contos, Uncategorized

O Sonho Mais Impressionante de Toda a Minha Vida

pace_culto

Caí da cama cedo, como raramente faço, após sonhar o sonho mais impressionante de toda a minha vida. Quando abri os olhos pela primeira vez senti vontade de dormir mais, sentia que era demasiado cedo para despertar, mas o sonho tinha sido louco demais para eu esquecê-lo assim, numa provável substituição por algum novo sonho fabricado por esse laboratório infinito e amoral chamado inconsciente.

É claro que não vou lembrar exatamente como esse sonho começou. Me recordo que nos primeiros instantes minha primeira namorada havia reaparecido e esboçava um evidente interesse em mim, após divorciar-se de seu marido, com quem tivera dois filhos. E foi essa imagem simbólica daquele primeiro amor inocente e completo que fez eu ter esperanças naquele universo onde as memórias se misturam e seguem criando novas histórias, muito mais interessantes do que essas que costumamos viver no dia-a-dia.  

O cenário assustava. Por algum motivo que eu também não vou conseguir lembrar agora, fui obrigado a participar de uma bizarra seita, onde eu parecia ser o único ser consciente do tamanho do absurdo que aquilo representava. Vivíamos em um templo majestoso, um palácio de dimensões medievais e com centenas de quartos. Suspeitei que além dos comprimidos oferecidos diariamente como se fossem alguma benção milagrosa, eles também estavam botando algum tipo de droga na nossa comida, manipulando nossas mentes para acreditar que tudo aquilo era pro bem ou qualquer outra merda do gênero.

Lembro de dois momentos em que tentei alertar pessoas de fora da seita, amigos que não vejo faz tempo, mas que em meus sonhos costumam ser personagens recorrentes. Havia um trem e um dos comissários era um dos cabeças desse clã do djanho, avisei Joana e tentei fugir, mas o cara foi mais rápido e em segundos eu estava novamente lá, naquele maldito palácio de ilusões. Nas reuniões matinais, para a introdução de novos membros e outras baboseiras típicas dessa gente, eu olhava para todos os cantos daquele imenso salão à procura da minha primeira namoradinha, sempre achando que quando a encontrasse todo aquele pesadelo acabaria em final feliz.

O engraçado foi encontrar não ela, mas uma outra menina de uma época ainda mais antiga, dos tempos de colégio e de quando eu pirava numa garotinha loira e cheia de malandragem pra idade em que eu ainda era bem tímido e não passava de um completo nerd mimado cheio de espinhas. Reencontrei essa pessoa algumas vezes, sempre pela noite, em alguma festa ou bar da cidade. No sonho ela pegou na minha mão, me levou para um quarto, tiramos a roupa e ela me disse no pé do ouvido: “Pode gozar, mas apenas uma vez.“

E assim o sonho seguiu seu rumo obscuro pelos caminhos da memória afetiva ou qualquer outro nome que os psicólogos querem dar. Em outro lapso de tempo, eu estava na frente da primeira casa que morei, local onde nasci e cresci até os 21 anos, quando finalmente eu decidi começar outra história, sem meus pais por perto. Reparei que havia colchões com texturas estranhas colocados na garagem e num sinal de que alguém estivesse se mudando para lá. Não entendia o que estava acontecendo, mas a curiosidade somada com um sentimento de alegria plena apenas por estar ali novamente, na casa onde eu cresci, e ainda com uma ínfima possibilidade de rever meus pais juntos, todo aquele retrato de uma infância feliz e que ficou pra trás, tudo aquilo me fez chorar de emoção! Adentrei o saudoso lar e ao invés de encontrar meus pais como gostaria, vi primeiro o marido da minha prima da Bahia, ajeitando a mesa e em seguida essa mesma prima vem e me abraça. Senti uma tristeza enorme no peito, como se aquilo fosse alguma representação da morte dos meus pais. De fato eu estava mesmo navegando em mares escuros de algum pesadelo da mente, mas o bacana era que em muitos momentos eu sabia que aquilo não era realidade, no máximo algum episódio estilo Black Mirror no qual a minha vida teria inspirado roteiristas endiabrados, capazes de provocar um tremendo mindfuck para o único espectador presente na plateia, euzinho, ou como descrito por famosos psicanalistas, o sonho foi lúcido.

