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[pace is the essence] Podcast #14: Política (Parte 1)

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Primeira parte do programa sobre política. Canções relacionadas ao tema, curiosidades e citações permeiam o programa. Aqui você poderá escutá-lo em formato podcast, para download ou audição a qualquer momento.

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O Avô que Nunca Tive

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Quando criança, perdi meus dois avôs e meu contato com eles foi tão mínimo que minha memória tenta, mas não consegue recordar de absolutamente nada. Um deles costumava brincar comigo e meu irmão mais velho, “como se fosse uma criança”, diria esse mesmo irmão mais velho. Sinais do Alzheimer, que naquele tempo, nem nome tinha.

Porém, eis que em uma tarde iluminada e ensolarada de Itaparica, na Bahia, tenho o prazer de finalmente conversar longamente com meu tio-avô, o “Doutor” Eufrásio. Eufrásio é irmão da minha falecida avó, por parte de mãe, e apesar de passar seus dias de semana em Salvador, dedica seus fins de semana para descansar na sua casa, na ilha de Itaparica, a 13 quilômetros da capital baiana. Uma casa, aliás, formidável, de espaços amplos, tetos altos e a poucos passos da praia. 

Sempre sonhei em ter um avô para, entre outras coisas, ouvir histórias da segunda guerra mundial ou de outras particularidades de seu tempo. Mas Eufrásio vai muito além disso e, em vez de me contar histórias trágicas de guerra, ele me conta que foi membro do partido comunista, e como precisou fugir do país durante o regime militar. Dizia que os militares eram tão burros que certa vez um deles o abordou na frente de seu prédio e perguntou “Você conhece o senhor Eufrásio?”. O próprio respondeu que sim e que “ele morava naquele prédio, atrás dele”. Enquanto o milico entrava no prédio, Eufrásio se esvaiu, indo parar na França.

Nos seus 20 anos, Eufrásio participou da UNE e junto com outros estudantes foi para a China em uma viagem que ficou marcada pela frase repetida por diversos familiares: “O Tio Eufrásio apertou a mão de Mao Tsé-tung”. Sim, ele me contou que Mao fez questão de apertar a mão de todos os presentes e ainda declarar aos brasileiros o intuito de estreitar relações entre os dois países, em uma espécie de previsão do que viria a ser a parceria atual entre os governos, fortalecida pelos BRICS.

Além desse feito, Eufrásio ainda foi fundamental na carreira de um dos pilares do tropicalismo: um outro baiano chamado Tom Zé. Tom Zé procurou Eufrásio, na época integrante do Centro Popular de Cultura, para dizer que estava pensando em voltar para Irará, sua terra natal, pois estava sem lugar para morar e até estava pensando em desistir da carreira musical. Eufrásio lhe disse que havia um quarto vago no apartamento que dividia com mais dois estudantes e que ele poderia ocupá-lo. Tom Zé morou alguns meses nesse apartamento e até hoje possui uma gratidão imensa por Eufrásio, que o acolheu em um momento de dificuldade.

E como não bastasse, Eufrásio, por ter feito parte do Centro Popular de Cultura, conheceu todos os grandes artistas baianos de seu tempo, mantendo relações próximas com Caetano até os dias atuais. Vez ou outra Eufrásio discorda de suas opiniões políticas e os dois acabam trocando emails acalorados como consequência.

Continuo não tendo um avô, mas acredito que Eufrásio, tecnicamente meu tio-avô, seja esse avô que nunca tive e hoje, após nossa última conversa, posso dizer que possuo uma admiração genuína por esse homem, por sua história e pela pessoa amável que ele sempre demonstrou ser.

“Naquela mesa ele me contou histórias que hoje na memória eu trago e sei de cor.”

Obrigado, Tio Eufrásio!

