arte, contos

Crônicas de Nácar #06: Portas Abertas, Ladrões e Pastéis

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Garranchos orbitais de outra noite quente na casa mais estranha da cidade. A casa sem chave ou campainha. A casa das infinitas janelas. Na leiteira o gengibre erupciona as bolhas da gosma mágica que me fará um faraó babilônico e que, após litros de gim tônica na balada das senhas e das aparências, decide se recuperar do engodo putrefativo típico de humanos desalmados com juguetes de palavras raras por esses cantos, cantos e bizarros becos, cantos cheios de encantos e cantos brazucas com sotaques argentos, cantos com bancos desbotados e bonecas enferrujadas com cabeças de animais pré históricos, cantos de papagaios enjaulados e esbranquiçados, cantos que provocam desencantos harmônicos reais e prantos desregulados: meros desencontros quânticos, miragens emocionais e tantas outras baboseiras astrais tão vazias quanto as táticas imortais que apontam, mas não definem nada, bem como esse parágrafo inicial que já nasce morto e torto como o bar de outrora.

E se você já não aguenta as palavras e as centenas de caracteres estéreos e ilógicos, narrarei esses versos na nova rádio cultural das velhas ondas e com a louca locução vendida por trocados nos espelhos pretos causadores de distrações e interrupções e falsas interpretações carentes de ações e vírgulas, pontos, aditivos, acentos e mais bancos, dos concursos e dos absurdos capitais, bancos capengas que derrubam escritores viajantes, banquetas infantis e vermelhas, rodeadas por crânios de terror e da melancolia do escultor ucraniano dos cigarros escuros e das histórias verdadeiras, permeadas pela eterna dança das cadeiras de um circo de horrores esboçado pela bossa nossa de qualquer dia e pelas tosses secas da primavera precoce.

Estamos ficando velhos e doentes e não temos mais tempo pra perder. A vida é muito curta e não há tempo pra discussões e brigas, diriam os besouros dos tesouros manjados. Vamos para frente com a incoerência de sempre, vamos para o quarto plano, dos tatás e dos tetês, vamos adelante, chorar não adianta, se preocupar muito menos. Grato vovô Willie, por me lembrar pela enésima vez disso. Quero isso e mais aquilo e se possível, um quilo a mais daquilo Sampa. Um grilo a menos pra seguir acreditando nessa luz interior, fumegante e tão elegante como os acordes maiores brotados nos trens azuis de Tranes ou dos brothers Borges. Jorge, você também pode ser útil. Amado, te confundiram com Caymmi. Deixe de mimimi e siga assim, misturando crânios antiquados interessantes para donos de antiquários ou jovens descolados cultivadores de mofo, imersos em lodo e mangue, crentes na fantasia do amanhã e com mais manhas que as aranhas bêbadas e chapadas do comercial canadense e perseguidoras de amêndoas do grande espinhento celeste.

Falo ou escrevo confuso por ter o fuso horário mental desalinhado, falo ou escrevo por ter a mente mentirosa e cada vez mais cor-de-rosa, falo ou escrevo para lembrar que também possuo um falo! Falo ou escrevo por ter a necessidade de limpar com fio dental as arestas dos dentes pretos regalados pela so called vida. Falo ou escrevo por tentar ser isso que a gente sempre foi, falo porque também sou chato pra caralho e se você não quer me escutar ou ir na galeria bancária para ver podólogos travestidos de pedófilos, fique em casa no seu quarto seguro e colorido, fique em seu quarto com seu porto seguro imaturo, suas séries e seus mimos lindos, suas taras e seus segredos mais obscuros, se cubra com lençóis de indecência e depois se descubra alimentando seja lá qual personagem repetido você tenha inventado nas aburridas teias sociais, dos clubinhos quebradiços de qualquer escrota escola que você tenha sido malcriado.

Parece quase impossível quebrar essa casca do ovo cozido pelo virgem mouro, essa casca imensa e tensa que após o destroçamento essencial faz a gente ser esse ser universal e atemporal por tão pouco tempo, em frações enlatadas e refratadas por raios de bilhões de cores e explosões e bang-bangs interplanetários ou tão pequenos como a troca de tiros na empoeirada rua dos reis instantâneos, dos alvarás comprados e dos pastéis especiais produzidos por mãos sensíveis de mais um marinheiro só e que agora invade a cozinha de Letícia com ricos timbres olfativos salvadores de bad vibes. Pastéis de forno, do mesmo forno necessário para amadurecer o abacate verde do mercado dos pássaros solitários e símbolos de países andinos. Dica sagaz do sumido tio Jordi, crucificado pela cruz mastigada com cuscuz de outro cu masoquista segundo o anão zangado.  

