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Onde Você Nasceu Passava Um Trem

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O pote de açúcar ao lado do café me lembrou mais uma vez de você. Você que gostava de tomar água com açúcar e que fazia aquela lasanha maravilhosa de frango caipira. Receita sua, da vó que tive o imenso prazer de conhecer mais que as outras. Receita que foi modificada criativamente para um bacalhau, naquela fase de negações que seu neto insiste em repetir de tempos em tempos. Você, a vó mais linda que vi, magrinha como a marreca que seus filhos adoravam lhe chamar. De olhos claros como os meus, tão azuis e claros como a luz de suas longas histórias, contadas por telefone para meu pai, ou ao redor da mesa do almoço e que eu criança, não queria esperar todos chegarem com medo do prato esfriar. Roubei isso de você vó, esse pequeno dom de contar histórias, do microfone invisível e que às vezes irrita os mais impacientes, afinal todas as histórias já foram contadas, mas nem sempre as pessoas se lembram de todas elas.

Lembrei de ti ontem, antes da notícia oficial e antes do abraço consolador de Letícia, quando ainda estavámos em uma estrada nebulosa e fria subindo a serra de um mar sulista cheio de boas almas como a sua, vó. Senti uma coisa boa, como se você, depois de 95 anos de batalhas e sucessos, depois de ter criado seus filhos de uma maneira mágica e seguir ativando corações com seu jeito inconfundível e suas características que sempre gostei de repetir: a espiritualidade, o gostar de acordar tarde e o banho quente para refrescar as ideias malucas. Tive a alegria de te visitar há poucos anos atrás, te filmei e jamais esquecerei esses últimos momentos também. Você passou de fase dormindo, serena e tranquila, e agora se juntará com o vô, em Piraúba, no vilarejo mineiro onde a sua história recomeçou. Era pra lá que você queria voltar, e só posso lhe desculpar por não poder estar presente nesse evento formal e inevitável. Mas tenho certeza que você e todos estarão acompanhados por um exército branco de anjos, que lhe ajudaram nessa caminhada profunda por uma terra contaminada e aparentemente sem rumo. Você foi e continuará sendo esse rumo necessário, essa viagem de volta ao centro da terra ou de nós mesmos, esse trem doido carregando toneladas de bondade, ou apenas um trilho simples e infinito chamado Amor.

E por hora, é preciso descansar um pouquinho, afinal de contas, 95 anos de círculos e sentimentos merecem um longo e sonoro suspiro.

Obrigado por tudo vó, você viverá para sempre.

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Crônicas de Nácar #03: Amolecendo a Ditadura

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Ton é talvez o garoto mais puro que conheci nesses últimos anos. Dono de uma risada inconfundível, estridente e potente, comparável com a Fafá de Belém, o Bira ou qualquer outro conhecido que costumamos encontrar em esquinas e casas malucas por aí. Novamente não presenciei o acontecido, mas ontem no telefone fixo Ed me contou o que rolou e só pude agradecer novamente ao universo e a tal natureza descrita pelo alien viajante no tempo que revi pela quarta vez na máquina vermelha maior do mundo.

Ton é músico de rua e costuma tocar sopros invisíveis com sua guitarra enferrujada, ao lado de seus parceiros de mangue: Jordi e Fred. Juntos eles formam um power trio instrumental bem doido, consumidores de néctar e daqueles fazem você tirar o chapéu, e depois encher o chapéu deles, contribuindo pela arte de rua em uma cidade dominada por seres grotescos que ainda não enxergaram o verdadeiro valor deste tipo de apresentação. E foi justamente durante uma apresentação deste grupo, em plena Praça Ozório – berço da malandragem curitibana e também de lindas feiras cheias de artesanato e apetitosos rangos; foi nesse local aparentemente ordinário que policiais interromperam o show da banda de Ton, com a velha premissa de “quero ver a autorização de vocês, pois pra tocar e alegrar os transeuntes necessitamos de papéis!”. Jordi que havia descolado o tal documento junto a Fundação, outro órgão que já teve dias melhores, mas que como toda célula burocrática de um sistema antiquado e capenga, sofrerá baixas naturais.

Dedicarei um punhado de palavras para descrever algumas das atrocidades dessas supostas autoridades de uma “Coolritiba” que parece legal nos cartazes, mas que esconde sujeira e muco para todos os lados, deixando seus moradores doentes, com a garganta fodida e uma voz rouca e falha, cansada de já não possuir valor especialmente quando lidamos com humanóides que têm o poder na forma de uma arma na cintura. Alguns destes absurdos já foram retratados nesse mesmo blog pseudo hipster de valor duvidoso.