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Tropeços, Delírios e Alegria no Festival Multicolor

psicodalia-005São as primeiras horas dentro de um ônibus rumo a Rio Negrinho, em direção ao carnaval dos loucos. Roberto, meu amigo e parceiro de caminhadas espirituais, me acompanha e apesar de não conhecermos mais ninguém nas outras poltronas, nos sentimos em casa – uma casa flutuante que percorre estradas com a energia pulsante resultante de corações apaixonados por essa coisa que nos acostumamos a chamar de vida. Roberto, com certa dificuldade, abre a primeira garrafa de cachaça feita de cereais e de bolinhas escuras de alguma fruta cujo nome minha memória capenga é incapaz de recordar. Compartilhamos o copo e logo aparecem outros e assim, bebemos e conhecemos nossos colegas de viagem, por entre copos de vodka, suco de laranja, vinho barato e a cachaça de Roberto, presente do ex-sogro. No banheiro, os cigarros proibidos de sempre.

E sem maiores inconvenientes chegamos ao festival Psicodália. Descemos, pegamos nossas pulseiras e nossos cartões e voltamos para o busão que nos esperava no estacionamento com as nossas bagagens. Mas espere aí, onde está Roberto? Retorno ao portão de entrada e o vejo completamente alcoolizado, com sérias dificuldades motoras, cambaleando e abraçando hippies. Levo Roberto, aos trancos e barrancos, até o ônibus, pegamos nossas mochilas e barracas, mas meu amigo se mostra incapaz de carregar suas coisas até o camping, numa série de caídas e batidas nas laterais do ônibus. Deixamos nossas tralhas por ali e fomos caminhando lentamente até o suposto camping, porém na metade do caminho, Roberto cai estatelado sobre o gramado, nocauteado pela própria loucura e embriaguez. Deixo-o sozinho e parto por entre barracas desconhecidas e rostos estranhos, tentando encontrar Jorge, nosso amigo cabeludo pontagrossense e parceiro dessas transas.

Não o encontro e no caminho vejo as garotas curitibanas da excursão que decidem me acompanhar, solidárias com a situação que aos poucos adquire contornos bizarros e imprevistos. Voltamos para o ônibus e para onde nossas mochilas deveriam estar, mas nesse momento constatamos tristemente que elas haviam sumido. Por sorte, encontramos Guerreiro, apelido dado ao organizador da excursão, que nos devolve nossas tralhas, após um sermão necessário pelo transtorno causado.

As meninas me ajudam a levar nossas coisas e quando chegamos ao gramado, Roberto seguia em seu estado de semiconsciência, estirado na grama como um zumbi recém-baleado. Tentamos de várias maneiras despertá-lo e as únicas respostas que obtivemos vieram em sons monossilábicos arrastados. Fui até a ambulância do festival, atrás de uma dose de glicose que pudesse salvá-lo, mas, infelizmente, os enfermeiros de plantão não puderam nos ajudar.

Decidimos armar a barraca de Roberto ao seu lado e foi nesse instante que notei a ausência da minha barraca, que na realidade não me pertencia, era emprestada. Provavelmente ela fora extraviada durante o percurso, após passar por mãos estranhas e ter sido transportada por uma caminhonete de sei lá quem.

Depois de muito esforço, primeiro molhando o rosto de Roberto com água e depois o fazendo beber um pouco desse líquido sagrado, ele esboçou reações curativas, expelindo algum tipo de muco em forma de vômito. Porém, Roberto ainda estava longe de sarar e logo ele caiu novamente na grama e precisamos da ajuda de um terceiro elemento para carregá-lo até sua barraca. 

O festival multicolorido estava começando e eu já havia perdido minha barraca e até meu amigo, ao menos pelas próximas horas. Jorge e as amigas veganas Larissa e Mel, continuavam apenas no pensamento e eu não fazia a menor ideia de onde poderia encontrá-los.  

Seis horas após o incidente alcoólico, Roberto recuperou a consciência e insistia em dizer que não se lembrava de nada. “Apagão”, repetia ele. Teimava em querer saber como eu havia perdido minha barraca – uma história que precisei recontar dezenas de vezes para ele e para os demais interessados. 

