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Fragmentos de uma noite doce

pace_luaA noite aterrissou em minha cabeça em estilo pouso forçado, sem avisos luminosos ou máscaras de oxigênio. Era sexta, a lua estava cheia e apesar do anúncio dos astrólogos, ninguém estava preparado para aquela avalanche de sentimentos e piruetas potencializadas por agentes químicos interestelares. “O calendário resumiu-se a quase um mês”, culpa do garoto maroto com sono.

Pra mim, a noite era de despedidas, as argentinas retornariam finalmente para seu país de origem, após um mês de viagens não programadas, iniciadas na rodoviária mais caótica da América do Sul. Um caminho torto envolvendo cataratas avassaladoras, ilhas desertas sem proteção solar, romances estranhos e uma porção de dias na casa dos malucos, na cidade do poeta maldito mais pop do Brasil.  

Na casa o clima era de festa, daquelas improvisadas, sem convidados especiais ou atrações confirmadas, apenas cervejas, violões e os loucos de sempre: verdadeiras espécies em extinção, abelhas e sabiás de terras desconhecidas. Volumosas risadas nos guiaram em direção à natureza mais próxima, uma espécie de universidade às avessas, sem professores ou alunos, apenas mato, bichos, um lago e uma pedreira nos protegendo dos ventos gélidos e das energias pesadas oriundas da capital.

No palco principal a atriz, mais bela e ancestral que se tem notícia, protagonizava o show espacial, com a ajuda de um coro de figurantes esfumaçados que insistiam em transitar na sua frente. Na Terra o pré-carnaval da trupe beltrâmica rolava na beira da lagoa escura distante do abaeté, e próxima dos adolescentes embebedados por catuaba e pelo velho som eletrônico das antigas raves. Enquanto isso, na roda fervística, homenageávamos o mestre Caetano e suas transas revisitadas: pérolas históricas das canções populares eternizadas em nossos corações, vagabundos desde sempre.

Tamanha beleza só poderia ser contraposta pelos rostos derretidos dos meus amigos. Sem eles a viagem seria em vão e não passaria de uma mera egotrip por mares já navegados.

Na volta lá pelas cinco da matina, o choque abrupto com uma imensa muralha de realidade: nosso amigo e novo residente da casa havia tentado se matar de uma maneira pouco criativa. Com a cabeça cheia de boletas e biritas e com uma depressão aguda nas costas, Nardo se viu no fundo de um corredor de desesperanças, pronto para desistir. Felizmente seus amigos – quatro especificamente que ficaram na casa e mais um que também ficou na casa, mas que por motivos explicáveis não poderia ajudar muito – esses quatro anjos disfarçados de malucos promoveram o resgate de Nardo, com o auxílio de mais três números de telefone e um casal de enfermeiros buena onda.

Nos segundos anteriores às primeiras horas merecidas de sono, quando a cuca tenta compreender o incompreensível, realizando suas bilhões de conexões e cálculos matemáticos sem lógica aparente, talvez nesses breves segundos de lucidez em que a mente por fim para de mentir, refaço os traços da noite e acordo com um desenho de Dali sendo levado pelo vento do esquecimento. E antes que ele fuja pela janela, me esforço para prendê-lo nessa jaula de memórias proibidas, chamada crônica.

 

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Impressões Montanhosas

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Os últimos acordes estridentes do power trio invisível reverberam pelas montanhas, poucos minutos passados da meia-noite e para uma plateia encantada. Era o fim de um festival dominical que contou com a presença de uma série de artistas obstinados na criação de uma atmosfera amiga e unificadora, responsável pelos sorrisos contínuos de um dia dos pais atípico.

O cenário não poderia ser melhor: no pé da serra do mar, no portal dos sonhos possíveis, onde a natureza e o homem parecem provar que os dois podem conviver em harmonia, sem as distrações da cidade grande e com o sentimento mútuo de gratidão. Gratidão pelo lindo dia de sol e pela noite terna sem os costumeiros ventos gélidos do inverno paranaense. Gratidão pelas pessoas maravilhosas que por ali transitaram, tocaram, empolgaram e simplesmente existiram.

