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Nos Meus Sonhos Eu Choro

pace_sonhoNos meus sonhos eu choro baldes de lágrimas. Misturo os fatos recentes, acrescento doses de melancolia e pitadas de lembranças tristes do passado remoto. Bato tudo no liquidificador da mente hiperativa e o resultado é um sabor amargo que tento digerir junto com o café da manhã, igualmente amargo, pois o açúcar acabou.  

Fico tentando lembrar dos ingredientes da receita da noite anterior, e tentando entender o porquê de acordar com os olhos cheios d’água. Sem Jung ou Freud para ajudar, sinto que serei o único capaz de decifrar os segredos dessa cozinha maluca, construída aos trancos e com centenas de armários e gavetas, onde são estocados os símbolos e todos os sentimentos que costumo esconder por aí.

A morte do pai do amigo, os porres inconsequentes dos amigos alcoólatras, os recentes “foras”, a mãe em silêncio, o irmão distante, o filme da semana, o ménage a trois, o vício no tabaco, a família americana de outrora, o chefe da época do emprego estável, o pai psicólogo, John Lennon, Chico Buarque e Tom Waits, está tudo lá – sem catalogações ou qualquer tipo de organização mínima que facilite a compreensão e diminua a dor provocada por tantas experiências intensas, ainda que aparentemente sem nexo.

Se meus sonhos fossem algum bicho, ele teria dezenas de cabeças, uma cauda cheia de espinhos e uma pele enrugada cheia de manchas. E se eu acreditasse em demônios, certamente eles fariam parte desses sonhos. Obstinados em confundir e chacoalhar esse baú de emoções fechado a sete chaves em estado de vigília, talvez esses diabinhos sejam mesmo anjos com a missão de higienizar meu cerebelo, provocando sensações incômodas e necessárias para o bom funcionamento desse organismo em constante transformação, ainda que eu esqueça disso em boa parte do tempo.

Espero nunca ter a pretensão de entendê-los integralmente, afinal, os nuances e reflexões múltiplas serão sempre o maior desafio no sofá do psicanalista, capaz apenas de sugerir hipóteses tão reais quanto essa realidade que acreditamos viver.

Nesse universo onírico, infestado por infinitas possibilidades, só posso almejar a compreensão parcial de certos personagens recorrentes, baseado em seus comportamentos que depois de tantos sonhos, se tornaram previsíveis. E se a felicidade parece ausente em boa parte dessas histórias bizarras, talvez seja pelo simples fato de eu não me sentir tão triste assim. Razões e motivos não faltariam, mas decidi em determinado momento que focar nesses aspectos sombrios não seria assim, muito saudável. Prefiro seguir nessa caminhada capenga, tirando lições de cada pedra cruzada e tentando seguir o conselho do velho Dylan, de não olhar pra trás, jamais. Dúvidas não faltarão e talvez a única certeza seja aquela que me faz acreditar e perceber a vida como um emaranhado de símbolos e sensações. O desafio é como a gente se relaciona com eles, seja na rua ou na cama.

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Novo Velho Amor, Me Tire Dessa Rima Fácil

pace_amor“Não, você nunca conseguirá tornar algo novo, de novo.” O refrão da canção da fita demo de M. Ward chama minha atenção. Definitivamente esse pensamento permeia minha mente nas últimas semanas e os motivos são tantos que eu nem perderia meu tempo descrevendo cada um deles. Os envolvidos saberão. Em seguida, os grandes nadadores de lagos cantam sobre escavações em busca de luz em poços escuros ou sobre seguir procurando sussurros no meio dos berros. Yoko vem para me lembrar em seu mantra que eu sou um mar de bondade e um mar de amor, ainda que ultimamente esses mares tenham provocado uma série de ressacas indesejáveis.

Sinto o coração enfraquecer, mas não é como daquela vez que precisei ser fisicamente operado e ter percebido depois que o ritual teria sido em grande parte, espiritual. É algo diferente, uma sensação estranha que faz a gente lembrar daquele imenso buraco dentro do nosso peito, e que precisa ser preenchido por fumaça, como naquela letra do Wilco.

Na cabeça, essa metralhadora de ideias e enganações, os caminhos parecem múltiplos. Porém sinto que dessa vez preciso, de uma vez por todas, confiar em meus instintos, ou apenas me entregar ao oceano de probabilidades impostas pelo universo. Meus miolos cansaram da guerra civil que estavam provocando, precisam de uma bandeira branca que indique a direção. E por favor, não estou falando de novas ideologias, seitas orientais ou apenas um novo guru. Quero falar de coisas reais, pois “mudá-las me interessa mais”, já diria o bigodudo divino.