Primeiramente, fora… Piadas desbotadas à parte, esses mesmos policiais que pediram o alvará para o trio em questão, sabiam que eles estavam “legais”, pois já haviam pedido o famigerado documento em outros momentos. Jordi que havia esquecido o papel na Casa de Nácar, algo típico de artistas e demais portadores de DDA, correu para poder depois esfregar na cara da sociedade que eles estavam dentro da lei, e assim, poderiam seguir seu show, esquentando corações em processo de congelamento favorecido pelas últimas mudanças climáticas. Porém esse papel não foi encontrado, e restou para Jordi pedir desculpas aos seus comparsas, afinal, estamos falando de bandidos que escolheram a música como forma de sustento.

No outro dia os tiras tiveram a cara de pau de pedir para uma mulher de aparência humilde e que sempre prestigia as bandas de Nácar, lançando sorrisos e moedas que consegue com a venda de balas infantis. Essa mesma mulher, que na ocasião estava com um bebê no colo, foi pedida para ser revistada, em plena praça pública. Tiraram seu filho, enquanto uma policial feminina com o instinto materno adormecido revistava cada parte do corpo da mulher, incluindo peitos e língua, em um claro sinal de humilhação. E não, esses tiras mal intencionados não encontraram nenhuma droga ou arma em seu corpo. Ed que tocava com seus amigos decidiu se manifestar do jeitinho que esses tiras de araque gostam de ouvir: “Hey, vocês não fizeram nada com aquele bêbado que não deixou a gente fazer nosso show e aí vocês revistam uma mãe com criança de colo? Em que mundo vocês vivem?”. E é óbvio que quando a autoridade e o trabalho deles é questionado publicamente, essa mesma classe se junta para justificar qualquer tipo de tosquice que eles estejam fazendo. “O que? Você tá querendo nos dizer como devemos fazer o NOSSO trabalho? Você vai querer nos humilhar em público?”. “Não meu senhor, desculpe pela maneira que falei,… Como vou discutir com alguém armado? Viver em um estado fascista é foda, mas ainda sinto amor e quero seguir vivo.”

“O Mal acha que faz mal” é a célebre frase repetida todos os dias pelo mestre argentino Tijuan. E foi assim, depois dessa sequência de bizarrices envolvendo fardas e papéis, que diversos músicos de Nácar, se reuniram em frente ao famoso bar hippie-good-vibes para insistir naquilo que eles acreditavam ser o correto: arte de rua jamais será um crime. E tocaram. Tocaram um pouco mais. Tocaram transbordando emoção e groove, e logo uma multidão se aglomerou em volta deles. Mas o xerife Mr. Garrett continuava insatisfeito, mandando uma viatura parar o show, exatamente as 8 e meia da noite de um domingo.

Ton, o menino dos olhos brilhantes, somatizou toda a dor e a tristeza daqueles companheiros de trabalho, músicos honestos “sem frescura”, e simplesmente desabou, derramando baldes de lágrimas. Ed que já havia enfrentado problemas com a lei recentemente e estava trabalhando essa energia dentro de si, olhou nos olhos do policial e disse, em tom sereno: “O meu amigo ali está chorando porque vocês não estão deixando a gente fazer nosso trabalho, só queremos tocar.”

E eis que a esperança em um mundo melhor surge do céu sob purpurinas e o policial demonstra compreender a situação explanada, movimentando positivamente sua cabeça e enchendo seus olhos de lágrima: “Podem tocar, a gente sai, tá tudo bem.”

Muito se fala hoje em dia: tememos um presidente ilegítimo, tememos mais ainda um presidente fascista que promete acabar com as esperanças de um povo sofrido e corrompido, mas que ainda sabe o valor da criatividade e da união em momentos de crise.

E se algum dia a tal revolução não televisionada acontecer de fato, ela será pelo coração e jamais pela mente, como nos acostumamos a pensar. E viva esse idioma que nos permite ter lições espirituais: “A mente mente” e o “O presente é um presente”. Pois sabemos que o amor é muito maior que qualquer arma inventada em impressoras 3D.