Logo retornei para aquele cenário pseudo religioso e agora meus amigos atuais, Henrique e Anderson eram os novos membros da seita. Ao contrário de mim, eles pareciam contentes em fazer parte daquela palhaçada, me diziam que haviam encontrado um sentido pra vida e que estavam adorando a rotina e as brincadeiras perpetuadas ali.

No final, quando pensei que tinha conseguido me livrar daqueles malucos, caminhei pela rua XV e vi pelo menos outros quarenta grupos coloridos e que repetiam frases clássicas “Deus é Amor“ ou “Venha com a gente e garanta seu lugar no paraíso“. Cada seita tinha uma cor predominante em seu figurino e sorrisos emoldurados em todos seus fiéis, num lance meio hare krishna que já vemos por aí. Fiquei apavorado com aquela percepção de que o mundo havia sido tomado por gananciosos líderes religiosos e que as pessoas estavam mesmo comprando aquelas ideias estúpidas.

Minha última recordação foi um breve diálogo com algum outro amigo. Falávamos sobre Deus e de como cada ser possui um Deus dentro de si, mas que era justamente ali que morava o perigo. Afinal, se podemos criar o que quisermos, também podemos criar seitas com o intuito de provarmos nosso poder, apenas como forma de divertimento pessoal.

E como leremos no início da nossa série favorita, qualquer relação com personagens da vida real será sempre mais uma coincidência.  

Anúncios
contos, Uncategorized

Novo Velho Amor, Me Tire Dessa Rima Fácil

pace_amor“Não, você nunca conseguirá tornar algo novo, de novo.” O refrão da canção da fita demo de M. Ward chama minha atenção. Definitivamente esse pensamento permeia minha mente nas últimas semanas e os motivos são tantos que eu nem perderia meu tempo descrevendo cada um deles. Os envolvidos saberão. Em seguida, os grandes nadadores de lagos cantam sobre escavações em busca de luz em poços escuros ou sobre seguir procurando sussurros no meio dos berros. Yoko vem para me lembrar em seu mantra que eu sou um mar de bondade e um mar de amor, ainda que ultimamente esses mares tenham provocado uma série de ressacas indesejáveis.

Sinto o coração enfraquecer, mas não é como daquela vez que precisei ser fisicamente operado e ter percebido depois que o ritual teria sido em grande parte, espiritual. É algo diferente, uma sensação estranha que faz a gente lembrar daquele imenso buraco dentro do nosso peito, e que precisa ser preenchido por fumaça, como naquela letra do Wilco.

Na cabeça, essa metralhadora de ideias e enganações, os caminhos parecem múltiplos. Porém sinto que dessa vez preciso, de uma vez por todas, confiar em meus instintos, ou apenas me entregar ao oceano de probabilidades impostas pelo universo. Meus miolos cansaram da guerra civil que estavam provocando, precisam de uma bandeira branca que indique a direção. E por favor, não estou falando de novas ideologias, seitas orientais ou apenas um novo guru. Quero falar de coisas reais, pois “mudá-las me interessa mais”, já diria o bigodudo divino.

O mundo mudou, muitas pessoas não se contentam mais com um “relacionamento sério”, ou qualquer outra coisa que isso possa querer dizer, elas querem gritar “somos livres”, ou algo como “não seja tão careta, venha para o poliamor”. Acho realmente lindo que muita gente esteja pensando assim, e confesso que adoro estar nesse tipo de situação, sem envolvimento emocional e sem as nóias de qualquer relacionamento. Mas preciso expressar minha profunda incapacidade de lidar com isso em momentos onde a razão parece alcançar distâncias lunares, e me sinto novamente como aquele adolescente da escola, escrevendo cartas de amor e tentando aos trancos, trazer aquele tal amor de volta, mesmo que seu retorno não represente garantia de paz alguma, afinal, o amor é cego e costuma provocar feridas.

