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O Sonho Mais Impressionante de Toda a Minha Vida

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Caí da cama cedo, como raramente faço, após sonhar o sonho mais impressionante de toda a minha vida. Quando abri os olhos pela primeira vez senti vontade de dormir mais, sentia que era demasiado cedo para despertar, mas o sonho tinha sido louco demais para eu esquecê-lo assim, numa provável substituição por algum novo sonho fabricado por esse laboratório infinito e amoral chamado inconsciente.

É claro que não vou lembrar exatamente como esse sonho começou. Me recordo que nos primeiros instantes minha primeira namorada havia reaparecido e esboçava um evidente interesse em mim, após divorciar-se de seu marido, com quem tivera dois filhos. E foi essa imagem simbólica daquele primeiro amor inocente e completo que fez eu ter esperanças naquele universo onde as memórias se misturam e seguem criando novas histórias, muito mais interessantes do que essas que costumamos viver no dia-a-dia.  

O cenário assustava. Por algum motivo que eu também não vou conseguir lembrar agora, fui obrigado a participar de uma bizarra seita, onde eu parecia ser o único ser consciente do tamanho do absurdo que aquilo representava. Vivíamos em um templo majestoso, um palácio de dimensões medievais e com centenas de quartos. Suspeitei que além dos comprimidos oferecidos diariamente como se fossem alguma benção milagrosa, eles também estavam botando algum tipo de droga na nossa comida, manipulando nossas mentes para acreditar que tudo aquilo era pro bem ou qualquer outra merda do gênero.

Lembro de dois momentos em que tentei alertar pessoas de fora da seita, amigos que não vejo faz tempo, mas que em meus sonhos costumam ser personagens recorrentes. Havia um trem e um dos comissários era um dos cabeças desse clã do djanho, avisei Joana e tentei fugir, mas o cara foi mais rápido e em segundos eu estava novamente lá, naquele maldito palácio de ilusões. Nas reuniões matinais, para a introdução de novos membros e outras baboseiras típicas dessa gente, eu olhava para todos os cantos daquele imenso salão à procura da minha primeira namoradinha, sempre achando que quando a encontrasse todo aquele pesadelo acabaria em final feliz.

O engraçado foi encontrar não ela, mas uma outra menina de uma época ainda mais antiga, dos tempos de colégio e de quando eu pirava numa garotinha loira e cheia de malandragem pra idade em que eu ainda era bem tímido e não passava de um completo nerd mimado cheio de espinhas. Reencontrei essa pessoa algumas vezes, sempre pela noite, em alguma festa ou bar da cidade. No sonho ela pegou na minha mão, me levou para um quarto, tiramos a roupa e ela me disse no pé do ouvido: “Pode gozar, mas apenas uma vez.“

E assim o sonho seguiu seu rumo obscuro pelos caminhos da memória afetiva ou qualquer outro nome que os psicólogos querem dar. Em outro lapso de tempo, eu estava na frente da primeira casa que morei, local onde nasci e cresci até os 21 anos, quando finalmente eu decidi começar outra história, sem meus pais por perto. Reparei que havia colchões com texturas estranhas colocados na garagem e num sinal de que alguém estivesse se mudando para lá. Não entendia o que estava acontecendo, mas a curiosidade somada com um sentimento de alegria plena apenas por estar ali novamente, na casa onde eu cresci, e ainda com uma ínfima possibilidade de rever meus pais juntos, todo aquele retrato de uma infância feliz e que ficou pra trás, tudo aquilo me fez chorar de emoção! Adentrei o saudoso lar e ao invés de encontrar meus pais como gostaria, vi primeiro o marido da minha prima da Bahia, ajeitando a mesa e em seguida essa mesma prima vem e me abraça. Senti uma tristeza enorme no peito, como se aquilo fosse alguma representação da morte dos meus pais. De fato eu estava mesmo navegando em mares escuros de algum pesadelo da mente, mas o bacana era que em muitos momentos eu sabia que aquilo não era realidade, no máximo algum episódio estilo Black Mirror no qual a minha vida teria inspirado roteiristas endiabrados, capazes de provocar um tremendo mindfuck para o único espectador presente na plateia, euzinho, ou como descrito por famosos psicanalistas, o sonho foi lúcido.

