Dicas Musicais, pseudojornalismo

Charme Chulo no Teatro das Pólvoras

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Foto: Arnaldo Belotto

Vinícius e Toquinho abriram as portas daquele lugar. A pólvora histórica virou poesia e dali em frente a arte reinou na praça do famoso pintor. Décadas se passaram, poderes e governos ainda mais corruptos foram destituídos, e hoje o Teatro Paiol foi palco de um show de rock estranho: meio caipira, meio jacu, meio curitiboca, meio Smiths, meio ska, meio batidão, meio axé e até meio zumbi.

Depois do hiato presente em noventa por cento das bandas do século 21, os caras renasceram mais feios do que nunca, com sangue de pinhão escorrendo pelos cantos das bocas secas e cheios de rachaduras e cicatrizes oriundas do ofício de se fazer rock no país do samba e da bossa. Voltaram mais fortes, reinventando pela quarta vez a moda caipira de Irati ou sei lá de onde.

Crucificados pelo sistema bruto (nome do último pão), os charmosos fazem parte daquele grupo de bandas talentosas e inventivas (sem perderem o apelo comercial) mas, que por algum motivo desconhecido, permanecem na cena alternativinha da galera da Trajano. O sistema bruto, que parece escolher os queridinhos da vez, continua fazendo suas vítimas e não há muito o que fazer para mudar esse quadro, que a cada ano enferruja ainda mais.

Quem sabe algumas listas de melhores do ano possam reparar esse estrago.

No palco do Paiol, o que vejo é um som de primeira, letras pegajosas recheadas de poesia pós-moderna (seja lá o que isso possa significar), direcionadas para uma plateia heterogênea, louquinha pra sair pulando e seguindo o trenzinho da alegria, turbinada por litros de cachaça da serra e vinhos de mesa.

Impossível não se sensibilizar com a viola sateriana do Leandro ou com a performance do xará: suas nuances vocais, suas palmas ferozes, suas danças zumbis e seu olhar em contato direto com seu peito, cheio de amor pra dar. Piegas é ter medo de falar desses lances.

A cidade grande assusta, com seus “playboys com seus carros na Batel”, seus motéis, seus políticos, seus pastores e suas mentiras. Aos poucos, ela “aniquila sua cabeça”, te “engolindo” e pedindo um “êxodo urbano”, afinal, “às vezes, melhor é morar na fazenda”.

No mato, na praia ou no campo, a vida é mais simples, não existem produtoras, agentes pentelhos ou fãs mal-intencionados. Poderia seguir falando dessas coisas bacanas, mas o pessoal do The Band já fez isso no documentário do Scorcese.

“Hoje o rock anda frouxo demais”, e a consequência maior da gente “escolher viver de sonho” é aquela que você cantou hoje “Sou imortal e não tenho onde cair morto”. Se depender da vaquinha virtual, continuará existindo alguma luz no fim desse túnel construído de sangue e palha, chamado rock nacional.

Só posso pedir a Deus, em tom de jagunço, que abençoe esses meninos brilhantes, pois nem Jesus foi capaz de uma segunda ressurreição.

** clique aqui para baixar o disco duplo dos caras **

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[pace is the essence] Podcast #12: On the road (Parte 1)

arte_ontheroad01 blogPrimeira parte do programa dedicado as viagens e ao ato de colocar o pé na estrada. Canções sobre o tema, curiosidades e dicas de viagens fazem parte deste podcast, agora também transmitido pela Rádio Gralha, 106,1 mhz, aos sábados, 20h. Aproveite e tenha uma boa viagem!

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Primeira parte do programa dedicado as viagens e ao ato de colocar o pé na estrada. Canções sobre o tema, curiosidades e dicas de viagens fazem parte deste podcast, agora também transmitido pela Rádio Gralha, 106,1 mhz, aos sábados, 20h. Aproveite e tenha uma boa viagem!

contos, pseudojornalismo

Cinema de Novidades

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Um cinema cheio. Seres são franciscanos, travestidos com jaquetas desbotadas e camisas multicoloridas de brechó, invadiram o espaço destinado para a sétima arte. Na tela, uma imagem estática, uma capa branca minimalista com cara de bíblia, “O Novo Tentamento” e logo acima um olho maçônico, que vez ou outra pisca, causando um estranhamento ainda maior. Abaixo do título, um nome, oito letras. ESCAMBAU.

As luzes se apagam e o filme está prestes a começar. Filme? Que filme? Que nada, trata-se da primeira audição pública do novo disco da banda Escambau, de Giovanni Caruso, sua mulher e seus comparsas. Mas espere aí, o que é isso? Não vai ter show, não vai ter filminho, trailer e essas porras todas? Não, na tela permanecerá imóvel a capa do disco, com esse olho místico piscando e com os nomes das canções aparecendo no espaço branco.

No som, o que se ouve é uma verdadeira odisseia rock neo-apocalíptica, com toques de boleros e recheada com pura psicodelia. Uma viagem musical para ser sentida e apreciada em uma sala escura, silenciosa, com características que remetem a um espaço que costumamos chamar de cinema. Poderia ser em uma igreja, pegando carona nesse conceito bíblico criado pela banda, mas talvez isso afastasse os malucos de plantão.