É por isso que amar é brega pra caralho. É filme americano piegas, é novela mexicana e é teatro pro povão. Não importa o quanto queremos afastar esse sentimento chinfrim, ou o quanto nos aproximamos do chamado “amor livre”, um belo dia você acorda e percebe que novamente foi mordido por ele. Atordoado, febril e demente, você tenta fugir, inventar desculpas, dizer pra si mesmo que dessa vez será diferente. No fundo, sinto que as chances disso acontecer são praticamente nulas, pelo menos no atual ponto em que me encontro, e depois de diversas ilusões amorosas e histórias inconclusivas que me fazem seguir amando pessoas do passado, ainda que em menor intensidade.

Posso tentar, mas tem certas coisas que são difíceis de negar, a flecha atravessou meu corpo capenga pela décima vez, provocando sequelas nos “artificiosos brejos da alma”, e o que vai sair disso tudo, só o universo sabe. Lições serão sempre bem vindas, mas quero saber mesmo quando poderei finalmente descansar esse coraçãozinho remendado, e poder focar em outros aspectos reais da vida.

“O amor verdadeiro te encontrará no final”, cantou o Daniel dos demônios, e é com esse sentimento que pretendo conviver o tal peso da existência, ou ao menos essa breve passagem em um planeta aleatório, cheio de contradições, destruições, anomalias e falsa moralidade. Quero ser um, como no discurso de Lynch, para assim, me sentir ainda mais perto de todos os amores que o acaso me deu. Quero ser um, para parar com essa mania de querer uma pessoa só. Quero ser um para que todos sejam meus e eu seja de todos. Quero ser o tipo de brega daquela música tribalista sobre saber namorar, e não o brega das milhões de canções sobre corações despedaçados. Prometo continuar amando seus versos e suas rimas engraçadas de amor, afinal, esse foi o combustível de infinitas fossas.

E enquanto esse amor sublime e universal não vem, seguirei contente com pelo menos um amor verdadeiro, sem rótulos ou grandes amarrações. Só não me deixe com esse silêncio brutal e descompassado com o tamanho do amor que sinto. Mensagens fabricadas não serão suficientes.

E que a paciência seja sempre a minha melhor amiga.

Em tempo, ontem Leonard Cohen partiu. Tenho certeza que esse era um cara que entendia bem desses assuntos.

    

contos

Sobre as Coisinhas da Noite de Ontem

casbah“Se a felicidade está nas pequenas coisas, eu lhe desejo um monte de coisinhas”, dizia o bilhete poético fosforescente do artista de rua, que pediu licença no instante em que Laura cuspia algum pensamento sobre a arte… De rua. Havia lido outros poemas coloridos, mas por algum motivo cósmico-sideral esse fez mais sentido. As coisinhas, essas viriam depois.

Estávamos na mesa do lado de fora, no bar clashiano de outras historietas,  surpreendendo-nos com algumas coisinhas também: o trio punk tocando Bowie, Ramones, os psicopatas assassinos e mais Clash, para alegria de Laura; a posterior vitrola televisiva mandando um doolittle – o disco envenenado dos pixielados. O jazz no harvest já havia acabado, o show no lado B também, e nos restavam os minutos mágicos antecedentes da sexta feira 13, na companhia de outros seres benevolentes de mais uma noite de semana no baixo São Francisco; onde a alegria anda restrita a caixa de sapato cheia de surpresinhas e garotas legais, e os bares de rua fecham cada vez mais cedo. Sinais da crise boêmia, infinitamente mais aterrorizante que a da TV (é claro, falo por nós, vagabundos).

Antes eu e Mrs. Grieves já havíamos dado nossos rolês e visto várias coisinhas bacanas, desde as gravuras premiadas no museu do escritor e neto do grande pintor, passando pelos canapés, as mini-empadas e os frisantes regalados, e chegando aos dedos escuros do amigo artesão que trocou o anel de arames por um abraço apertado de Mrs. G. Olhando fixamente para seus dedos, quase pretos, provocados pelo vício inerente pelos quase famosos tabacos bolados; olhando para aqueles dedos me senti tranquilo e com menos medo, já que tenho apenas o polegar e o indicador direito que apresentam manchas amareladas do consumo dessa planta, demonizada em ambientes diurnos e endeusada nas madrugadas arrastadas, no cerne do presente pós-apocalíptico zumbi da cidade que cresce e padece.