Logo retornei para aquele cenário pseudo religioso e agora meus amigos atuais, Henrique e Anderson eram os novos membros da seita. Ao contrário de mim, eles pareciam contentes em fazer parte daquela palhaçada, me diziam que haviam encontrado um sentido pra vida e que estavam adorando a rotina e as brincadeiras perpetuadas ali.

No final, quando pensei que tinha conseguido me livrar daqueles malucos, caminhei pela rua XV e vi pelo menos outros quarenta grupos coloridos e que repetiam frases clássicas “Deus é Amor“ ou “Venha com a gente e garanta seu lugar no paraíso“. Cada seita tinha uma cor predominante em seu figurino e sorrisos emoldurados em todos seus fiéis, num lance meio hare krishna que já vemos por aí. Fiquei apavorado com aquela percepção de que o mundo havia sido tomado por gananciosos líderes religiosos e que as pessoas estavam mesmo comprando aquelas ideias estúpidas.

Minha última recordação foi um breve diálogo com algum outro amigo. Falávamos sobre Deus e de como cada ser possui um Deus dentro de si, mas que era justamente ali que morava o perigo. Afinal, se podemos criar o que quisermos, também podemos criar seitas com o intuito de provarmos nosso poder, apenas como forma de divertimento pessoal.

E como leremos no início da nossa série favorita, qualquer relação com personagens da vida real será sempre mais uma coincidência.  

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Fragmentos de uma noite doce

pace_luaA noite aterrissou em minha cabeça em estilo pouso forçado, sem avisos luminosos ou máscaras de oxigênio. Era sexta, a lua estava cheia e apesar do anúncio dos astrólogos, ninguém estava preparado para aquela avalanche de sentimentos e piruetas potencializadas por agentes químicos interestelares. “O calendário resumiu-se a quase um mês”, culpa do garoto maroto com sono.

Pra mim, a noite era de despedidas, as argentinas retornariam finalmente para seu país de origem, após um mês de viagens não programadas, iniciadas na rodoviária mais caótica da América do Sul. Um caminho torto envolvendo cataratas avassaladoras, ilhas desertas sem proteção solar, romances estranhos e uma porção de dias na casa dos malucos, na cidade do poeta maldito mais pop do Brasil.  

Na casa o clima era de festa, daquelas improvisadas, sem convidados especiais ou atrações confirmadas, apenas cervejas, violões e os loucos de sempre: verdadeiras espécies em extinção, abelhas e sabiás de terras desconhecidas. Volumosas risadas nos guiaram em direção à natureza mais próxima, uma espécie de universidade às avessas, sem professores ou alunos, apenas mato, bichos, um lago e uma pedreira nos protegendo dos ventos gélidos e das energias pesadas oriundas da capital.

No palco principal a atriz, mais bela e ancestral que se tem notícia, protagonizava o show espacial, com a ajuda de um coro de figurantes esfumaçados que insistiam em transitar na sua frente. Na Terra o pré-carnaval da trupe beltrâmica rolava na beira da lagoa escura distante do abaeté, e próxima dos adolescentes embebedados por catuaba e pelo velho som eletrônico das antigas raves. Enquanto isso, na roda fervística, homenageávamos o mestre Caetano e suas transas revisitadas: pérolas históricas das canções populares eternizadas em nossos corações, vagabundos desde sempre.

Tamanha beleza só poderia ser contraposta pelos rostos derretidos dos meus amigos. Sem eles a viagem seria em vão e não passaria de uma mera egotrip por mares já navegados.