O rango está na mesa e é hora de celebrar. Quer reclamar? A folha branca da caixa preta de pandora foi feita pra isso. E que o fim de mais esse enrosco ou esboço boçal fique pra depois.  Computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro e outros artistas transformam dinheiro em origamis e de um jeito ou de outro, todos seguem atrás de uns trocados. Ce la vie, la belle verte!

“É duro engolir terrestres!”

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contos

Série “Taxistas Curitibanos” – Episódio #7: O Câncer dos Táxis

taxistas_curitibanosA revolução chegou. Não falo desse Brasil que caminha aceleradamente de forma regressiva, capitaneado por uma máfia de políticos abusados e cercados por falsos heróis, mas de uma revolução nos modelos de negócios, algo há ver com as mega corporações virtuais e com os investimentos do garoto problemático da série sobre os anos 70, e que hoje estampa a capa da revista sobre gente “bem sucedida que fatura milhões ou bilhões” investindo em redes sociais altamente lucrativas. Nessa revolução social, hotéis e táxis se tornarão obsoletos, artigos de luxo pra gente desligada que prefere a invisibilidade destes espaços, sem se preocupar com seus bolsos. Uma revolução que tem provocado constantes torcidas de nariz de seres gananciosos, preocupados com seus umbigos perfumados e que costumam clamar pela “família” em seus discursos de araque. “A burguesia fede, mas tem dinheiro pra comprar perfume”, já diria o gênio Falcão.

E eis que sob esse cenário pós-contemporâneo ou qualquer outra coisa que você queira chamar, escuto o sinal do celular me avisando que o motorista está próximo. Lucas, em um honda fit, de placa xxx, me recebe cordialmente, perguntando se a temperatura “aí atrás está agradável” e se eu teria alguma rádio “de minha preferência”. Respondi que curtia a educativa ou a lúmen, mas que não lembrava das estações. “Mundo Livre tá bom pra ti?. Sim, claro, também acho bacana, respondi. “Aceita uma água ou uma balinha? É só pegar!”.

Na sequência, o jovem e simpático motorista me informa sobre um protesto do MST que está “atravancando a visconde”. Sentado em um banco de couro preto, Lucas pergunta o que acho sobre isso ou sobre esses caras que ocupam terras por aí. Digo que quando é necessário um helicóptero para mensurar o tamanho de uma fazenda e que quando se constata que boa parte dessa terra está improdutiva, talvez isso seja pelo menos algo pra gente pensar. Ou talvez isso seja mais um pensamento esquerdista de hipster sem nenhum conhecimento de causa. Logo, Lucas procurou desviar o assunto, sempre com bom humor: “Política e religião a gente não discute, né?. Falo que é só triste quando o indivíduo nasce e morre com a mesma opinião e que era como a manjada canção do Raul já dizia: “eu prefiro ser uma metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião sobre tudo˜.

“Ah, você curte Raul Seixas? Minha mulher é fã dele, inclusive ainda devo ter um CD no carro,… saca só!”. E assim, compartilhamos o nobre raulzito no conforto de seu honda fit, modelo de no máximo quatro anos – de acordo com as exigências da companhia fantasma responsável pela ira dos taxistas, ou deveria dizer, dos donos desses carros e das tais rádio-taxis, congeladas no tempo. “Essas empresas precisam se atualizar, ao invés de culpar a gente, que só está trabalhando e tentando se virar como pode nessa crise aí”, arrematou Lucas, enquanto em seu som Raul cantava sobre a lucidez dos loucos. “Em breve colocarei bluetooth nesse aparelho, pra você poder tocar a sua playlist favorita, só não esqueça de comentar no aplicativo que você teve uma trilha sonora personalizada!”, comentava aos risos o novo motorista da cidade esverdeada.

E tudo isso pela metade do preço dos táxis e sem a necessidade de dinheiro (ainda que isso possa representar um problema depois). Pois é, estou vendo que precisarei mudar o nome dessa série. Viva a revolução e que venham as próximas. Adeus carros laranjas, o mundo precisa de todas as cores.

*sem revisão

 

pseudojornalismo

Novo Leiaute e o Velho Passado

novo_leiauteSemana passada teve o dia do trabalho, mas falar de passado é coisa démodé e falar démodé é ainda mais atrasado. Mas ando meio assim, ultimamente, atrasado e folgado, realizando pequenas ideias do passado, reciclando projetos antigos, revendo velhos amigos e ouvindo discos dos anos sessenta.