Na vila dos hippies, onde horas atrás a menina berrou as canções clássicas da história do punk brasileiro, acompanhada de amigas e parceiras que dançavam e trocavam ideias tatuadas na espontaneidade da calçada; a mesma calçada que abrigava a senhora do cabelo oxigenado e seu cachorro que, segundo Laura, estava todo pesteado, com a barriga cheia de vermes e o pelo servindo de palco para um carnaval de pulgas e outras coisinhas que ainda não conseguimos identificar. Porém, não poderia esquecer os gestos de carinho e parceria desses dois seres da noite, que não incomodavam ninguém e ainda surrupiavam sorrisos pueris provocados pela natureza e pelo amor entre os humanos e os animais.  Coisinhas bonitinhas que continuam vivas e se repetindo por aí.

E todas essas presepadinhas e coisinhas que estou relatando enquanto escuto as meninas do Warpaint só aconteceram porque o jardim das Américas das bananas estava fechado para visitas inoportunas de vagabundos vampiros em busca do conforto dos sofás restaurados da casa dos papais.

Laura se despediu após cruzarmos com o irmão gente fina de Mrs. Grieves. Seguimos a jornada estapafúrdia, agora atrás de algum rango sem mortes. Encontramos bem ali no ponto de encontro das matinês dos adolescentes suburbanos vestidos de preto, bem em frente da boate das drags.

No fim, terminamos no hotel decadente das transas fugazes, recheado de coisinhas asquerosas, lençóis mal lavados, cobertores desconfortáveis, chuveiros sem água quente e cortinas melecadas com milhões de mosquitos baladeiros que impossibilitaram qualquer forma de descanso e sossego, com seus zumbidos irritantes e suas picadas intermináveis. Ao fundo, ainda se escutava os estrondos eletrônicos da boate dos gatos, alternados pelos berros dos travestis e de outras damas da noite. Ainda não consigo acreditar que os filhos da puta, donos daquela espelunca, possam ter a coragem de cobrar oitenta mangos para uma diversão perigosa de poucas dezenas de minutos, e um inferno de longas horas com os tais cobertores piniquentos e os malditos mosquitos que não deveriam ser respeitados nem pelos mais bondosos veganos desse planeta.

Mas claro, isso poderia ser bem pior. A parceria existiu e é bom poder compartilhar coisinhas como essas com a pessoa do lado.

Poeta das ruas, gratidão pelo conselho dado. Também desejo um monte de coisinhas pra você.

contos

Borbulhas e Memórias de Uma Noite Sem Lembranças

girlin bedAcordei ao lado dela. Seu corpo cheio de roupa dormia como uma pedra. Senti o frio nas suas costas e pensei que talvez ela estivesse morta – suicídio acidental à moda das estrelas de rock. Mas seu rosto estava quente e quando o toquei, a bela despertou. Despertou em ritmo frenético e com uma amnésia recente, esquecendo-se das traquinagens da noite anterior. Culpa dos baldes de um frisante barato, Salton Mello, queridinho das vernissages independentes, sem o patrocínio e sem o glamour asséptico dos eventos cheios de grana.

Eu a acompanhei no porre, mas minha consciência capricorniana não me deixou esquecer nada. Lembrei-a de cada detalhe: das risadas homoafetivas, dos tapas na bunda, das conversas libertinas sobre sexo anal, do celular e dos brincos novos jogados no meio da rua, do seu corpo estirado na calçada, das suas corridas repentinas pelas faixas brancas, e da sua capotada no meio da minha cama. Sem dança.