Na volta lá pelas cinco da matina, o choque abrupto com uma imensa muralha de realidade: nosso amigo e novo residente da casa havia tentado se matar de uma maneira pouco criativa. Com a cabeça cheia de boletas e biritas e com uma depressão aguda nas costas, Nardo se viu no fundo de um corredor de desesperanças, pronto para desistir. Felizmente seus amigos – quatro especificamente que ficaram na casa e mais um que também ficou na casa, mas que por motivos explicáveis não poderia ajudar muito – esses quatro anjos disfarçados de malucos promoveram o resgate de Nardo, com o auxílio de mais três números de telefone e um casal de enfermeiros buena onda.

Nos segundos anteriores às primeiras horas merecidas de sono, quando a cuca tenta compreender o incompreensível, realizando suas bilhões de conexões e cálculos matemáticos sem lógica aparente, talvez nesses breves segundos de lucidez em que a mente por fim para de mentir, refaço os traços da noite e acordo com um desenho de Dali sendo levado pelo vento do esquecimento. E antes que ele fuja pela janela, me esforço para prendê-lo nessa jaula de memórias proibidas, chamada crônica.

 

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Pra Não Dizer Que Não Falei Das Empanadas

pace_buenosHá algo de belo na decadente Buenos Aires. Não está nas calles, cheias de lixo e com cheiro de mierda. Não está na antipatia “porteña”, do motorista de ônibus ao garçom, sempre com cara de cu. Não está na política, na economia ou no governo que envergonha seus habitantes menos abastados. Não está na falta de faso ou na sobra de merca.

Há algo de belo na cosmopolita Buenos Aires. Não está nos parques agora cercados ou nos boliches cada vez mais caros. Não está nos arredores da rodoviária mais grande e mais feia da América do Sul. E definitivamente não está na comida cheia de farinha branca, açúcar e carne. Muito menos naquele obelisco.

Há sim algo de belo na bagunçada Buenos Aires. É preciso procurar, vasculhar e cavar fundo. Sua beleza não é extravagante como as praias do Rio ou as montanhas de La Paz. É uma beleza meio escondida, meio camuflada, uma beleza centenária e descrita por seus poetas e “nobel” escritores. Talvez seja aí que reside a dificuldade de encontrarmos beleza nessa cidade. Talvez seja preciso ser poeta ou dono de algum espírito livre para enxergá-la.

Em tempos modernos, é bem provável que ela passe na sua frente enquanto você esteja respondendo alguma mensagem no celular.

Poderia citar pistas, lugares mais específicos, ou regalar mapas rabiscados. Poderia fazer comparações arriscadas, algo que aproxime as antigas garotas de Ipanema com as novas cocotas de Palermo. A verdade é que não existe uma fórmula. Mas sinto que encontrei essa beleza em algum canto sombrio de mais uma eterna madrugada. Algo a ver com a dramaticidade de seus tangos, a alegria de suas cumbias e a melancolia de suas milongas.

E só posso dizer que a beleza de Buenos Aires é amarga como seu fernet e doce como seu alfajor. Assim, posso concluir que é um tipo de beleza adulta, um fetiche que só será apreciado em sua totalidade por poucos. Quem sabe essa seja a sina dessa capital latina.

Pros demais, ainda existe o dulce de leche, as empanadas, a Recoleta, El Caminito e as churrascarias de Puerto Madero cheias de brasileiros.  

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Colômbia e Outras Doideiras

pace_peligroE lá estava ele, com sua mochila 5 anos mais velha e de novo na cidade da eterna primavera, a encantadora e confundida Medellin. Mas antes, ele precisou passar por uma série de truculências, algo que ver com identidades perdidas, documentos do arco da velha, passaportes de emergência e algumas centenas de reais a mais. Seu regresso à capital das flores e dos natais fora como a sua antiga viagem, sem planos ou compromissos premeditados. Previamente ele já havia passado por Bogotá, Cartagena e Santa Marta, e seu único intuito até então era reencontrar a holandesa de seu passado, mas foi no caminho entre Cartagena e Santa Marta que ele conheceu a futura mulher de seus sonhos.