E um texto é pouco para descrever tudo que rolou nesse festival. Teve cantor entrando no palco em um caixão, teve punk gaúcho ressurgindo das cinzas e cantando sobre uma canção inesperada, teve banda de velhos tocando velhos roques feitos no Brasil, teve psicodelia setentista de primeira, baiano reinventando a tropicália, um tal de Mestre Ouriço pra lá de doido, teve ciranda animada no palco do sol, instrumentista de peso mostrando suas safadezas no violão, teve festa de pirata com garotas nuas, teve Kombi hiponga dando canjas lisérgicas para os malucos de plantão, teve o Plá de Curitiba em show intimista com direito a violoncelo de acompanhamento, teve o som chapante das pedras brancas, teve a umbanda revisitada por músicos descolados, o velho baiano tocando o disco homônimo dos novos baianos ao lado de seu filho, teve big band tocando clássicos do jazz e do blues,  cantor e poeta nordestino retornando aos palcos com seu suingue único, teve o amigo das estradas, dos mitos e dos arrepios, cantando sobre o sertão e Santa Cruz de La Sierra, teve chapeleiros malucos, simpsons, bicicletas e quilos de ganja circulando livremente por toda parte, teve pastel de tofu, yakisoba, caldo de feijão e pizza vegetariana, teve paixões instantâneas por garotas gaúchas de vinte e poucos anos e de preferência do curso de letras, teve chopp classudo e oficinas intrigantes e chuva desabando e destruindo acampamentos.

E talvez o momento mais surreal e psicodélico no meio de tanta maluquice tenha sido a apresentação de uma banda tradicional alemã, no palco dos guerreiros, às quatro da matina, animando todos os presentes e fazendo-os lembrar da imigração, das raízes germânicas e das festas regadas a litros de cerveja.

Teve tudo isso e teve Roberto retornando pra casa mais cedo, com a amídala inflamada e os olhos tristes.

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Tom Zé, Beatles, As Mulheres e A História Sem Fim

A moça do café cult-intelectualóide me recebe prontamente. “Mesa pra quantos?”, “Sentarei com as meninas da sala ao lado, mas pra adiantar, quero uma taça de vinho, argentino ou coisa parecida, merlot, o mais econômico que tiverem”. Na mesa, uma amiga turca criada em Berlin come uma massa esbranquiçada com cogumelos frescos e escuros, enquanto na sua frente, sua amiga, curitibana e norte-americana por opção, ingere um caldo de feijão, brasileiro, por tradição. As duas dividem uma cerveja, brasileira também.

O vinho não chega e elas me contam que tiveram que esperar um par de horas para os pratos. Decido levantar e avaliar a situação e de fato a moça do café estava mais ocupada em organizar o pomposo buffett de frios, a trinta reais por pessoa, se esquecendo dos clientes interessados em simples taças de vinho, no caso esse chato que vos fala.

Hora de partir e ir para o museu ocular de grandes proporções, de um tal arquiteto famoso aí. “Hoje vai rolar show do Tom Zé, de graça, numa tenda lá”, havia dito uma amiga horas atrás. Levemos a gringa e a curitibana-estadunidense também, afinal, elas precisam conhecer o museu, mesmo que a noite e com o foco estando fora dele, no caso, na tenda mencionada. Também terei a oportunidade de encontrar essa amiga de bom gosto e rosto jovial, e que apontara a direção.

Chegamos e enquanto fumo meu tabaco sob olhares diversos, as explico (para a turca e a curitibana) quem é esse homem, um dos pais da tropicália e que ficara no ostracismo por uma série de motivos, e que graças a David Byrne e como o próprio Tom Zé havia dito, a um erro de um vendedor de discos que achava que seu trabalho se enquadrava no estilo samba e que sim, representava de alguma maneira a música brasileira de outrora – esse homem já com mais de 70 anos de corpo, renasceu no cenário cultural, realizando shows por toda a Europa e depois no Brasil, por que ainda tem essa coisa de fazer sucesso primeiro lá fora e aquele blábláblá todo. Pensei em lhes falar sobre aquele disco dele que é uma opereta da mulher ou daquele outro que a capa é um cu, como na primeira sílaba da palavra que dá nome a essa cidade, mas achei desnecessário, já que o homem estava ali, no palco e poderia lhes mostrar muito mais do que qualquer discurso cult-intelectualóide, normal para o café de momentos atrás.