Você riu de cada lembrança, justamente por não se lembrar de nada. Disse que já bebeu muito mais e não tinha ficado assim. Lembrei da garrafa de vinho, bebida em estilo solo, numa outra madrugada pós-artística. Você disse que o cansaço a deixou assim, inconsciente, voltando a ser criança. Eu acredito, acredito em quase tudo que saia de seus lindos lábios. E que bom que eu estava ao seu lado, tipo um anjo bêbado, cuidando para que você chegasse a casa sã e salva.

Hoje o dia será difícil, as dezenas de taças daquele frisante barato ainda borbulharão em nossos estômagos, trabalharemos em modo silencioso-quase-parando e, quem sabe, você também experenciará flashbacks das loucuras da noite anterior. Tudo bem, meu bem, afinal a vida sem ser vivida não tem a menor graça. Os bêbados que o digam.

filmes

FEBRE DO RATO OU HELLCIFE PELOS OLHOS DE UM POETA

febredorato“Quem disse que poesia não embala, quem disse que poesia não embriaga,…” Os versos declamados pelo poeta do filme, o personagem Zizo, ilustram um pouco do universo caótico, libertário e anarquista do próprio diretor do filme, o “poeta audiovisual” Claudio Assis.

Após caminhar por estradas tortas e becos obscuros, alcançando resultados brilhantes (vide Amarelo Manga e Baixio das Bestas), Claudio Assis chega ao seu terceiro longa com a lucidez só encontrada nos loucos, transmutando a poesia esquecida das ruas e  colocando-a na tela do cinema: viva, intensa, sincera e multifacetada, como ela sempre foi.

Recife ou Hellcife, serve como cenário para um verdadeiro pandemônio, um cenário que é impossível dissociar dos personagens ou da própria história contada. “Esse filme não tem história”, diz uma personagem em relação ao filme a que estão assistindo e numa metalinguagem, ao próprio filme de Claudio Assis. O poeta Zizo, uma espécie de alter ego do diretor, responde: “Esse filme é sobre a minha vida, a história você vai criando na sua cabeça”.

E não é uma só, já que temos as brigas de amor do “paizinho” e sua esposa travesti, e temos a história de Zizo, e sua luta para, através da sua mídia livre, o jornal “Febre do Rato”, conseguir mudar o sistema vigente, que oprime e deixa as pessoas sem a capacidade de “espernear” contra as coisas erradas que acontecem por aí.

A história de Zizo culmina quando ele e seus amigos de bairro resolvem protestar em pleno 7 de setembro, afinal “Até a Anarquia precisa de tradição!”, em uma cena que me lembrou “Zabriskie Point” do Antonioni, pela libertinagem e também “Um Filme Falado” do Manuel de Oliveira, pelo corte abrupto e o final esquisito que orfaniza a plateia. 

Concordo que esse final possa gerar desconforto no expectador e compreendo as razões para isso acontecer, mas acredito que Assis só procurou mostrar o que rola por aí e como o sistema segue opressor como nunca. É claro que todos nós gostaríamos de viver nesse sonho anárquico pós-moderno, onde tudo é possível e as leis são feitas naturalmente pelo próprio grupo, mas infelizmente essa realidade segue próxima da ilusão.

A Febre do Rato de Claudio Assis, enfatizada pela fotografia monocolorida e pelas lentes hipnóticas do mestre Walter Carvalho, é cheia dessas divagações, dessas poesias viscerais que nos fazem questionar o status quo e toda a ordem pré-estabelecida, que nos fazem sentir que há uma luz no fim desse imenso túnel de caretice que assola a humanidade. Uma pena não termos mais diretores honestos e corajosos como esse pernambucano cachaceiro arretado chamado Claudio Assis. Obrigado mais uma vez por sacudir nossos traseiros!

É anarquia, é mídia livre, é orgia e é poesia, é porra, é cachaça e maconha, é pansexualidade, é pichação, é ação e emoção, é liberdade e é panfletagem, é Assis nos lembrando que a POESIA ainda existe! Viva os loucos!

contos

Série “Taxistas Curitibanos” – Episódio #5: Memórias das Putas Tristes

taxistas_curitibanosDesta vez estou acompanhado de mais três amigos: Jorge Caldabranca, Charles Paraná e Toddy Suspiro. Caldabranca senta no banco da frente e dispara contra o taxista: Nos leve até o Santa Marta, que vamos ver o show do Marceleza, na faixa!