A conversa foi ininterrupta e logo Pedro José percebeu que seu coração remendado estava novamente pulsando em ritmo frenético, como uma típica salsa colombiana, daquelas onde o suor encharca a pele e apesar das dezenas de dançarinos ao seu redor, a pista parece ser só sua e dela. Maria era seu nome.

Demorou alguns flashes de segundos para Pedro José entender o significado mágico que fez com que ele precisasse passar por tantas linhas tortas para chegar naquele sagrado espaço-tempo, ou mais precisamente naquela estrada costeira ligando duas cidades caribenhas; e essa van só existiu devido a incompetência da empresa aérea, em tempos mórbidos onde a aparente falta de combustível havia feito dezenas de vítimas justamente no dia em que Pedro estaria embarcando. Medellin estaria novamente nos noticiários, não mais pelo famoso Pablo, mas por uma tragédia aéreo-futebolística de dimensões intercontinentais.

Pedro não tinha muito a ver com essa história e talvez o máximo que ele pudesse informar sobre sua missão humanitária de proporções microcósmicas, era que a razão por detrás do pretexto de revisitar o país de outrora, talvez fosse mesmo encontrar a mulher dos seus futuros sonhos.

Ainda que esse filme latino não possua uma data oficial de lançamento, sua sinopse começou a ser escrita 5 anos atrás, pelas mãos de um jovem trintão de saco cheio com o emprego estável, os amores fracassados e um coração que precisava ser operado. A storyline diria algo assim: “Maria parece entediada com sua relação duradoura e cada vez mais fria. Pedro só quer ser feliz sozinho ou ao lado de alguém que não o pressione, seja no Brasil, na Colômbia ou mesmo em Cuba. Será a distância o velho empecilho?”.

Bogotá continua efervescente com seus bares na Candelaria, seus malandros aclimatados com a altitude, oferecendo erva e a “caspa do diabo” a preços tão convidativos capazes de converter europeus em Maradonas em questão de horas. Nas vielas a arte de rua pulsa vibrante como as curvas de Botero ou o fantástico realismo de Marques. Gringos are everywhere, e para isso um batalhão de policiais fluorescentes garantirão a falsa segurança que todos buscam. Nas calles é possível encontrar fatias de pizza por 80 centavos, arepas de choclo con quesito e mais um milhão de buñuelos quentinhos, para acompanhar a avena caseira ou o guarapo, tudo barateza. Na noite é melhor se esquentar com o canelazo, a aguardiente com gosto de anis ou o rum típico daquelas bandas.

A costa segue respirando reggaeton e é bem possível que você encontrará em uma buseta algum rapaz munido de uma caixa sonora presa ao seu corpo, cantando os últimos sucessos desse gênero popular que tomou conta da América Latina. O funk carioca está para o Brasil assim como o reggaeton está para o restante do continente, e isso ninguém mais discute.

Porém a verdadeira paixão de Pedro José reside em Medellin. Foi lá que ele passou dois meses de sua vida mochileira, por entre bares subterrâneos de salsa, esculturas obesas, varetos intermináveis, suspensas linhas de metrô e uma porção de paisas gente boa pra caralho. Para ele, Medellin continuava brilhando e talvez mais do que nunca, já que as luzes naturais deste vale haviam recebido um tremendo reforço, com o objetivo de iluminar o natal mais colorido daquele país.

A estrada até a Colômbia é longa, tortuosa e cheia de paramilitares e paralelepípedos, mas tenho certeza que isso não impedirá Pedro José de seguir sonhando. E ainda que essa história soe como mais um conto infanto-juvenil no meio de uma época obscura onde diplomatas são assassinados em galerias de arte e caminhões atropelam e matam uma dúzia de compradores.

 

Que venha o natal e um 2017 menos catastrófico, se possível.