Agora me diga, quando, você ou eu, ficaríamos 40 minutos parados apenas para ouvir um disco. Sei que isso devia rolar antigamente, na época de ouro dos vinis, você comprava o disco, ia pra casa dos amigos e mudos, escutavam atentos cada faixa da obra, sem intervalos ou distrações. Hoje, na época dos smartphones e das redes sociais assépticas, isso parece virtualmente impossível. Mas não é que os caras conseguiram?

Digo por mim, e talvez por outras pessoas que como eu, não sacaram seus iphones para checar as atualizações insignificantes do feicebuque. Ao contrário, ficamos lá, congelados e apenas movimentando as mãos para bater palmas no intervalo das canções. E que canções! Já conhecia os trabalhos anteriores dos caras, mas senti uma maturidade incrível nos arranjos, melodias, acabamentos e nas letras, transcendentes na maior parte das vezes, irônicas e satíricas em outros momentos, mais divertidas.

“O Novo Tentamento” é o equivalente ao “Construção” de Chico, ou ao “Pet Sounds”, dos Beach Boys. Marca uma mudança clara e um novo direcionamento no rock produzido no sul, que agora atinge o universo, as galáxias, para se perder em algum buraco negro por aí. Torço pra experiência se repetir, apesar de saber que poucos discos merecem tamanha atenção e espero seguir acompanhando essa curiosa evolução sonora do Escambau.

No cinema cheio, jovens viajantes do tempo derretiam seus cerebelos em uma espécie de cinema mudo às avessas: na tela, uma imagem parada, nos alto-falantes, pirações fonográficas amplificadas por símbolos sonoros e versos místicos ou bobos criados por roqueiros cansados dos velhos rótulos e das balelas radiofônicas dos últimos 20 anos.

Tentamento é ficar de fora dessa.

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Casas Abertas e A Nova Contracultura

sarau02Cansados das festas particulares, dos grupos fechados e das ideias caretas de sempre, jovens de espírito livre vêm fomentando uma série de intervenções, festivais, rádios livres, encontros e festas em casas abertas, sem as chatices e mesmices do mercado coorporativo, onde marcas de cerveja e de celulares dominam o setor baladeiro, em megaeventos recheados de estrelas pop, bebidas caras, comerciais de TV e ingressos exorbitantes. Em paralelo, esses mesmos jovens promovem a democratização do conhecimento e da cultura, pregando a liberdade de expressão, a política da boa vizinhança, o consumo de alimentos naturais (e muitas vezes, vegetariano) e a evolução espiritual individual, sem obscurantismos, regras ou rituais pré-estabelecidos e com uma horizontalidade de poderes, onde ninguém é mais importante que ninguém e todos têm algo para aprender, para ensinar, e principalmente, compartilhar.

O conceito de casas abertas, crescente na comunidade curitibana, segue justamente essas linhas. Já tive a oportunidade de conhecer três casas diferentes, mas com propostas semelhantes. Normalmente em uma casa, três ou mais jovens dividem as despesas domésticas e juntos promovem uma série de atividades e oficinas no mesmo espaço, além das costumeiras festas igualmente abertas, regadas de arte, performances teatrais e música de qualidade e independente. Às vezes, paga-se uma entrada, que não costuma passar dos cinco reais, enquanto bebidas e comidas naturebas são vendidas separadamente, a preços justos.

Nas oficinas, em geral gratuitas, as pessoas aprendem técnicas de pintura, fotografia, música, culinária vegana e até malabares, além das práticas coletivas de meditação, yoga e o que mais a imaginação permitir.

Muitos desses grupos têm nomes próprios, os chamados “coletivos”, comumente formados por artistas, estudantes e profissionais liberais da área da saúde, ou ainda da medicina complementar. Jovens com tendências políticas anárquicas e/ou socialistas, no melhor sentido que esses termos possam ter.

O sistema vigente não mudará, o capitalismo continuará fazendo suas vítimas, os meios de comunicação em massa e os políticos continuarão corruptos até os ossos, a educação seguirá precária, porém há sim algo para se fazer. E essas comunidades (muitas, já autossustentáveis), essas casas abertas, formadas por cabeças jovens, cansadas de receberem ordens, cansadas de terem que dançar uma música não escolhida, cansadas dos mesmos canais de comunicação, dos mesmos líderes decadentes e das mesmas opções nos cardápios, cada vez mais caros, enfim, essas comunidades abertas parecem apontar a direção que deveríamos seguir.

De algum modo estranho, os protestos do ano passado seguem ecoando e as mudanças estão ocorrendo em doses homeopáticas, em corredores invisíveis e sem líderes ou partidos. Essas mudanças partem de seres humildes e com ideais libertadores, cheios de luz e força de vontade para criarem uma nova ordem, positiva e humana, com valores reais e sonhos coletivos possíveis. Os sonhos são coletivos, mas o trabalho será sempre individual e livre, respeitando as limitações de cada ser humano, e sem as classificações ilusórias de acordo com aparências. Os hippies estão de volta e estão mais conscientes do que nunca. A nova era, profetizada nos anos 80 pode estar sendo construída debaixo dos nossos olhos.