Citei o dia do trabalho porque nesse dia decidi nadar contra a corrente e assim, utilizando outra expressão enferrujada e manjada, decidi que, em vez de descansar, era tempo de trabalhar.

Trabalhar para a minha pessoa: sem intermediários, chefes chatos, subchefes incompetentes, estagiárias atrapalhadas ou colegas arrogantes, mas com as pertinentes distrações de se trabalhar em casa e sobre isso, nem perderei meu tempo em detalhar. Afinal, o tempo corre e se eu começar a me alongar demais por aqui, perderei você, nobre leitor – porém não dramatizarei dizendo que perderia a razão pela qual escrevo, pois essa eu confesso que ainda não encontrei.

E como o Roberto suplicava contra os ventos, é por isso que eu corro demais, ou talvez seja por isso que eu não corro mais, mas compreendo por que os outros correm demais, pois também aprendi com o Almir a andar devagar e, com o Bowie, aprendi a citar gente importante.

Tão devagar que esse blog que você está lendo e com um nome inglês metido à besta, citação-de-escritor-pseudocult-underground, já tem alguns anos de existência e somente agora ou, na verdade, na quarta, no dia do trabalho, somente nesse dia ele sofreu a primeira grande mudança em sua curta passagem, biologicamente falando, ou longa vida em se tratando de tecnologia, internet ou tipos de leite.

Pois bem, falo do “leiaute” como diria um Zé aí – da estrutura do blog, que agora em sua página inicial se assemelha um pouco mais com os extintos jornais de papel, comuns nos anos sessenta para embrulhar peixe frito na Inglaterra e, nos mesmos anos em que Roberto cantava suas canções botânicas sobre brotos e os discos dos besouros eram a coqueluche das festas de arromba.

Além dessa aparência antiquada e meio boba, há também uma espécie de “menu superior” onde o leitor poderá “navegar” entre as principais categorias do blog, encontrando de maneira mais ligeira, conteúdos sobre os assuntos que mais lhe interessam no momento.

Na “barra lateral”, tentei deixar o objetivo mais claro, ou escuro, já que o fundo das caixas é preto. Nas gavetas, você encontra todas as categorias, sem distinção de importância. Abaixo, você pode assinar o blog, sem custo algum, porém ele não chegará na sua caixa postal como as revistas da Abril pelas quais você pagava, mas nem sempre as lia.

Na caixa “sobre” há algumas palavras-chave ou “tags” sobre assuntos abordados nos “posts”. Queria evitar tantas palavras da moda e estrangeiras, mas tá difícil.

Em seguida, abaixo das “tags”, há os nove últimos “posts” – o número foi reduzido por uma questão cabalística e por eu curtir muito aquela história, dos anos sessenta também, sobre “number nine, number nine, number nine,…”

 

Ah, quer saber, o restante das caixas pretas ficará para uma próxima, que provavelmente não deverá existir, pois essa história andou me lembrando dos longos anos em que trabalhei “desenvolvendo” manuais de ajuda de “softwares” e esses termos “menu superior, barra lateral e blablablá” fazem parte agora de um lado escuro do meu passado e da minha lua floydiana, felizmente um passado ainda muito próximo e assim, longe dos anos sessenta, quando minha vida era muito mais tranquila e de onde tenho buscado minhas inspirações ultimamente. Esse blog é sobre esse tempo, mas longe de pregar aqui um saudosismo burro, continuarei falando sobre o que aconteceu semana passada ou na noite de ontem ou ainda, na manhã de 2049.

 

E citando o Caetano, que também é dos anos sessenta e eu sei que você já sabe disso, mas eu não poderia perder a oportunidade de repetir esses anos dourados da minha vida inventada e assim, continuar sendo prolixo e chato como sempre; enfim, Caetano mandou um “abraçaço” que agora, eu estendo a você, admirável leitor que conseguiu chegar até aqui.

E como ele dizia na TV do passado, gíria a gente não explica. Poesia, segundo o velho barrigudo e bigodudo de Curitiba, também não.

“Leiaute” de blog talvez sim e olha que eu tentei.

 

Em tempo, e resgatando um pouco de uma velha coluna aqui do blog sobre dicas musicais, termino esse texto ao som da bailarina das semanas astrais do também seiscentista Van Morrison.