O show começa e sem êxito, não encontro minha outra amiga e assim, me contento em permanecer distante do palco, ao meio de conversas furadas e atravessadas entre os grupos de pessoas ao redor.  Olho pra turco-alemã e que agora se assemelha a algum personagem do filme Persépolis (cult-intelectualóide também) e anuncio: “Vamos mais pra a frente pra sentirmos melhor essa coisa chamada show”. Timidamente nos aproximamos mais uns dez passos do palco, girafeio pros lados, mas continuo sem encontrar minha amiga, pequenina e no meio de uma multidão de desconhecidos. Tento mensagens de texto, tão em voga no momento, mas logo percebo que o lance é deixar para encontrá-la depois e que diferentemente das outras pessoas próximas e conectadas a redes sociais irreais, eu preferia estar com minha mente e meu coração abertos praquele homem, setentista de idade e de idéias, e sua banda de tirar qualquer chapéu (cult-intelectualóide) e que parecia se proliferar na platéia.

E por trás de todos esses chapéus e de alguns namorados-malas, daqueles que te olham feio quando você pede licença pra passar, estava eu, agora, com todos os olhos voltados a Tom Zé, que alternava suas peripécias no palco, hora tocando uma serra-fita, hora comendo um jornal e sempre intercalando cada canção (na falta de uma palavra mais adequada) com algum dizer, normalmente dirigido pro público ou pra banda: “agora mais baixinho…”.  No bis ele satisfaz os fãs-mutantes de plantão, cantando o hino do rock rural e premonitório, aquele sobre o tal astronauta libertário, uma verdadeira ode aos tempos modernos onde somos “casados e solteiros”, “baianos e estrangeiros”, e é o “computador que resolve” a equação.  Uma pena que naquela platéia, uma parte parece ainda incrustada em alguma época antiga, conservadora e machista, e para esses, é bom ler a mensagem da banda agigantada pelo telão: “Machismo Mata”, em sintonia com a passeata das vadias e com aquela história do policial também incrustado em algum tempo remoto.

E antes que me esqueça, falarei mal da Alemanha, também lembrada por Tom Zé no fim do espetáculo. Afinal, ô país paradisíaco das mil maravilhas, onde todo mundo se respeita (?), ninguém rouba (?) e acho que ninguém passa frio também, já que todos são tão legais que devem emprestar suas jaquetas e luvas a quem as precise (ok, não esqueci dos aquecedores centrais). Todos têm seus defeitos e os curitibanos costumam ser exímios críticos nesse sentido, especialmente ao falarem da Europa (?).

Mas não são sobre essas coisas que gostaria de falar, talvez o mega-cérebro do Tom Zé tenha feito um pirulito na minha ciência, me fazendo viajar em temas distantes da história sem fim que pretendia contar.

Mas vamos lá, no final do show, encontro minha amiga e ao apresentá-la as outras, a curitibana-estadunidense faz a inocente pergunta: “Mas fulana, o que você faz?”, emendando com outra indagação muito pertinente: “Colégio?”. “Não, eu faço faculdade”, responde ela com sua fala mansa e suas bochechas coloradas, e por aí a conversa andou, em marcha-lenta, e em modo ultra-criativo. Mas como o branco pode ser preto e vice-versa, como os norte-americanos já devem ter percebido, a curitibana mostrou seu outro olhar, ao associar a lua a um poste de luz redondo e branco – observação compartilhada com minha amiga, que agora passou a falar “Bah”, como meus amigos gaúchos e algumas placas de automóveis por aí.

E foi esse grupo, agora com a inserção de um novo membro novo (minha querida amiga), que seguimos para a próxima atração da noite, a famosa banda cover dos Beatles, ou Liverpoolgas, como eles são chamados, em um bar estilo anos 80 freqüentado por jovens alternativos com preferência por cores escuras. Pego umas cervejas e as sirvo em uma mesa de madeira e momentos depois reparo na presença de um dos músicos da noite, um rapaz bacana e o qual já havia conversado diversas vezes em tempos e visuais atrás. Hoje ele está de aparelho, sem barba e de cabelo mais curto, estilo Beatles na transição da primeira pra segunda fase, enquanto eu, como ele mesmo brincou, estou no estilo “filósofo” ou Dom Pedro I.