O mundo mudou, muitas pessoas não se contentam mais com um “relacionamento sério”, ou qualquer outra coisa que isso possa querer dizer, elas querem gritar “somos livres”, ou algo como “não seja tão careta, venha para o poliamor”. Acho realmente lindo que muita gente esteja pensando assim, e confesso que adoro estar nesse tipo de situação, sem envolvimento emocional e sem as nóias de qualquer relacionamento. Mas preciso expressar minha profunda incapacidade de lidar com isso em momentos onde a razão parece alcançar distâncias lunares, e me sinto novamente como aquele adolescente da escola, escrevendo cartas de amor e tentando aos trancos, trazer aquele tal amor de volta, mesmo que seu retorno não represente garantia de paz alguma, afinal, o amor é cego e costuma provocar feridas.

É por isso que amar é brega pra caralho. É filme americano piegas, é novela mexicana e é teatro pro povão. Não importa o quanto queremos afastar esse sentimento chinfrim, ou o quanto nos aproximamos do chamado “amor livre”, um belo dia você acorda e percebe que novamente foi mordido por ele. Atordoado, febril e demente, você tenta fugir, inventar desculpas, dizer pra si mesmo que dessa vez será diferente. No fundo, sinto que as chances disso acontecer são praticamente nulas, pelo menos no atual ponto em que me encontro, e depois de diversas ilusões amorosas e histórias inconclusivas que me fazem seguir amando pessoas do passado, ainda que em menor intensidade.

Posso tentar, mas tem certas coisas que são difíceis de negar, a flecha atravessou meu corpo capenga pela décima vez, provocando sequelas nos “artificiosos brejos da alma”, e o que vai sair disso tudo, só o universo sabe. Lições serão sempre bem vindas, mas quero saber mesmo quando poderei finalmente descansar esse coraçãozinho remendado, e poder focar em outros aspectos reais da vida.

“O amor verdadeiro te encontrará no final”, cantou o Daniel dos demônios, e é com esse sentimento que pretendo conviver o tal peso da existência, ou ao menos essa breve passagem em um planeta aleatório, cheio de contradições, destruições, anomalias e falsa moralidade. Quero ser um, como no discurso de Lynch, para assim, me sentir ainda mais perto de todos os amores que o acaso me deu. Quero ser um, para parar com essa mania de querer uma pessoa só. Quero ser um para que todos sejam meus e eu seja de todos. Quero ser o tipo de brega daquela música tribalista sobre saber namorar, e não o brega das milhões de canções sobre corações despedaçados. Prometo continuar amando seus versos e suas rimas engraçadas de amor, afinal, esse foi o combustível de infinitas fossas.

E enquanto esse amor sublime e universal não vem, seguirei contente com pelo menos um amor verdadeiro, sem rótulos ou grandes amarrações. Só não me deixe com esse silêncio brutal e descompassado com o tamanho do amor que sinto. Mensagens fabricadas não serão suficientes.

E que a paciência seja sempre a minha melhor amiga.

Em tempo, ontem Leonard Cohen partiu. Tenho certeza que esse era um cara que entendia bem desses assuntos.

    

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Domingo de Chuva

chuvaDomingo de chuva, de uma chuva aclamada e pré-anunciada nos rodapés dos jornais, uma chuva esperada pelos fazendeiros e não desejada pelos feirantes e demais vendedores ambulantes, uma chuva típica da montanha e que não adianta ter medo dela, pois “a chuva voltando pra terra traz coisas do ar”. Ainda bem, pois era justamente disso que eu estava precisando.

Curitiba testemunhou o recorde histórico: mais de 90 dias de sol, céu azul e um clima árido típico da capital de um país em declínio e que o baterista argentino tem dificuldade de entender. “Vi domingo passado aquele protesto contra o governo, mas só vi gente de relógio caro, tênis de marca e camisa oficial da seleção brasileira… do que eles estão reclamando mesmo?”.  Meu amigo Mariano, dessa vez vou calar a boca e não serei aquele que te dirá que “a vida é séria e a guerra é dura”, pois quando penso assim, tudo fica tão chato e cinza como os papos dos granfinos ou os discursos pseudo politizados de gente que ainda não entende que as opiniões são como aqueles dados cheios de lados dos tabuleiros imaginários de RPG e que nunca fizeram minha cabeça chata de nordestino, assim como escutava na adolescência.