 

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Fervendo nas Letras

saothomeNo ônibus, o ar condensado constrói um elo energético entre os passageiros. Um bafo quente que serve de escudo para a madrugada fria ou qualquer fenômeno climático típico das estradas da vida. Era o retorno de mais uma viagem para o santo das letras: reduto de hippies, hipongas, hipsters, geólogos, historiadores, e uma porção de curiosos. Desta vez, o capitão responsável pela missão “fervística” recebia a alcunha de “guerreiro”. Em sua bagagem, milhares de quilômetros e de histórias interestaduais transportando malucos “com tudo” para picos estranhos onde a fervura não pára. E não poderia deixar de citar nessa breve introdução, os “truquezinhos” do nosso nobre comandante, verdadeiros coringas para a monotonia e o baixo astral. Mas também não perderei tempo tentando explicá-los, uma vez que só estando ao seu lado para compreender a grandeza poética presente nessa sábia palavra, ou gíria inventada.

Não sei exatamente se foi o calor provocado pelas janelas fechadas, as inspirações esfumaçadas vindas do novo parceiro de poltrona, ou talvez algum resquício lisérgico dos últimos dias, mas algo naquele ônibus travestido me fez olhar pra trás, numa ingênua tentativa de entender o que foram aqueles últimos dias, e porquê tudo parecia ter acontecido tão depressa, como um cigarro que se apaga ao vento.

Deve haver algo profundamente místico nesse vilarejo mineiro, talvez o mesmo magnetismo obscuro que faz os carros subirem ladeiras, e que atrai uma infinita variedade de doidões para um pedaço de terra feito com pedras brancas só vistas ali. E se a ilusão de ótica é a resposta pronta dos pseudo cientistas para as tais ladeiras, o que dizer das músicas que saem dos rádios de todos os cantos, sempre de qualidade e surpreendendo os ouvidos mais atentos. A pirâmide foi criada por seres extraterrestres e isso a gente não discute mais.

As chacoalhadas do busão seguem conectando neurônios adormecidos e trazendo lembranças de mais um feriado prolongado de um sete de setembro atípico, sem chuvas e com um sol vermelho de arrepiar. Na praça central, ao lado da gruta engraçada, havia um café. Ali conheci Joseph, um músico inglês que estava morando há 9 meses naquele lugar. Stones, Beatles, Cat Stevens, Neil Young e Tom Waits eram algumas das pérolas tocadas por Joseph, além das suas canções próprias. Mas foi no intervalo, entre cigarros, que descobri sua real vocação. Joseph era capaz de conversar com seu eu do passado ou seu eu do futuro, e era assim que ele compunha suas músicas. “O tempo não é linear como nos contam”, dizia ele. E ainda no mesmo recinto, Aninha ainda me apresentou para sua mais nova paixão – um senhor de 71 anos chamado Estélio e que havia feito parte do saudoso “partidão”. Hoje o senhor com aparência amigável semelhante ao Jorge Amado, seguia sua militância esquerdista, em seu carro adesivado cheio de santinhos vermelhos. “Temos muito o que Temer”, provavelmente teria dito ele, sob a sombra de uma ditadura que o perseguira tempos atrás e que agora parece ter virado novamente o assunto das mesas de bar.

São Thomé é das letras, das pedras, dos cogumelos, dos et’s, dos cachorros de rua e dos hippies de espírito livre. Durante quase uma semana, São Thomé também foi o cenário paradisíaco para uma trupe curitibana que incluía um argentino louco, um bebê e uma garota com uma suposta caxumba. Jovens de todas as idades em busca de fervo intenso, com direito a truquezinhos e muitas risadas no caminho.