No palco das couves e das pedras, tivemos vulcões teatrais em erupção espontânea, chorinhos transmutados em roquinhos oitentistas, a voz marcante de Barretos acompanhada pelo tempero beltrâmico de sempre, os sons espaciais e transcendentais de um casal afinado com o universo, a eloquência e a malemolência dos garotos flamejantes, e por fim, o improviso psicodélico do trio já citado.

No café, tortas, bolos, pizzas e chapates artesanais, feitos com o carinho e a atenção necessária para transformar cada prato em uma experiência gastronômica com proporções astronômicas. Enquanto isso, na portaria, um maluco ex-cabeludo propicia minutos de puro prazer com seu brinquedo para todas as idades, um óculos capaz de teletransportar o sujeito para terras inusitadas. No bar, as cervejas trincavam.

Ainda em paralelo, aconteceram belas oficinas cheias de informações fundamentais para entendermos um pouco mais sobre essa tal América Latina, ou sobre como comermos de maneira saudável, sem precisarmos de animais ou fogões.

Poderia seguir citando as demais atrações, como as incríveis esculturas do artista tímido, ou o maravilhoso artesanato indígena local, ou ainda o charme do brechó com preços ainda mais charmosos. Poderia escrever linhas sobre o carimbó paraense que botou todo mundo pra dançar, poderia escrever muito mais, mas o fato é que fatalmente eu cairia no clichê de dizer que faltariam palavras para descrever a monstruosa satisfação de poder fazer parte dessa nova proposta cultural com potenciais inimagináveis.

Um abraço, daqueles cósmicos e atemporais, em cada alma presente neste dia. Esperamos poder repetir a dose, em uma outra ocasião, “circunstância, situação”, como diria o saudoso Júpiter. A montanha também pode ser um lugar do caralho.

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Cinema de Novidades

cinema

Um cinema cheio. Seres são franciscanos, travestidos com jaquetas desbotadas e camisas multicoloridas de brechó, invadiram o espaço destinado para a sétima arte. Na tela, uma imagem estática, uma capa branca minimalista com cara de bíblia, “O Novo Tentamento” e logo acima um olho maçônico, que vez ou outra pisca, causando um estranhamento ainda maior. Abaixo do título, um nome, oito letras. ESCAMBAU.

As luzes se apagam e o filme está prestes a começar. Filme? Que filme? Que nada, trata-se da primeira audição pública do novo disco da banda Escambau, de Giovanni Caruso, sua mulher e seus comparsas. Mas espere aí, o que é isso? Não vai ter show, não vai ter filminho, trailer e essas porras todas? Não, na tela permanecerá imóvel a capa do disco, com esse olho místico piscando e com os nomes das canções aparecendo no espaço branco.

No som, o que se ouve é uma verdadeira odisseia rock neo-apocalíptica, com toques de boleros e recheada com pura psicodelia. Uma viagem musical para ser sentida e apreciada em uma sala escura, silenciosa, com características que remetem a um espaço que costumamos chamar de cinema. Poderia ser em uma igreja, pegando carona nesse conceito bíblico criado pela banda, mas talvez isso afastasse os malucos de plantão.

Agora me diga, quando, você ou eu, ficaríamos 40 minutos parados apenas para ouvir um disco. Sei que isso devia rolar antigamente, na época de ouro dos vinis, você comprava o disco, ia pra casa dos amigos e mudos, escutavam atentos cada faixa da obra, sem intervalos ou distrações. Hoje, na época dos smartphones e das redes sociais assépticas, isso parece virtualmente impossível. Mas não é que os caras conseguiram?

Digo por mim, e talvez por outras pessoas que como eu, não sacaram seus iphones para checar as atualizações insignificantes do feicebuque. Ao contrário, ficamos lá, congelados e apenas movimentando as mãos para bater palmas no intervalo das canções. E que canções! Já conhecia os trabalhos anteriores dos caras, mas senti uma maturidade incrível nos arranjos, melodias, acabamentos e nas letras, transcendentes na maior parte das vezes, irônicas e satíricas em outros momentos, mais divertidas.