Na vitrola da sala, João canta sobre o nada e sobre Deus ser um “conceito pelo qual nós medimos nossa dor”, enquanto escuto aquele som neoclássico do aplicativo do momento, algo a ver com aquelas propagandas ridículas das operadoras de celular sobre mensagens ilimitadas, mensagens em que não consigo ver nenhuma vantagem, não nesse domingo de chuva, não nesse momento em que estou cansado, com dores nas costas e com um catarro verde escuro no pulmão e me sentindo grosseiro e estúpido com aqueles que ainda sentem alguma coisa boa por mim.

Será que um dia a gente vai entender que toda essa tecnologia é inútil na tarefa de suprir sentimentos básicos de solidão, carência e insegurança e que cabe a gente lidar com essas merdas sozinho, e não querer jogar isso pro outro ou, ainda pior, tentando se comunicar por um aparelho que foi feito com uma boa intenção, mas que como tudo que o homem ocidental tocou desde sempre, foi transformado em lixo, em guerra, em destruição e em uma má perdição. Sim, por que se perder é bom demais, mas só quando a gente tem essa consciência e sente que não está sendo guiado por um ego maior e ainda mais pervertido.

Estou blue como o disco da Joni Mitchell que agora toca na sala, blue como o piano natalino daquela canção sobre a possibilidade de existir um rio congelado em  que a gente pudesse patinar pra bem longe. E falando em pianos e em tristezas, lembro daquele que está bem atrás de mim, e que já foi responsável por momentos lindos, de alegria, com a minha mãe tocando Fascinação e fazendo a amiga vizinha e que agora corrige meus textos, sentir a felicidade no ar, e logo me lembro de também me sentir bem ao escutar seu filho Pedro ouvindo Ramones no talo quando eu ainda era um moleque mimado e confinado a um condomínio fechado, desses que meu pai tem medo de retornar a morar e, é claro que eu entendo suas razões. Só não entendo por que esse piano que está atrás de mim precisa custar tão caro para voltar a soar afinado,… Malditas cravelhas!

Também não entendo por que a gente segue se apaixonando e acreditando nas pessoas e até na gente mesmo, pra depois vir essa onda blue e eu precisar de um amigo advogado para me lembrar que as pessoas são, no fundo, totalmente egoístas e que essa história de corrente do bem ou das pessoas “do bem” não passa de um marketing pra vender suco natural; ou ainda algum discurso aliciano da classe média alta que nunca viajou tanto pro exterior, mas que agora precisa economizar para pagar direitos trabalhistas e impostos para um governo comunista que insiste em patrocinar a ditadura cubana e roubar os cofres públicos sem sobreavisos ou julgamentos posteriores.

Dr. Gonzo, meu amigo advogado que agora passou a me seguir por aí e me lembrar do lado demoníaco que existe em cada ser, Dr. Gonzo, você sim, será cada vez mais necessário. Já precisei de remédios controlados, de drogas ilegais, rituais orientais e até de iridologia para saber quem eu sou, mas agora, nesse domingo de chuva e nos outros tantos que estão por vir, nesse momento blue e down, sinto que precisarei sim de uma avalanche de papéis, assinaturas, cláusulas, processos, contratos e carimbos de todas as cores, frios ou preferivelmente quentes; ainda que eu continue anarquista ao ponto de odiar todas as formas de burocracia e legislação criadas por esses humanoides, que seguem existindo dentro de mim, para tentar organizar uma massa que não consegue usar o bom senso e o coração nem para sair de casa ou tomar um café, e que segue querendo cada vez mais, sem perceber que o barato da vida não está na “inútil luta contra os galhos”, mas sim no tronco, é lá e somente lá que “está o coringa do baralho”.

Dr. Gonzo, por favor, me ajude a cuidar desses galhos, e obrigado mais uma vez ao baiano que me ensinou a perder o medo da chuva e à outra baiana, a maior de todas, que me fez ter a cabeça chata, chata o suficiente para seguir sonhando e compreendendo que há muito mais para sentir e aprender, ainda que as decepções só cessem por completo quando eu, você e todas as pessoas desse planeta… Sumirem.

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Changes

irisAno passado eu tentei de tudo. A crise era tão braba que decidi parar com quase tudo. Deixei as drogas e o álcool de lado, comecei a praticar yoga, frequentei templos religiosos de várias correntes: espíritas, orientais e afro-brasileiros. Fui a um iridólogo argentino que me passou uma dieta pra lá de radical: 60% dos alimentos deveriam ser crus.