Tratava-se do show do Marcelo Nova e suas novas camisinhas, para o qual nosso amigo empelotado havia conseguido convites VIP´s, já que sua produtora cobriria o evento, pago pelo bar de luxo mencionado acima e onde casais loiros endinheirados consumiriam baldes de vodca russa pela bagatela de 500 reais.

No banco de trás, eu, Paraná e Suspiro alternávamos ataques de riso provocados por papelotes coloridos e pelas insanidades ditas por Caldabranca ao taxista, um sujeito indefeso e simpático e que logo se incorporou ao espírito jovial e festeiro do grupo que acabara de conhecer.

Caldabranca repetia sua ideia maluca de colocar uma câmera no táxi, “dessas gopro”,  para o taxista filmar todas as bizarrices que costumam ocorrer em seu carro, e depois rir delas em casa, com a esposa, filhos ou amigos. E talvez para mudar de assunto, perguntei ao condutor: E as putas, se oferecem para transar com você, em troca das corridas? Rapidamente o taxista me respondeu e começou uma espécie de semi-monólogo, alternado pelas intromissões surreais de Caldabranca, e pelas risadas frenéticas vindas do banco de trás:

“As putas são a pior raça que existe por aí. Elas nunca acham que vão pagar a corrida. Elas pegam no seu pau e acham que isso já vale 50 reais. Mas essas putas aí que você me pergunta não são putas propriamente ditas. São mulheres normais, com grana, que saem por aí e chegam reclamando pra mim e dizendo coisas do tipo lá só tinha veado, eu louca pra dar e ninguém pra me comer. Essas são as que se oferecem e querem dar a qualquer custo, independente se ela vai precisar pagar a corrida ou não. Elas têm grana e querem sexo, só isso.”

Perguntei o que ele fazia com essas mulheres e a resposta provocou mais um riso generalizado e desmedido em seu carro alaranjado:

“Não como ninguém. Vocês sabem, quando a mulher é fácil demais, você desconfia. E porra, eu tenho mulher e filhos em casa, não quero sair por aí comendo essas putas no meu local de trabalho.”

Respeitamos a conduta do taxista e fomos para o show-punk-para-burguês-ver. Marceleza continua inconfundível e com o humor de sempre, ao lado de seu filho guitarrista e “oriundo de seus testículos”.

Depois fiquei pensando sobre quantas mulheres desse bar voltarão sozinhas para casa, de táxi, e tentarão seduzir seus condutores, em troca de sexo fácil, sem comprometimentos e com o taxímetro desligado (ou não).

 

Outros textos desta série:

Episódio #4: O Justiceiro das Madrugadas

Episódio #3: Ecotaxis

Episódio #2: Vídeo-game

Episódio #1: Um Som Caipira Dos Bons

contos

Crazy Girl na Amalucada Cartagena

crack“Crazy Girl”. Esse foi o apelido dado por Pedro José e Kevin após conhecerem essa alemã de 27 anos, loira, alta e de boa aparência. Na ocasião, os dois estavam num hostel em Cartagena, no norte da Colômbia, assistindo às finais da copa do mundo de rugby.

Kevin é irlandês e em seu país, o rugby é levado a sério. Pedro José, brasileiro e meio avesso a esportes, acabou aprendendo as regras desse jogo enquanto via seu amigo Kevin se emocionar a cada lance decisivo. E foi em algum desses momentos que Johanna, a “crazy girl”, apareceu. Sem enrolação, ela foi logo pedindo um baseado para fumar, disse que tinha acabado de chegar em Cartagena e que, como era noite, não queria sair para comprar, mas que na manhã seguinte ela gostaria de comprar uma quantia boa para passar sua semana de férias.

Pedro José foi cordial e lhe disse que estava com um baseado enrolado em seu bolso e que estava pensando em fumá-lo. Johanna lhe disse que no dia seguinte lhe devolveria o favor. Kevin, Pedro José e Johanna fumaram o cigarro delgado na sacada do hostel, observando o movimento de gringos e colombianos na rua. Lá descobriram que a alemã era dona de um hostel no Chile e que estava de férias em Cartagena, em busca de drogas e diversão.