“O Novo Tentamento” é o equivalente ao “Construção” de Chico, ou ao “Pet Sounds”, dos Beach Boys. Marca uma mudança clara e um novo direcionamento no rock produzido no sul, que agora atinge o universo, as galáxias, para se perder em algum buraco negro por aí. Torço pra experiência se repetir, apesar de saber que poucos discos merecem tamanha atenção e espero seguir acompanhando essa curiosa evolução sonora do Escambau.

No cinema cheio, jovens viajantes do tempo derretiam seus cerebelos em uma espécie de cinema mudo às avessas: na tela, uma imagem parada, nos alto-falantes, pirações fonográficas amplificadas por símbolos sonoros e versos místicos ou bobos criados por roqueiros cansados dos velhos rótulos e das balelas radiofônicas dos últimos 20 anos.

Tentamento é ficar de fora dessa.

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Tropeços, Delírios e Alegria no Festival Multicolor

psicodalia-005São as primeiras horas dentro de um ônibus rumo a Rio Negrinho, em direção ao carnaval dos loucos. Roberto, meu amigo e parceiro de caminhadas espirituais, me acompanha e apesar de não conhecermos mais ninguém nas outras poltronas, nos sentimos em casa – uma casa flutuante que percorre estradas com a energia pulsante resultante de corações apaixonados por essa coisa que nos acostumamos a chamar de vida. Roberto, com certa dificuldade, abre a primeira garrafa de cachaça feita de cereais e de bolinhas escuras de alguma fruta cujo nome minha memória capenga é incapaz de recordar. Compartilhamos o copo e logo aparecem outros e assim, bebemos e conhecemos nossos colegas de viagem, por entre copos de vodka, suco de laranja, vinho barato e a cachaça de Roberto, presente do ex-sogro. No banheiro, os cigarros proibidos de sempre.

E sem maiores inconvenientes chegamos ao festival Psicodália. Descemos, pegamos nossas pulseiras e nossos cartões e voltamos para o busão que nos esperava no estacionamento com as nossas bagagens. Mas espere aí, onde está Roberto? Retorno ao portão de entrada e o vejo completamente alcoolizado, com sérias dificuldades motoras, cambaleando e abraçando hippies. Levo Roberto, aos trancos e barrancos, até o ônibus, pegamos nossas mochilas e barracas, mas meu amigo se mostra incapaz de carregar suas coisas até o camping, numa série de caídas e batidas nas laterais do ônibus. Deixamos nossas tralhas por ali e fomos caminhando lentamente até o suposto camping, porém na metade do caminho, Roberto cai estatelado sobre o gramado, nocauteado pela própria loucura e embriaguez. Deixo-o sozinho e parto por entre barracas desconhecidas e rostos estranhos, tentando encontrar Jorge, nosso amigo cabeludo pontagrossense e parceiro dessas transas.

Não o encontro e no caminho vejo as garotas curitibanas da excursão que decidem me acompanhar, solidárias com a situação que aos poucos adquire contornos bizarros e imprevistos. Voltamos para o ônibus e para onde nossas mochilas deveriam estar, mas nesse momento constatamos tristemente que elas haviam sumido. Por sorte, encontramos Guerreiro, apelido dado ao organizador da excursão, que nos devolve nossas tralhas, após um sermão necessário pelo transtorno causado.

As meninas me ajudam a levar nossas coisas e quando chegamos ao gramado, Roberto seguia em seu estado de semiconsciência, estirado na grama como um zumbi recém-baleado. Tentamos de várias maneiras despertá-lo e as únicas respostas que obtivemos vieram em sons monossilábicos arrastados. Fui até a ambulância do festival, atrás de uma dose de glicose que pudesse salvá-lo, mas, infelizmente, os enfermeiros de plantão não puderam nos ajudar.