Ele tirou fotos dos meus olhos e me disse “sua pupila está tão dilatada que quase não foi possível tirar essas fotos”, complementando o diagnóstico com “isso é sinal de três fatores: excesso de medicamentos, abuso de drogas ou estresse”. “Seus olhos eram azuis, não eram?” Disse que sim e ele me disse que eles agora estavam cinzas devido ao alto consumo de laticínios. Na parte da íris que representava meus pulmões, havia uma mancha enorme. Fiquei com medo e decidi tentar seguir suas instruções: parei com os laticínios, aumentei a ingestão de frutas, cortei o café e comecei a tomar clorela – um suplemento natural oriundo de algas do oriente, rico em proteínas e uma série de vitaminas. Também comecei a tomar magnésio, valeriana e chás calmantes, além dos chás digestivos. Tomei “banhos vitais”, massageando meu ventre com água gelada enquanto meus pés estavam mergulhados num balde de água quente. Minha insônia era crônica e depois das cápsulas de valeriana, eu até conseguia dormir um pouco, mas acordava no meio da madrugada com a bexiga cheia, corria pro banheiro e urinava litros de xixi.

Tentei tudo que estava ao meu alcance, passei a caminhar no parque quase todos os dias, tomei ayahuasca na casa de amigos, tomei forteviron pra ver se me animava, fiz acupuntura com as fisioterapeutas da minha mãe, fiz shiatsu com um massoterapeuta meio depressivo e troquei de psicólogo. Consultei um cara meio estranho que dizia receber a proteção de mais de 1000 anjos. Quando me benzeu, disse que naquela noite eu sofreria uma grande transformação em meu coração. Pediu que comprasse umas cápsulas para controlar minha circulação e eu comprei. À noite, nada aconteceu. Também comecei a tomar melatonina, um hormônio indutor do sono e proibido no Brasil, mas que, por sorte, um amigo do meu pai, usuário da substância, conseguiu algumas amostras pra mim.

Pensamentos fatalistas corrompiam minha alma e tiravam meu sono, esvaziando qualquer tipo de sentimento ou emoção. Eu estava oco como um coco e burro como uma porta. Negatividade e Miséria eram minhas companheiras. O peso do vazio existencial havia caído sobre meus ombros, impossibilitando meus pés de seguirem caminhando.

Perdi quase 10 quilos nessa história toda, saí de um relacionamento de quase dois anos, enxuguei uma lágrima e meditei. Tirei a barba de quase três anos e quando me dei conta, já não era a mesma pessoa de antes. A felicidade bateu novamente na minha porta e eu a mandei entrar e pedi que, se possível, continuasse sempre ao meu lado. Não sei dizer ao certo o que realmente me ajudou, se foram as dicas do iridólogo argentino, as mudanças de hábito, os suplementos, as massagens, os banhos vitais, as práticas de yoga, o cara dos 1000 anjos, a melatonina, as caminhadas no parque, as rezas japonesas e os passes nos centros espíritas ou as meditações matutinas. Só sei que hoje me sinto diferente, cercado de cores vibrantes e de ondas positivas.

Mudei. 

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A Solitude de Pedro José

leemorganSexta feira, dia de farrear, rever os amigos, azarar as gurias, beber até cair, dançar e todas essas coisas próprias da mocidade, mas que pra ele não vinham fazendo sentido desde tempos remotos.

Nessa sexta, Pedro José preferirá o aconchego de seu antigo lar, sem interferências externas, sem o brilho da expectativa de mais uma noite na rua e sem os encantos, por vezes decadentes, mas que ainda assim tanto o excitaram em outras épocas, de fato, mais alegres e menos compromissadas.

Nessa noite em que milhares de pessoas tentarão a sorte grande em esquinas tortas, baladas da moda, bares de sempre, festas em apartamentos de amigos ou ainda em reuniões informais com colegas de trabalho; Pedro José não verá e nem falará com ninguém. Beberá um vinho sozinho, escutará pela centésima vez a levada do piano que acompanha Lee Morgan e seu trompete hipnotizante, enquanto fumará o tabaco fabricado por seus dedos de menina. Tudo parte de um ritual desgastado e feito para gerar pensamentos delirantes e distantes de qualquer objetividade, meras projeções de uma mente castigada, fatigada e dilacerada nas cotidianidades da cidade e nas profundezas de seu coração remendado, amplificadas por noites mal dormidas e manhãs arrastadas.