Na manhã seguinte, os dois decidiram levar Johanna até um traficante conhecido pelo pseudônimo de “Girafa”, devido a sua estatura elevada e seu consequente pescoço alongado. Mas antes disso, enquanto caminhavam no centro histórico, um homem abordou Johanna, oferecendo-lhe cocaína. Kevin e Pedro José seguiram esse homem até um restaurante chinês. Os quatro se sentaram, o homem pediu ao garçom alguns refrigerantes e perguntou para a alemã, quanto ela queria comprar. Johanna perguntou o preço do grama e quando ouviu o valor dos lábios do homem, ficou furiosa, bateu na mesa com força e levantou enlouquecida. Kevin e Pedro José estranharam a reação, mas como não faziam ideia do custo da cocaína naquele país, apenas levantaram e seguiram Johanna. Disseram-lhe para ficar tranquila e que conheciam um cara confiável e esse cara era justamente o tal “Girafa”.

Quando questionada sobre a quantidade e qual produto gostaria de adquirir, Johanna respondeu que queria 2 gramas de cocaína pura, “daquela boa para fazer crack”, e mais 60 gramas de maconha para relaxar. Girafa lhe disse quanto iria custar, pediu-lhe o dinheiro e disse para esperarem ali mesmo que logo os produtos seriam entregues. Girafa passou a grana para um menino, uma espécie de “aviãozinho”, que retornou após 5 minutos, com os respectivos produtos em mãos. Girafa pediu para Johanna guardá-los em seus seios, debaixo do sutiã e, cautelosos, Kevin e Pedro José levaram a “crazy girl” até um táxi, que os levou de volta para o hostel.

Lá, a alemã perguntou se os rapazes gostariam de ver o processo “de transformar a cocaína em crack” e eles, curiosos, responderam que sim. Os três entraram no banheiro e Johanna misturou em uma colher de metal, o pó branco da cocaína com o pó branco do bicarbonato de sódio, esquentando esses pós com um isqueiro. Após alguns minutos, o pó havia se transformado em uma pasta, minuciosamente transportada até o plástico da carteira de cigarro. “Pronto, agora é só esperar um tempo e fumar essa pasta com um cachimbo”, disse ela.  

Coisas estranhas aconteciam em Cartagena e foi lá que Pedro José conheceu uma americana, também hóspede do mesmo hostel em que ele e Kevin estavam. Após uma festa, os dois, Pedro José e a americana regressaram para o hostel, mas antes que entrassem, Pedro José se aproveitou da própria embriaguez e deu um beijo na boca da moça, também molhada de aguardiente. Os dois foram para um banheiro e transaram escondidos – fato que se repetiu durante os próximos dias. Nessa primeira noite, no entanto, Pedro José foi até seu quarto compartilhado para dormir e, quando deitou, notou que um de seus companheiros de quarto roncava como um rinoceronte apnético. Chateado, pensou que nunca conseguiria dormir com aquele ruído incômodo do seu lado, mas logo o barulho cessou.

Ainda desperto, Pedro José notou que alguém havia se levantado e caminhava lentamente em sua direção. De repente, escutou o som de alguém urinando no chão do quarto e quando virou, viu um rapaz cabeludo, o mesmo do ronco estridente, mijando no chão e em cima das mochilas de um casal de ingleses, também companheiros de quarto. Os ingleses acordaram furiosos e começaram a gritar “Hey, what the fuck!” e foi quando o cabeludo provavelmente despertou de seu sonambulismo doentio, guardando seu bilau na cueca e saindo de fininho para fora do quarto.

Alguns minutos depois, Pedro José viu a dona do hostel entrar e averiguar a situação, pedindo desculpas para os ingleses. O cabeludo mijão nunca mais foi visto desde então. A “crazy girl” continuava por lá, fumando sua pedra no banheiro e saindo com colombianos interessados em sexo intercontinental.