Decidimos armar a barraca de Roberto ao seu lado e foi nesse instante que notei a ausência da minha barraca, que na realidade não me pertencia, era emprestada. Provavelmente ela fora extraviada durante o percurso, após passar por mãos estranhas e ter sido transportada por uma caminhonete de sei lá quem.

Depois de muito esforço, primeiro molhando o rosto de Roberto com água e depois o fazendo beber um pouco desse líquido sagrado, ele esboçou reações curativas, expelindo algum tipo de muco em forma de vômito. Porém, Roberto ainda estava longe de sarar e logo ele caiu novamente na grama e precisamos da ajuda de um terceiro elemento para carregá-lo até sua barraca. 

O festival multicolorido estava começando e eu já havia perdido minha barraca e até meu amigo, ao menos pelas próximas horas. Jorge e as amigas veganas Larissa e Mel, continuavam apenas no pensamento e eu não fazia a menor ideia de onde poderia encontrá-los.  

Seis horas após o incidente alcoólico, Roberto recuperou a consciência e insistia em dizer que não se lembrava de nada. “Apagão”, repetia ele. Teimava em querer saber como eu havia perdido minha barraca – uma história que precisei recontar dezenas de vezes para ele e para os demais interessados. 

E um texto é pouco para descrever tudo que rolou nesse festival. Teve cantor entrando no palco em um caixão, teve punk gaúcho ressurgindo das cinzas e cantando sobre uma canção inesperada, teve banda de velhos tocando velhos roques feitos no Brasil, teve psicodelia setentista de primeira, baiano reinventando a tropicália, um tal de Mestre Ouriço pra lá de doido, teve ciranda animada no palco do sol, instrumentista de peso mostrando suas safadezas no violão, teve festa de pirata com garotas nuas, teve Kombi hiponga dando canjas lisérgicas para os malucos de plantão, teve o Plá de Curitiba em show intimista com direito a violoncelo de acompanhamento, teve o som chapante das pedras brancas, teve a umbanda revisitada por músicos descolados, o velho baiano tocando o disco homônimo dos novos baianos ao lado de seu filho, teve big band tocando clássicos do jazz e do blues,  cantor e poeta nordestino retornando aos palcos com seu suingue único, teve o amigo das estradas, dos mitos e dos arrepios, cantando sobre o sertão e Santa Cruz de La Sierra, teve chapeleiros malucos, simpsons, bicicletas e quilos de ganja circulando livremente por toda parte, teve pastel de tofu, yakisoba, caldo de feijão e pizza vegetariana, teve paixões instantâneas por garotas gaúchas de vinte e poucos anos e de preferência do curso de letras, teve chopp classudo e oficinas intrigantes e chuva desabando e destruindo acampamentos.

E talvez o momento mais surreal e psicodélico no meio de tanta maluquice tenha sido a apresentação de uma banda tradicional alemã, no palco dos guerreiros, às quatro da matina, animando todos os presentes e fazendo-os lembrar da imigração, das raízes germânicas e das festas regadas a litros de cerveja.

Teve tudo isso e teve Roberto retornando pra casa mais cedo, com a amídala inflamada e os olhos tristes.

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Desafios, Pesos, Goles e o Escambau!

escambauO dia começou cedo, o frio e as tarefas pela manhã davam um pouco de medo, mas Gerson, que me fizera companhia no ponto de ônibus, não tinha esses receios. Estava indo descansar após seu turno como porteiro no condomínio grã-fino ao lado e, pasmem! Só estava de camiseta no meio daquele gelo tórrido de qualquer outono curitibano. Disse que desse mal ele raramente sofria, pois vinha de Guarapuava e lá a coisa era muito pior. Gerson também é bombeiro e saiu de sua cidade natal após a morte do pai, baleado em um assalto.

No hospital, o médico está atrasado. É feriado e, além de um porteiro de cara virada, roletas de entrada estáticas e pães de queijo cenográficos na lanchonete da frente, há também uma garota, que minutos depois, auxiliada pelo pai, recebe sua mãe, que está mancando.