Após um convite até a esquina mais próxima e uma viagem paralela prontamente atendida e experienciada, retornamos ao recinto para momentos depois, perdermos uma integrante antes mesmo de a banda iniciar suas atividades. A curitibana decide ir pra casa, alegando cansaço e dor nas pernas, provocada pela idade avançada (segundo ela). Brinco dizendo que idade é um estado de espírito, mas também lembrei mentalmente que cada um conhece seus limites (ou vaidades) e nesses casos, não adianta discutir.

 

Porém para encurtar a história e continuar seguindo os padrões blogueiros atuais, só tenho a acrescentar que a noite se estendeu por mais algumas horas, não vimos o show beatlemaníaco por inteiro, mas comemos um baita cachorro-quente vegetariano, esse sim, por inteiro e com muito gosto, enquanto discutíamos sobre algumas diferenças entre a Alemanha e o Brasil e aquele papo sobre lá ser tudo corretinho e simpático, enquanto aqui alguns gringos ainda morrem de medo da violência e da imprevisibilidade constante por esses lados.

E viva Tom Zé, os Beatles, Curitiba, Alemanha, Turquia, Brasil, o cachorro-quente vegetariano e principalmente, as diferenças!

Dicas Musicais, podcasts

[pace is the essence] Podcast #04: Animais (parte 2 – os da água)

E no quarto programa e segundo da série sobre animais, canções e comentários sobre animais aquáticos, de todos os tipos. Críticas ou sugestões são bem-vindas demais.

Segue a tracklist:

Spongebob – The Best Day Ever
Frank Black – Song of the Shrimp
Devendra Banhart – Seahorse
Donovan – Starfish-On-The-Toast
Syd Barrett – Octopus
Jeffrey Lewis – Octopus´s Garden
Clube da Esquina – A Sede do Peixe
Inezita Barroso – Peixe Vivo
Tom Zé – Peixe Viva
Raul Seixas – Peixuxa (O Amiguinho dos Peixes)
John Lurie – Shark Drive
It´s A Beautiful Day – The Dolphins
Sá, Rodrix & Guarabyra – Mestre Jonas
Riachão – Os bichos: Baleia da Sé / Tartaruga 70
Supercordas – Frog Rock
Screamin´ Jay Hawkins – Alligator Wine
The Cramps – Alligator Stomp
Badly Drawn Boy – Have You Fed The Fish?

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Dicas Musicais, fotografias

Velhinhos Batutas do Rock, do Folk, e da MPB

Os anos se passaram, mas eles continuam por aí. Alguns deles estão mais ativos do que nunca, mostrando que é possível envelhecer com alegria e saúde. Drauzio Varella que o diga.

Loucos, rebeldes e/ou drogados e prostituídos, suas juventudes foram marcadas por atos de protesto, irreverência e diversas obras-primas musicais.

Se hoje eles lembram aquele seu vovô maluco, ontem eles foram jovens contestadores e muitas vezes incompreendidos (e em outros casos, apenas loucos mesmo). Abaixo estão alguns exemplos:

Chuck Berry


Bob Dylan, link post

Tom Waits, link post

Brian Wilson

Leonard Cohen, link post


Neil Young

Arnaldo Baptista

Chico Buarque


Milton Nascimento


Caetano Veloso

Gilberto Gil

Tom Zé, link post

Foto (dir.): Tiago Valério

arte, contos, Dicas Musicais

Alegria, Alegria!

Foto: Gugagumma

Aquele era um domingo atípico, daqueles que você resolve largar a comodidade de um sofá quente e amaciado para se locomover a um teatro. A razão para isso acontecer, você pensa, está naquele ingresso que seu amigo já havia comprado pra você, com dias de antecedência. O show é de um músico relativamente pouco conhecido em terras tupiniquins, ou ainda menos, em uma cidade fria como Curitiba. O pouco movimento na frente do teatro, minutos antes, comprova essa teoria. Mas naquele dia o clima estava surpreendentemente agradável e você e seus dois amigos bebem suas cervejas, sem pressa e sem a preocupação de perder a oportunidade de pegar um bom lugar para curtir aquele show (ou filme-show, como explicarei depois).