 

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Crônicas de Nácar #01: A Mordida de Janis

pace_dogJanis é uma cachorra que vive com a gente há mais ou menos um ano e meio. Janis foi abandonada pelos seus pais, após ter sido encontrada na rua e adotada por esses mesmos pais. E ontem ela estava passeando com Tijuan, um dos quase dez moradores desta casa. Tijuan é argentino, músico, cozinheiro, quase pai e adorador de cachorros. Na esquina de casa havia dois caras trabalhando na parte elétrica de um poste. Tijuan estava distraído não sei exatamente porquê, só sei que nesse exato momento, dois corpos se colidiram: Janis morde ou pelo menos tenta morder a perna de um desses caras que estava trabalhando provavelmente para a prefeitura. Esse cara também tinha um sotaque diferenciado, especificamente do Haiti, porém sua reação naquele instante não era nem desse ou daquele país, apenas de um ser humano revoltado por ter sido supostamente mordido por Janis, uma cachorra sem raça definida, mas com um faro invejável e uma inteligência fora de série.

Preocupado, Tijuan chama Jordi, outro morador dessa casa maluca, baixista coringa e mangueador nato. Jordi, que ainda não havia tomado seu café, se mostrou levemente indignado pela reação desproporcional do rapaz em questão, que logo pediu documentos comprovando que Janis havia sido vacinada. Jordi lhe disse que Janis era apenas um cachorrinho e não uma criança com documentos oficiais, e no máximo o que ele conseguiria descolar era uma nota fiscal da referente vacina, porém se ele estivesse mesmo preocupado, poderia ir no posto de saúde mais próximo para tomar o antídoto e sanar suas neuras. O haitiano ainda pediu para tirar uma foto da identidade de Tijuan e atual padrasto de Janis, uma solicitação prontamente aceita, mas que também foi rebatida por Jordi, que disse “Se você está pedindo isso, também queremos uma foto do seu documento”. O rapaz não entendeu muito bem, alegando que aquilo parecia ser algum ato de xenofobia, ou quem sabe, ele apenas precisasse de algum papel para mostrar no trabalho, podendo descansar em casa, após uma manhã estressante em um país estrangeiro.

Moral da história: a importância de papéis e cafés na vida das pessoas.

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Arte de Rua Não é Crime

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Sábado de sol, mas dessa vez não aluguei um caminhão e muito menos comprei feijão. E se tinha maconha, quase não vi. Vi outras coisas bem legais e essas palavras tentarão explicar um pouco o que foi o dia de anteontem. Pela segunda vez, vi diversos artistas de rua unidos para uma causa nem nobre, nem pobre, apenas necessária em tempos estranhos. Tempos em que o ódio e a ganância são exalados por todos os poros, tempos de guerra como sempre e tempos em que a polícia militar precisa de nove carros e trinta homens fortemente armados preparados para prender o pior bandido da história dessa cidade cada vez mais cinza. No caso esse bandido se chama Música de Rua, e quem sabe mais uma meia dúzia de inofensivos maconheiros.

Sim, os músicos de rua tem sofrido uma repressão desmedida apenas por estarem tocando na rua, como sempre fizeram. E não estou falando de mega shows pirotécnicos e clandestinos, em algum bairro residencial e em plena madrugada. Esses músicos têm sido abordados somente por estarem tocando um jazz-fusion-groove, ou seja lá como queira chamar, em pleno centro de Curitiba, às oito horas da noite de uma sexta-feira. Uma pequena multidão parou para vê-los e também contribuir para que continuem fazendo isso, colaborando com algum trocado.

E sábado foi novamente um dia de protesto, um protesto artístico sem cartazes de ódio, sem a presença de maçons engravatados pedindo impeachment, nem panelas, nem camisas de futebol, nem megafones ou carros de som insuportavelmente chatos. Apenas música! Bem, talvez o principal fosse a música devido às últimas histórias bizarras envolvendo esses caras, mas também teve outras formas de arte, teve um palhaço de rua venezuelano andando em um monociclo de proporções girafais, teve dança de carimbó,  teve poesia e teatro misturada com música, e teve uma porção de fotógrafos e videomakers registrando tudin.

Pararam famílias, trabalhadores em dia de descanso, desempregados, lojistas, estudantes, turistas, outros artistas e mais um ou dois bêbados típicos de qualquer rua de cidade grande. Houveram outros transeuntes que não chegaram a parar, mas mexeram seus corpinhos em sinal de aprovação, ou como se estivessem alimentando brevemente suas almas carentes. Afinal, as ondas sonoras também cumprem esse papel.  