Não tenho consulta marcada, porém preciso de uns papéis que o doutor me entrega cordialmente após breves conversas repetidas sobre Montes Claros, universidades, medidores de gordura e falta de estrutura no país dos pães e dos circos.

Do lado de fora, o frio diminui, o sol abraça e a farmácia a que decido ir está fechada. A outra, imponente e supostamente com o melhor preço da cidade, segue ativa como quase sempre, e lá, no paraíso dos hipocondríacos, gasto duzentos reais em medicamentos.

Saem os deveres e os medos, deixo as pequenas caixas coloridas com a mãe que precisa delas, enquanto mudam os temas das conversas ao telefone. Os prazeres do dia se aproximam, mas antes ainda preciso levar um forno elétrico, uma mochila e uma garrafa de vinho à casa dos amigos pelotenses.

No mercado cartelista do centro, encontro os outros, curitibanos, ou melhor, colombenses, mafrenses e valinhenses, e isso pouco importa, pois como dizem por aqui, quem fica na cidade, mais cedo ou mais tarde vira curitibano ou foge antes que isso se concretize. Compro a cerveja pro Johnny, mas volto para o restante do troco.

No sobrado novo, os amigos de sempre e uma ilustre companhia de idade avançada e de cabeça livre, agora em versão leve e solta, com a alegria e o olhar crítico de sempre e as histórias tropicalistas de um Rio efervescente. Na mesa, espetos de soja, pães de alho, maionese sem ovos e lasanhas com brócolis, outras verduras e massas também sem ovos. Nas mãos, copos de cerveja, uísque, vinho e de água sagrada. Fotos da família que a gente escolhe, fotos espontâneas para os feicebuques, discussões sobre os velhos temas, canções de um Dylan mexicano e silêncios profundos interrompidos por caras chatos. Nos intervalos, fumaça.

Mais jovens e embriagados de amizade e de tudo, seguimos para o shopping e para o bocket-show (não tem, depois do Caetano, quem sou eu pra chamar esse tipo de evento de maneira diferente) dos meninos do escambau na livraria das perdições e das contradições. O brother Davi comanda as câmeras enquanto um apresentador entusiasta da cena local nos lembra do Baixo São Francisco como sendo o lugar onde o novo e o diferente ainda predominam. E nesse universo, a banda que se prepara pra tocar é um dos destaques principais. Discurso bonito e verdadeiro, pelo menos na primeira parte. A segunda, veremos a seguir.

No palco improvisado em meio aos livros, jovens rapazes coloridos e antiquados, tocando instrumentos variados e enferrujados. E no meio dessa sujeira positiva, uma garota paraguaia, num visual que mistura duendes irlandeses, extintas aeromoças e não sei mais o quê, cujos olhos arregalados e hiperfocados fazem Valdir se lembrar da Laranja de Kubrick. De fato, a configuração estética do grupo lembra os inocentes mutantes e sua Rita, como o senhor bem comparou na sua pergunta sobre as influências da banda, se elas vinham somente desse período ou se também possuíam referências “mais modernas” como “Barão Vermelho, Skank e Cia.”. Mas sinto que a doçura vocal e a postura naïve daquela Rita de outrora foi substituída por um ar de contestação pela paraguaia em questão que, em seu canto e, principalmente em seu olhar, deixa transparecer uma brutalidade peculiar na idade, mas ausente em grande parte das cantoras de hoje em dia.

E se as influências da banda passeavam também entre o tango e o grande Chico, como o líder Caruso afirmou, não pude deixar de notar o tom político e liberal de algumas letras (“As fraudes no congresso / A rotina nas favelas / A visita do papa”, para citar apenas um trecho), contrastadas com a propaganda da livraria sobre um suposto lançamento de mais um livro do padre pop, Marcelo Rossi.

O show de bolso acaba com aplausos estridentes de uma plateia aparentemente careta, criada em shopping e alheia aos bares do tal Baixo São Francisco, mas ainda cativada pela postura da banda eclética e da performance autêntica da segunda vocalista do país ao lado.