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Meditações e Vicissitudes V.I.P…

pace_2016_01_forestJá não consigo lembrar se esse é o quinto ou o sexto dia. Escutei o sino e segui no caminho empedrado rumo ao humilde refeitório dos panos aparentemente sujos. Atrás de mim, seguiam outros caras, rostos que não eram mais desconhecidos, mas que seguiam calados, em completo silêncio conforme as instruções de outrora. As identidades permaneciam ocultas e eram, nos momentos comunitários em que minha cabeça se mantinha ocupada, numa tentativa minimamente criativa de imaginar personagens, reafirmando os velhos arquétipos presentes em sociedades dispersas pelo mundo afora.  Um retiro “nas montanhas da Serra do Tinguá” não seria diferente.

Transcorridos os primeiros dias e as primeiras indagações associadas aos fatos raros: sobre o isolamento, o silêncio, a segregação e a disciplina, ou ainda sobre a ausência dos tais estímulos externos; em seguida começo a recordar como escolhi estar aqui e como é importante eu seguir a corrente proposta, ainda que não consiga visualizar o final desse rio absorto em velhas novidades.

São quatro da matina e o sino toca. É hora de levantar, urinar e lavar os olhos remelados. No caminho escuro, vejo a aranha tropical e o medo da criança que ainda ecoa nesses instantes. O fluxo lento e preguiçoso dos companheiros me leva à sala de meditação, com suas mil almofadas e uma energia pacificadora normalmente constante nesses espaços. Sento em algumas dessas almofadas apostadas ao moderno banquinho emprestado. Medito, ou devo dizer, tento meditar, ainda que existam distrações e talvez a maior delas seja lidar com o tremendo sono que sinto às quatro e meia da manhã.

Confesso que por vezes me senti ligeiramente incomodado com a chegada de alguns retardatários. Mas quem sou eu para tecer qualquer tipo de crítica sobre eles, pois sentia que mais cedo ou mais tarde eu faria parte desse mesmo grupo; afinal, para alguém que havia meditado poucas dezenas de vezes na vida e por vinte minutos nos melhores casos, estar meditando por seis ou sete horas por dia parecia ser o suficiente.

Nos breves intervalos, as placas limitadoras encurtavam as caminhadas exploradoras: da bendita sala ao banheiro, do banheiro ao bebedouro, do bebedouro aos arredores dos dormitórios e desses arredores ao quarto. No aposento dividido com outros dois parceiros mudos, a sensação é sempre estranha. A falta de palavras parece ser substituída pela comunicação corporal não visual, exacerbada em cada virada de lado da cama ou em cada levantada, mesmo que houvesse a preocupação excessiva de não incomodar os colegas.

Colegas estranhos: hippies cabeludos travestidos de jovens budas, surfistas australianos, gigantes alemães de saia, garotos mimados em busca de aventura, quarentões faxinando antigos karmas, curitibanos heteronormativos, cariocas linguarudos, xarás, geeks e toda sorte de freaks, espiritualistas e curiosos.

No meio desse pastiche, me sinto novamente em casa. Uma casa vazia e incolor, mas com o mínimo conforto necessário para recomeçar. Uma casa inexistente há pelo menos cinco meses ou o tempo do último texto desse blog capenga sobre esse tal rapaz latinoamericano sem mapas, mas com muitos documentos e responsabilidades pra zelar. Em um mundo inventado – ainda que seus limites sejam tão reais quanto o golpe político que seu país atravessa, ainda que ele só tenha ficado sabendo disso dias depois, no melhor estilo Adeus, Lenin. Ou como diria Donny no seu filme favorito, “I am the Walrus”.

Chega de saudade, a lei da impermeabilidade jamais será esquecida. Obrigado Dhamma, foi massa conhecê-lo mais de perto.

E que venham as tais vicissitudes, algo a ver com policiais sacanas, enfermeiras inexperientes, cuidadoras e uma mãe iluminada que descansa na serenidade de seu lar.

Meu pai estava certo, meditar é bom.

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Tibagi Fica Logo Aqui

tibagiRubens Ewald Filho ou a Enciclopédia Cinematográfica Ambulante diz que a crítica deve ser escrita no mesmo dia da projeção, pois parece que quanto mais tempo passa, mais ela se esvai, encontrando morada nos becos escuros daquilo que costumamos chamar de inconsciente.

