bastasse, o “casal” ainda teve a audácia de gravar covers primorosos dos rapazes de Liverpool e dos melodiosos meninos conhecidos por “Beach Boys”.  Como diria um querido amigo, boa viagem.

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O Dylan Que Não Estava Lá

Biografias de artistas são tão difíceis de transpor para o cinema quanto grandes obras literárias. Adaptar em todos os sentidos da palavra é algo que poucos sabem fazer, seja na arte ou na própria vida (a arte imita a vida, aquela velha história).

I´m Not There ou “Eu Não Estou Lá” (uma das raras traduções cinematográficas corretas na história do Brasil), de Todd Haynes, consegue se distanciar tremendamente desses maus exemplos (Ray, Johnny & June, Cazuza – O Tempo Não Pára, só pra citar alguns). Já nos créditos iniciais, percebe-se a intenção do autor, quando este nos diz que seu filme é ”inspirado nas canções e nas várias vidas de Bob Dylan”.

Espere aí, um filme inspirado em “canções”? Nas “várias vidas” de um artista? Quanta pretensão hein? E aquela historinha com começo, meio e fim que estamos acostumados a ver? Quero ver o artista sofrer com a pobreza na infância, batalhar até o sucesso, se perder no “mundo das drogas”, perder um amigo ou familiar e depois ressurgir das cinzas, em um final triunfal.

Ah, é verdade, essa história já vimos centenas de vezes e talvez seja por isso que Todd Haynes tenha preferido fugir disso tudo, embarcando em uma viagem solitária e esquizofrênica rumo ao desconhecido, rumo ao imenso mundo interno e emotivo desse obscuro homem: “a voz de uma geração”, um “verdadeiro gênio”, ou apenas um “cantor folk” – todas as definições execradas pelo próprio artista, que prefere se definir como um “trapezista”.

E sim, o filme é sobre as tais “várias vidas” de Bob Dylan: é sobre o impostor, uma espécie de Dylan ainda criança, inspirado por Woody Guthrie e suas canções de protesto; é sobre o poeta, nos tempos em que Dylan se alimentava ferozmente da poesia e vida de Arthur Rimbaud; é sobre o profeta, um Dylan concentrado numa busca interior e que culminaria na figura de um pastor evangelista; é sobre o fora-da-lei, um Dylan em completo isolamento, combatendo os problemas da sua pequena aldeia; é sobre a “estrela da eletricidade”, um Dylan tão romântico e apolitizado quanto os atores dos filmes; e é sobre o próprio Dylan em sua fase elétrica, afundado em drogas e desentendimentos,  uma espécie de Judas do movimento folk. Sim, Dylan possui todos esses lados, e tantos outros, assim como todos nós – desde que esqueçamos a superficialidade de fatos históricos e notícias inventadas, e olhemos para o nosso interior.

Somos um caleidoscópio de emoções misturadas numa busca constante e obsessiva por algum sentido.  E Bob Dylan não é diferente. Como artista, o que ele fez (e ainda faz) é apenas externar todos esses sentimentos, materializando o imaterializável e expressando o inexprimível. E é justamente nesse ponto que reside seu maior talento. Atráves de suas músicas, conseguimos encontrar alguma estranha forma de identificação, mesmo que a relação entre autor e obra (ou a própria intenção do autor) seja perdida no meio do caminho. Os Panteras Negras que o digam.

As canções estão aí (afinal, “uma canção é alguma coisa que anda sozinha”, como diria Dylan já no início da película) e o que Todd Haynes fez foi encontrar alguma lógica nelas, algo que pudesse traduzir cada fase do artista, de uma forma simbólica e extremamente original, assim como o próprio Dylan cansou de fazer.  Se Dylan inventou todas essas personas, cuidando para enterra-las logo em seguida (assim que cada uma delas ia sendo reconhecida), porque o próprio Todd Haynes não poderia fazer o mesmo?

É aí que todo o conceito do filme faz algum sentido – se Dylan nunca admitiu ser apenas um cantor folk e sempre se interessou por uma vida inventada (no melhor sentido possível), Haynes faz um filme tão inventado quanto a(s) própria(s) vida(s) de Dylan. E o mais interessante é que com isso, ele consegue chegar a uma honestidade profunda, uma verdade emocional que todos esses outros filmes sobre grandes artistas estão longe de alcançar.