Ajudo Davi com os equipamentos de câmera e novamente me vejo carregando peso, agora por entre vitrines e tantos outros estímulos desnecessários. No elevador cheio, o encontro com a banda de minutos atrás é ligeiro e me lembro do bebê morto que carrego na caixa preta. Caruso fica com saudade da sua terra ao conversar com a mãe de Flavinha, a mesma do almoço vegano e parceira da fumaça e dos papos tropicalistas. Afinal, Pelotas e Rio Grande possuem afinidades que nós curitibanos estamos longe de entender.

Ao chegarmos ao carro de Davi e Flavinha, outro desafio do dia – tirá-lo do estacionamento sem arranhões e mantendo os retrovisores, e sem nenhum ato de vandalismo contra o carro do dono ou da dona que, por algum motivo ignorante, trancou a saída rápida do famoso “Bilbo”. Pois é, também acho estranha essa coisa de dar nome a objetos inanimados, mas o carro é deles, eles são gaúchos e fazem o que querem com seus mimos.

E depois dessa saga com final feliz, sem arranhões e passando a milímetros das vigas triangulares, e como não poderia faltar à nossa ilustre visita da melhor idade, chegamos ao bar dos barbudos de sempre, mas que nessa noite, em especial, estava de algum modo, diferente. Recebo mensagens de texto do amigo espiritual que mora em São Paulo, mas que, por causa do feriado, está na cidade. Suspeito que o mesmo aparecerá no local e sua atitude dudeísta não me deixa precisar quando isso de fato acontecerá.

Os pacaias enchem as bocas dos amigos e das amigas, depois dos feijões baianos com bananas de pacotinho saciarem a fome de Sakura, mostrando-nos que sim, há uma outra opção além dos pacaias e das rústicas batatas para aqueles que, por algum motivo, deixaram o sangue de lado.

A noite é encurtada para a pessoa que lhes escreve após uma mensagem de texto, não do amigo antigo que ainda não havia aparecido, mas da mulher de coração, que me pede um medicamento em caráter de urgência. Saio com Johnny até a farmácia, compro a parada e fico no quarto táxi, finalmente livre, que me leva até a casa encantada, mas que nessa noite, em especial, estava sofrendo alguns ataques. Nada que alguns químicos e uma dose favorecida de fé não possam reverter.

Ainda me readaptando à nova cena me dou conta dos setenta reais no porta moedas peruano de que já havia sentido falta ao entrar naquele quarto táxi. Mas que louco sai de casa com setenta reais no bolso? Bem, e se eu disser que cinquenta nem eram meus?

Termino esse conto de doido sem a pretensão de alguma conclusão lógica e citando o rei das titias e dos jovens descolados, misteriosamente esculpido na assadeira do amigo pelotense: “Não há dinheiro no mundo que me pague a saudade” que, nesse caso, eu sentirei de você, Mamãe. Desta vez, os químicos e as preces funcionaram, os ataques cessaram e é hora de dormir, sem os pesos do dia.

 

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Noite de quarta. Aniversário de improviso do jovem Paul, pizzas do tio, coca-cola, presentes atrasados, desenhos de Bob, pizza doce presente do tio, histórias de família, risadas, improvisos na gaita curta e no violão mexicano desafinado do rapaz dos dedos largos, o preto sai e entra o rosa.

Noite de quinta. Alpargatas na tempestade do equinócio de outono, críticas ao teatro, espanhol falsificado bêbado chato quebrando copos, Johnny e Brian pisando nos cacos, papos desconexos, universitários dos cursos de sempre, loira alta e magra buscando a festa pós-esquenta e o namorado inteligente do curso pseudocabeça que lembre seu pai ausente, cara descobrindo mais uma utilidade pros pelos de sua vasta barba, garoto bêbado rebelde estacionando o carro do pai sem cuidado, porta abrindo e raspando na calçada de pedras, namorada ruiva de pato branco, dono insistindo na piada, Johnny e Brian insistindo na cerveja e nos cigarros na chuva.