Não sei se é assim com as crônicas, só sei que esse maravilhoso sol de outono me fez lembrar a viagem do último feriado ao lado de Letícia e de uma porção de seres verdes ao nosso redor. Atravessamos a rua de casa, adentramos o feixe de luz e fomos lançados, sem sobreavisos, a uma rodoviária interiorana sem coxinhas ou máquinas de cartão. No ponto de táxi, centenas de carros estacionados, porém todos invisíveis ao nosso olhar. Estávamos em Tibagi, era feriado e, com exceção do senhor de chapéu e botas caminhando lentamente pela rua empoeirada, não havia nada naquele local que representasse qualquer tipo de movimento. Táxi? Só pedindo pro moço das passagens chamá-lo no telégrafo falante.

Com aproximadamente vinte mil habitantes e sete taxistas, Tibagi possui a maior área total do estado, com quase três mil quilômetros de extensão. Mas antes que essa crônica se transforme em mais um trabalho de escola copiado do Google, é importante frisar a história desse povoado que, durante muito tempo, atraiu aventureiros paulistas e curitibanos, sempre atrás do ouro e das pedras preciosas escondidas no rio… Tibagi.

Séculos se passaram e eis que agora a cidade recebe a visita nada ilustre de um casal sem grandes planos ou a promessa do dinheiro fácil, apenas em busca de sossego. Um sossego necessário após dias de ansiedade, correria e brigas matrimoniais capazes de fabricar lágrimas nos corações de algumas pessoas. Mas nada que alguns dias, contemplando o absoluto nada, não possam acalmar as mentes aflitas, contaminadas pelas paranoias do perímetro urbano. E por nada, na verdade, eu quero dizer tudo. Pois é na natureza que o tudo ou o todo conseguem fazer algum sentido. É no horizonte distante, sem humanos ou construções, e formado por uma profunda ravina composta por “escarpas ou falésias”, que o olhar descansa e encontra aquele sentimento utópico que os monges chamam de paz.

E se a paz é alcançada pela retina, o êxtase silencioso é provocado pelos sons oriundos dessa mesma natureza: do vento batendo nas árvores, dos cavalos soltos no pasto, das galinhas e dos pássaros e dos grilos e dos gatos e dos cachorros de estimação. A paisagem agrada, mas melhor do que isso, só estando dentro da pintura para sentirmos que a vida, apesar das distrações materiais, segue plena, especialmente naqueles lugares onde o homem costuma passar longe.

Tibagi é um desses lugares, vinte mil pessoas para três mil quilômetros. Em um mundo super-povoado, Tibagi é o paraíso e fica logo na esquina, a duzentos mil metros de Curitiba. Com Letícia, precisamos caminhar mais oito mil metros para chegarmos ao cânion mais famoso da região, reconhecido internacionalmente pela alcunha de Guartelá. Até lá penamos, podes crer, principalmente por sermos forasteiros despreparados e acostumados com o sedentarismo típico dos casais das séries, das pizzas e das hibernações espontâneas.

No fim, o sacrifício foi recompensado, não pela paisagem “esculpida pela atividade erosiva de um rio”, mas pela lanchonete que encontramos na entrada do parque. Famintos e sedentos, sentimos conforto e alegria dentro de pacotes metálicos com nomes americanizados e especialmente após o consumo de sanduíches caseiros a preços honestos, misturados com cerveja e refri.

Tibagi, nunca esquecerei das suas estrelas, da sua lua cheia nascendo atrás das árvores, do brilho nos olhos do meu amor diante de tanta beleza, dos animais livres e daqueles presos que não vi, mas que estavam no cartaz do rodeio, enfim, nunca esquecerei de seus detalhes e da profundeza de seu rio e,  é claro, jamais esquecerei da lanchonete na beira do cânion.