Seu amigo comenta algo sobre nunca ter conhecido uma garota que conhecesse André Abujamra e o estranho é que minutos depois, vocês estão em uma pseudo-fila próximo a entrada do teatro, e na frente de vocês está justamente uma garota, sozinha. Talvez esse seja o momento de dizer que todos estavam ali para ver o espetáculo do próprio André Abujamra. Após uma breve divagação sobre a real existência ou não daquela fila; e a comprovação da garota, agora já com um nome – Sarah, que dizia que após o aparecimento de vocês a fila passou a existir, visto que naquele momento já se viam dezenas de pessoas toda a vez que vocês olhavam pra trás.

Finalmente as portas do teatro se abrem, e ali vão os três, que nesse instante já eram quatro, rumo a seus confortáveis lugares, logo ao centro, há umas quatro fileiras do palco. Detalhes curiosos desse palco: três telões gigantes, uma tela vertical menor num primeiro plano, três caixas de papelão no lado esquerdo, aparentemente vazias e com dizeres em alguma língua desconhecida, atrás delas instrumentos de sopro, esses sim, conhecidos.

Minutos depois e logo após alguma criança chamar um tal “tio-bomba” exatamente naqueles segundos silenciosos que costumam anteceder qualquer espetáculo, o mesmo se inicia. Nos telões, frases, idéias e imagens introduzem o filme-show que todos logo testemunhariam. Em seguida o baterista – esse no palco, dá as primeiras batidas, devidamente sincronizadas com a música vinda dos telões (ou das caixas de som invisíveis). Em segundos, os demais músicos o acompanham. A música é uma espécie de afro beat com pitadas de funk e outros temperos exóticos, no bom sentido. Nos telões, eles declaram que para a execução do projeto, a Petrobrás ou a Ancine não deram um centavo sequer. Palmas da platéia, afinal, ser independente no Brasil não é pra qualquer um.

E eis que surge o homem, em trajes de alguma tribo africana em estado de semi-extinção, solando em sua guitarra, essa sim, já conhecida do velho público. Ele canta, e sua versão agigantada e virtual, canta também, em um dos três telões que nesse momento já se fundiram com o restante do palco, numa espécie de orgia dos sentidos (para usar os temos de Tom Zé, uma mistura entre o cognitivo e o contemplativo). Como se não bastasse, vez ou outra ainda aparecia alguma figura conhecida, um Zeca Baleiro ou um Théo Werneck, logo ao lado do músico, naquele telão vertical menor que mencionei no começo. A projeção nesse caso vinha de trás do palco, o que dava um efeito curioso, quase holográfico, permitindo duetos virtuais pouco prováveis em uma produção modesta, mas ainda sim, extremamente bem feita.

Mas o show não pára por aí, além da originalidade musical, da mistura de ritmos e influências inusitadas, havia ainda espaço para as letras, verdadeiras poesias que versavam sobre um tema fora de moda nos tempos atuais – a alegria. Isso mesmo, a alegria ou na língua e no título do show, apenas Mafaro. Falo isso justamente pelo próprio Abujamra ter sacado que é muito mais fácil ser triste do que alegre, na genial “Lexotan”, parceria com o amigo Baleiro.

Outra sacada muito boa é quando ele canta “O mundo de dentro da gente é maior do que o mundo de fora da gente” em “Imaginação”. Afinal, por maior que o mundo ou esse planeta possa parecer ser, ele sempre será infinitamente menor do que aquele presente na nossa cabeça – onde tudo é possível desde que se tenha um pouco de… Imaginação.

No fim, a platéia aplaude de pé e logo percebe que na verdade, há banda não existe mais, tampouco o próprio Abujamra, já que o show havia chegado ao fim, e na frente só havia os mesmos três telões, onde um senhor previamente gravado dialogava com o público, sedento por um bis que o próprio senhor já havia dito que não iria rolar.

Não sei quando esses três rapazes, ou a garota que eles conheceram, poderão ver novamente um show como esse – definitivamente alguns anos luz dos demais que aparecem por aí. Vou torcer para que seja logo e enquanto isso, resta exercitar a imaginação, já que com ela, podemos reviver esse espetáculo na hora que quisermos. A alegria, a gente inventa também.