Noite de sexta. Reencontro de velhos amigos cada vez mais velhos, cervejas no mercado, voltas na quadra, novas companhias, papos entrecortados, deus e o diabo tentando unir os dois grandes tesouros da humanidade, pouca humildade na apresentação do artista tardio, novos projetos, mais rostos conhecidos, senhor de idade distante das drogas pesadas e parceiro para voltas na quadra, casal de amigos de passagem, o marido fica, casal de marceneiros legais, Curitiba é melhor que Joinville, cachorro quente sem vina e sem espera, mercado pré-balada, meninas de saia, garotos estranhando o cigarro do cara, taxi pra casa.

Sábado à tarde. Festival na praça importada, céu azul, sol, carro torto e aberto na rua escondida, espaço gourmet, micro-fatias de pizzas superfaturadas, sopas e caldos com costela de Adão, família reunida, óculos escuros do cantor cego, banda olímpica tocando rock, cachorros se pegando, criança hell angels apavorando na moto de brinquedo, ala dos shortinhos e das pernas das revistas, meninas com os mesmos narizes, playboys de plantão, promoções irreais, história da arte na casa do professor, chute sem querer no namorado sem nome, culpa do game do Michael.

Noite de Sábado. Volta na quadra com o reconhecido e seus conhecidos, racionalizando Tim Maia e os novos rappers, menina corrigindo a baliza e deixando a menina da rua envergonhada, amigos de volta na praça, Paul, Wilde e Brian atingem o estrelato, xépes citrus, Yoko de chapéu da moda querendo dançar, despedidas, Straits e seu dinheiro pra nada, Floyd e a música da torcida, casal e amigo buscando sanduíches na nova barba, mau humor, pratos americanos com o ketchup do filme, hambúrgueres de batata e de grão de bico, joguinho da verdade, carro pra casa da mãe, medicações necessárias, esposa descansa, parceiros em busca de barbudos, cigarros e as cervejas de sempre, ex-vizinha leitora com o novo namorado, discussões pequenas sobre língua portuguesa e o uso da crase, grandes discussões sobre amizades e o uso do tato, alguma compreensão e muito sentimento, cigarro na lateral do bar, portas fechadas, propostas de banda, mesas e cadeiras amontoadas, mais cervejas, mais um cigarro, dois ingressos pra festa dos gringos faltando um, velha rua com luzes novas, gente amontoada na cerca dos fumantes, desconto negado, disque jóquei interessante, menina e mulher afim do mesmo garoto, drink em copo de plástico, Brian cansado e querendo partir, fila pra pagar imensa, samba pro gaúcho, professora de maracatu, gases fedidos, francesas que falam português, gaúcho falando portunhol, italianos conversando com o garoto dos vinis, sonhos de artista, táxis demorados, garoto e mulher encontram a paixão nas últimas horas da madrugada, gaúcho espera sozinho e sem créditos em seu celular.

Noite de Domingo. Festival de novas bandas no bar da adolescência, sai a vodka barata e entra o rock com água, Cream e os blues caseiros surpreendem, baixista sério, platéia de amigos, a nova banda mais fofa da cidade, adolescentes cantam e se abraçam, banheiro, conhecido da próxima banda, produtor viajando, xixi, cigarro, cachorro quente sem cartão, ando meio desligado no palco, platéia semi-vazia, amigos no camarote, canções e letras de qualidade, saxofone especial, balanço legal, o eterno romance de Paul, rosto limpo e piadas verticais entre os silêncios, dançarinos imaginários, casal de amantes bebendo água, dores de ouvido, a viagem no palco, compromissos importantes, breves desabafos, parabéns ao amigo pelo filho que ainda vai nascer, desculpas públicas pela saída francesa, escada, rua, carro, casa da mãe, medicamentos necessários, textos compridos demais imitando alguém, quem os lê, talvez gravando fique melhor, o sono também deixa bêbado, chocolate na madrugada, banho, cama, carência, insônia, revisão de prioridades, revisão mental do texto, insônia, o peso nas costas, abraços, insônia, mãos dadas, sonhos de um bêbado sem iluminação.