E como se não bastasse, o filme ainda propõe uma série de reflexões e questionamentos – todos baseados em citações ou nas próprias canções de Dylan. Questionamentos sobre até que ponto somos realmente livres: “As pessoas sempre estão falando sobre liberdade, sobre viverem de um determinado jeito, onde não sejam incomodadas. Claro, quanto mais você viver de um determinado jeito menos você vai se sentir livre.” Poderia emendar com outra clássica citação deste mesmo homem “Talvez ninguém seja livre, até os pássaros são presos ao céu” .

Há também as reflexões sobre identidade: “Eu posso mudar durante um dia. Eu acordo e sou uma pessoa e quando vou dormir eu tenho certeza que sou outra. Eu não sei quem eu sou na maior parte do tempo.” Sim Dylan, nós sabemos que você não é um cantor folk. E continue sendo esse ser misterioso de sempre, afinal uma das maiores graças dessa vida são justamente os mistérios, mistérios com “contradições, caos, melancias, relógios” e tudo que você possa imaginar.

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Artista/Banda da Semana – The Clientele

Com letras inspiradas na literatura e na arte surrealista do começo do século 20 e uma sonoridade rotulada pelos críticos como sendo apenas um “pop melancólico”, a verdade é que os caras do Clientele sabem fazer belas melodias. Melodias que cativam logo nos primeiros contatos, seja pela sua simplicidade ou por um tipo de originalidade difícil de ser encontrada nas milhares de bandas indie que brotam todos os anos e que você nunca terá a chance de conhecer. The Clientele faz um som melancólico como dito anteriormente, mas de extremo bom gosto e sem cair em sentimentalismos baratos, algo que também, é difícil de vermos por aí. É notável a evolução estilística em cada novo disco, seja nas produções ou nos próprios arranjos. Sem mais, sugiro que ouça essas músicas de preferência à noite (que é quando esse tipo de som faz ainda mais sentido) e tire suas próprias conclusões. Abraços e boa semana.

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poesias

Cantor Popular

Músico experiente se oferece
Para tocar em casamentos e outras festas
Também me apresento
Nos mais diversos restaurantes
Me ausento da condição
De fazer músicas próprias
Toco a canção que o povo pede

Não nego, confesso,
Sou um cantor popular

Toco de tudo,
Daquele samba até aquele mambo
De Louis Armstrong
Até Ney Matogrosso
Faço a alegria dos bêbados
Dos casais apaixonados
E daqueles que me pagam

Não minto, admito
Sou um cantor popular

Não tenho identidade
Sou apenas as músicas
Que toco sem propriedade
Tenho malandragem
Sei o que o público quer
Faço uma homenagem
Aqueles que se casam e dançam

Eu sei,
Sou só um cantor popular

No final todos batem palma
Dizem: Adorei você!
Ah! Como isso me acalma
Dá a sensação de dever cumprido
Afinal é só isso que faço
Satisfaço aqueles que me ouvem
Com as músicas que todos já sabem
De cor e salteado

Sou um cantor popular

Dicas Musicais

Artista/Banda da Semana – Apanhador Só

Naquele dia era pra eu ter ido ver o show da Banda Gentileza, com abertura do Apanhador Só. Cheguei a baixar as músicas do disco novo no site do Apanhador, mas acabei não comparecendo no show. Deveria. Depois de ouvir algumas vezes o CD dos caras, fiquei surpreso com a inventividade do grupo gaúcho que mistura furadeira, máquina registradora, pato de borracha e roda de bicicleta a um pop descompromissado, com elementos que variam entre o skafolkrock psicodélicoindie rock e até ritmos mais exóticos como o tango. As influências vêm de todos os lados e o resultado é um som fresco, recém saído do forno. As letras não decepcionam, pelo contrário, agregam e muito as composições. Em “Peixeiro”, ouve-se “O nosso amor, uma garrafa de vinho/Virando vinagre devagarinho”.  Já no começo do disco, na música de abertura “O Rei e o Zé”, temos outro verso interessante “Um rei me disse que quem deixa ir tem pra sempre”. Em “Nescafé”, tem-se “Remenda o meu sorriso e, sorrindo, me costura mais uma ruga/Desfaz a casa que casa com o meu botão”.  Ajudando a recriar o pop nacional (juntamente com Banda Gentileza), e com letras tão boas assim, é bem provável que o Apanhador Só tenha um longo e lindo caminho a percorrer. Não sei vocês, mas vou procurar seguir os feijões que eles forem deixando nesse caminho.

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