The Show Must Go On.

idéias

Facebook

Hoje eu não vou postar nenhuma foto de protesto contra o atual governo. Não irei postar flechas apontando como sou diferente dos outros. Não postarei mensagens filosóficas bonitas ou fotos dos lugares que estive. Também não postarei charges engraçadinhas ou clipes das bandas que costumo escutar. Não postarei notícias interessantes da BBC ou do Terra e muito menos fotos das festas dos meus amigos. Hoje não postarei as coordenadas de onde estou ou de onde entrei. Também não postarei memes ou fotos de crianças desaparecidas. Não postarei citações de gente famosa ou minha nova foto do meu perfil que acabei de tirar no celular. Hoje e especialmente hoje, não postarei mensagens sobre as coisas que gosto de fazer ou sobre como fui na prova de ontem. Não postarei imagens chocantes sobre grandes causas, sobre o desmatamento da floresta amazônica, a indústria da carne ou sobre a situação dos índios guarani-kaiowá. Também não irei postar mensagens informativas sobre questões de segurança das redes sociais ou mensagens de conscientização sobre a doação de sangue ou qualquer coisa do gênero. Hoje não postarei receitas milagrosas de curas ou de como conseguir dinheiro rápido ou o de como conseguir sua alma gêmea. Também não postarei nada em inglês ou em qualquer outra língua para soar mais inteligente do que os outros. Não postarei imagens engraçadas, piadas infames, mensagens sobre o dia de sei lá o quê, flyers do próximo show da cidade, fotos da minha nova tatoo, da minha nova namorada ou do meu novo carro, mensagens espirituais ou anti-homofóbicas, fotos de cachorrinhos perdidos ou para adoção, mensagens contra o rival do meu time, fotos da última catástrofe, propagandas de sites, promoções aéreas ou de qualquer outro produto, ofertas de emprego, fotos de quando eu era uma criança linda ou fotos de flagrantes do cotidiano, ditados populares, ilustrações iradas, esculturas de areia ou de cera ou de qualquer outro material imprevisível, fotos de bebês ou de animais fofos fazendo coisas fofas, fotos de casamento ou do filho que nasceu (essas costumam fazer muito sucesso), enfim, no dia de hoje e especialmente hoje não postarei nada dessas coisas e ao invés disso escreverei esse texto com o objetivo de se tornar uma espécie de ode a vida real, que quando vivida intensamente, não há espaço para uma coisa tão insignificante e banal chamada facebook.

pseudojornalismo

O Punhetódromo

Talvez você ainda não saiba, mas as saudosas lan-houses, do tempo que a molecada passava suas tardes jogando GTA, mudaram de função. Hoje chamadas de “internet café” ou de qualquer outra coisa, esses recintos se transformaram em um reduto underground para jovens praticarem sexo seguro, isto é, a masturbação solitária, ou como nos velhos tempos, a boa e velha punheta. Pois é, com os avanços tecnológicos e econômicos, hoje em dia só não tem internet quem não quer, ou como no meu caso, decide não ter. E assim, quem hoje vai em uma “lan”, acaba sucumbindo para a mais antiga das artes – a pornografia. Me refiro aqueles seres do sexo masculino, já que ainda não consigo imaginar mulheres usando a internet para isso. Pelo menos não em um local público.

Nessa minha opção de passar mais tempo off-line, costumo ir uma vez ao dia na lan aqui perto de casa, para checar meus e-mails e pesquisar algo que julgue interessante. Curioso foi perceber que todas essas vezes vi monitores com fotos e vídeos de sexo explícito, em pleno horário comercial. Também reparei que há um banheiro na mesma sala onde ficam os computadores e não é raro ver algum marmanjo entrando e saindo de lá, com aquela cara de “satisfeito”, e indo direto para o caixa, no andar de baixo. Uma vez concluída a missão, é hora de pagar e seguir com os (outros) afazeres do dia.

Lembro de ouvir o Lourenço Mutarelli dizer algo sobre a internet representar a decadência do ser humano, ou à volta a suas origens, já que uma vez nela, o mais comum é usa-la para fofocas e curiosidades banais sobre a vida alheia ou como venho tentando dizer sem meias palavras – a putaria. Para quem sabe usa-la, ela até pode ser uma ferramenta útil do conhecimento, apesar de também, como bem comentado por Mutarelli, representar no máximo cinco ou seis fontes diferentes sobre um mesmo assunto. O resto é cópia.

Não sei, mas ando pensando em levar meu álcool gel na próxima vez que for usar um computador em uma lan-house.