Aturdido pela solitude autoimposta, ele se lembrará de seu passado construído aos trancos. Nesse momento, boa parte de suas escolhas parecerão fugazes e carecerão de significados. E é só depois de incessantes cavadas que ele conseguirá vislumbrar os feixes de luz que o fizeram sentir-se parte de algo maior que sua própria carne – a cada dia mais leve em números. E é nessas rachaduras, por onde a luz entra (para não deixar de parafrasear um de seus mestres) que Pedro José encontrará conforto, absorto na ideia cíclica de que tudo ou, ao menos o essencial, retornará ao tempo presente.

 

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Nada Sai, Tudo Fica

nevecuritibaNada sai, tudo fica. O velho bebum pede um cigarro no toldo do bar dos barbudos e pergunta onde fica o SAS ou FAS ou como chamamos aquele lugar para onde vão os mendigos abandonados, alcoólatras, drogados sem família? Ah, fica perto de casa, o senhor vai por ali, pega a direita, desce e vai ali, como quem vai pro Guadalupe, saca? Ah, cê também quer um gole da minha bebida? Vai fundo, o canudo a gente separa depois, pois minha mulher analisou seus lábios e me disse que eles estão todos fodidos, cheios de bactérias que podem parar meu coração, pesado de tanta aflição.

No minuto seguinte, a kombi do FAS passa rapidamente pela frente desses jovens cada vez mais velhos e mais ricos e sacanas. Depois passa lentamente na frente do velho bebum que a cada dia fica mais sóbrio e mais pobre e sábio, pois quem iria imaginar que naquela madrugada, ventos fortes e trovões escandalosos carregariam chuva e frio e aquela tal frente fria, que sempre vem lá da Argentina.

E assim, pelo menos na manhã seguinte, o velho bebum da rua, estaria fora dela e de quebra, quem sabe até recebesse um cobertor, um café, ou, ao menos, outro cigarro.

Nada sai, tudo fica. O nova-iorquino e sua namorada-esposa decidem trocar de extremos geográficos, pegando o carro e partindo para Oregon, onde a natureza é bela, o ar é mais puro e a maconha é a melhor dos Estados Unidos da América. E “quase” legal. No momento eles estão no meio do país, em algum motel de beira de estrada, estranhando a grande quantidade de caminhões transportando gado e tantos cartazes dos religiosos fervorosos. Por lá, Jesus e hambúrgueres continuam sendo os campeões de vendas.

Na TV sem cabo, policiais psicopatas do caso “Tainá” são presos, ou pelo menos é isso que o apresentador sempre esquentadão procura noticiar. Parece que tem delegado tentando fugir. No canal da família brasileira, detalhes das torturas são poupados e o Papa vem aí.

Nada sai, tudo fica. No parque do outro lado da rua, capivaras giram e se roçam na grama, meio preguiçosas, esses simpáticos ratões relaxam após o almoço no parque menos movimentado da cidade. No lago, o pássaro branco segue solitário e deprimente, de bico baixo por algum motivo nobre ou ordinário.

Nos relógios, os mesmos números, nos ouvidos Dizzy tagarela, tudo sempre vindo e ficando em desordenados blocos de pensamentos, com ou sem lógica aparente e quase sempre jogados em alguma gaveta da mente. Nesse dia, sonhos se despedaçam e há cheiro de desespero por todos os lados, mas é tudo como um sopro repentino ou como os trovões escandalosos anunciando a possibilidade de neve na capital.

Nesse dia em especial, ideias fatalistas se misturam com sentimentos de saudade, fraqueza e tristeza. O abismo da incapacidade se aproxima, enquanto o barril das frustrações parece querer transbordar. Nesse dia, nesse dia em especial e não em todos os outros, nada sai, tudo fica. Do contrário, já estaria morto.

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Artistas da Vida

florenceeanaA semana (*) é dela e não poderia ser de outra maneira. Já no primeiro dia coincide com o dia das mães. Mas ninguém quer saber dessas coisas e não falo das mães, lembradas aos montes em feicebuques e outras coqueluches da moda, mas dessa outra figura que nos acompanha desde o nosso nascimento até o apagar das luzes, como diria o mesmo senhor que fala “coqueluche”.

E é justamente dessas coisas que eu quero falar, desse papo de morte e doença, de sofrimento e de dor de tudo que é jeito – sobre essas coisas que ninguém quer saber demais, exceto ela. Ela, eu e algum ou outro grupo gótico/artístico/espiritual. E por ela, não digo todas, pois gente ruim tem em todo lugar, porém onde há uma, há sempre algum tipo de esperança.

Talvez você que esteja lendo este texto, seja mais uma e aí, definitivamente o mundo ainda tem salvação. Ou, talvez, você já tenha perdido o interesse, já que essa introdução acabou saindo maior que a encomenda. E olha que tem mais.

Houve pelo menos duas, que apesar de mortas, continuam mais vivas do que nunca e costumam aparecer nas primeiras páginas de qualquer livro sobre o assunto. A primeira me lembrou aquela banda moderninha dos clipes coloridos e cheios de fantasia, e sinceramente continuo pensando que o nome desse grupo tem muito a ver com outro exemplo de mulher pioneira no mundo e que agora até virou santa: a inglesa Florence Nightingale, a “dama da lâmpada” que revolucionou a enfermagem, homenageada em poemas de época e em filmes mais recentes.

Sim, ela, como a banda citada, lutou contra uma máquina muito maior do que ela, as tais forças contrárias e destruidoras de sonhos, velhas conhecidas desde sempre.

E a segunda também não é diferente: Ana Néri saiu do interior da Bahia e foi parar na terra dos gaúchos e dos paraguaios, aprendendo com as “irmãs de caridade”, antigas e talvez eternas enfermeiras – ao lado das prostitutas, eternas psicólogas, empresárias,…

Ana Néri também foi pioneira e revolucionou a enfermagem em terras tupiniquins e esse termo também de gente velha me fez lembrar os indígenas que, por aqui, foram os primeiros na profissão. Profissão que Florence e Ana ajudaram a criar, da forma que conhecemos, ou pior, desconhecemos hoje em dia.

Mas essa ignorância coletiva tem suas desculpas. Afinal, como já disse aí em cima, é muito chato falar de gente doente, hospitais, ambulâncias e necrotérios. Bom mesmo é quando o assunto “saúde” fica nas clínicas de estética, academias, encontros de ciclistas e nos restaurantes orgânicos.

Em 1858, na época em que Florence e Ana davam seus saltos, a definição da profissão já era espantosa, no bom sentido: “colocar o paciente na melhor condição para que a natureza atue sobre ele”. Sim, é pra refletir, como os artistas, filósofos e sábios costumam fazer.

E é numa canção de Lila Downs, a mexicana das canções do filme de Frida Kahlo, que também defino essa antiga profissão que clama por novos significados:

“Y ella es flama que se eleva,

Y es un pájaro a volar,

En la noche que se incendia,

Estrella de oscuridad..”

Sim, ela, a Enfermeira (com toda a nobreza que uma letra maiúscula e essa profissão deveriam ter), é a estrela de esperança que aparece nos momentos de escuridão e está muito mais próxima da arte que muitos moleques com uma câmera, pincel, violão, mouse ou um papel na mão jamais poderão chegar.

Ela é a artista da vida, desdobrando-se para deixar seu paciente ou cliente ou qualquer nome que a literatura queira usar, bem, tranquilo e consciente de que ele não está sozinho. Saem os quadros e as canções e entram as seringas, os cremes, as dietas e as medicações. E naturalmente vem a compaixão, sentimento nobre e único e meio fora de hora.

Florence abdicou de seus prêmios e honrarias para fazer apenas o que ela julgava ser sua missão, um chamado divino depois de anos de perdição e de superficialidades que seu berço de ouro havia lhe proporcionado. Não casou em tempos em que esposas eram escravas, mas também por ser apegada ao mesmo mal de que sofrem os ditos artistas – sua liberdade.

Ana, ainda jovem, perdeu seu marido para os mares, criando, sozinha, seus três filhos e depois perdendo um deles na mesma guerra em que lutara nos hospitais militares por que passou, chegando a ser chamada de a “Mãe dos brasileiros”.

Florence e Ana foram, acima de tudo, artistas da vida, alçadas a “santas” pelos exemplos e pelas tantas histórias que contam por aí, mas, principalmente, por construírem o chão dessa nobre profissão, simplificada e estereotipada por gente como eu e você, que, sem saber, precisou, desde cedo, do apoio e do amor de uma… Enfermeira! **

 

* A semana da enfermagem no Brasil se inicia no dia 12 de maio, data em que Florence Nightingale nasceu, e termina no dia 20, data em que Ana Néri morreu.

** O termo no feminino é mais um estereótipo que vem mudando, já que, aos poucos, homens também têm exercido a profissão, com igual louvor.