No fim do dia a sensação era de paz e de dever cumprido, ao menos pelos organizadores. E que venham novos atos de conscientização como esses últimos, cheios de amor e arte: dois lances que costumam andar lado a lado, se fundindo na maior parte do tempo e fazendo a gente perceber que a verdadeira transformação será sempre de dentro pra fora, ou seja, discursos inflamados e piquetes jamais serão suficientes, especialmente quando o espírito está fraco ou contaminado pelo ego que obstrui, aleija e faz a gente esquecer que o verdadeiro irmão não está no sangue ou na amizade, mas na sua frente.

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Colômbia e Outras Doideiras

pace_peligroE lá estava ele, com sua mochila 5 anos mais velha e de novo na cidade da eterna primavera, a encantadora e confundida Medellin. Mas antes, ele precisou passar por uma série de truculências, algo que ver com identidades perdidas, documentos do arco da velha, passaportes de emergência e algumas centenas de reais a mais. Seu regresso à capital das flores e dos natais fora como a sua antiga viagem, sem planos ou compromissos premeditados. Previamente ele já havia passado por Bogotá, Cartagena e Santa Marta, e seu único intuito até então era reencontrar a holandesa de seu passado, mas foi no caminho entre Cartagena e Santa Marta que ele conheceu a futura mulher de seus sonhos.

A conversa foi ininterrupta e logo Pedro José percebeu que seu coração remendado estava novamente pulsando em ritmo frenético, como uma típica salsa colombiana, daquelas onde o suor encharca a pele e apesar das dezenas de dançarinos ao seu redor, a pista parece ser só sua e dela. Maria era seu nome.

Demorou alguns flashes de segundos para Pedro José entender o significado mágico que fez com que ele precisasse passar por tantas linhas tortas para chegar naquele sagrado espaço-tempo, ou mais precisamente naquela estrada costeira ligando duas cidades caribenhas; e essa van só existiu devido a incompetência da empresa aérea, em tempos mórbidos onde a aparente falta de combustível havia feito dezenas de vítimas justamente no dia em que Pedro estaria embarcando. Medellin estaria novamente nos noticiários, não mais pelo famoso Pablo, mas por uma tragédia aéreo-futebolística de dimensões intercontinentais.

Pedro não tinha muito a ver com essa história e talvez o máximo que ele pudesse informar sobre sua missão humanitária de proporções microcósmicas, era que a razão por detrás do pretexto de revisitar o país de outrora, talvez fosse mesmo encontrar a mulher dos seus futuros sonhos.

Ainda que esse filme latino não possua uma data oficial de lançamento, sua sinopse começou a ser escrita 5 anos atrás, pelas mãos de um jovem trintão de saco cheio com o emprego estável, os amores fracassados e um coração que precisava ser operado. A storyline diria algo assim: “Maria parece entediada com sua relação duradoura e cada vez mais fria. Pedro só quer ser feliz sozinho ou ao lado de alguém que não o pressione, seja no Brasil, na Colômbia ou mesmo em Cuba. Será a distância o velho empecilho?”.

Bogotá continua efervescente com seus bares na Candelaria, seus malandros aclimatados com a altitude, oferecendo erva e a “caspa do diabo” a preços tão convidativos capazes de converter europeus em Maradonas em questão de horas. Nas vielas a arte de rua pulsa vibrante como as curvas de Botero ou o fantástico realismo de Marques. Gringos are everywhere, e para isso um batalhão de policiais fluorescentes garantirão a falsa segurança que todos buscam. Nas calles é possível encontrar fatias de pizza por 80 centavos, arepas de choclo con quesito e mais um milhão de buñuelos quentinhos, para acompanhar a avena caseira ou o guarapo, tudo barateza. Na noite é melhor se esquentar com o canelazo, a aguardiente com gosto de anis ou o rum típico daquelas bandas.

A costa segue respirando reggaeton e é bem possível que você encontrará em uma buseta algum rapaz munido de uma caixa sonora presa ao seu corpo, cantando os últimos sucessos desse gênero popular que tomou conta da América Latina. O funk carioca está para o Brasil assim como o reggaeton está para o restante do continente, e isso ninguém mais discute.

Porém a verdadeira paixão de Pedro José reside em Medellin. Foi lá que ele passou dois meses de sua vida mochileira, por entre bares subterrâneos de salsa, esculturas obesas, varetos intermináveis, suspensas linhas de metrô e uma porção de paisas gente boa pra caralho. Para ele, Medellin continuava brilhando e talvez mais do que nunca, já que as luzes naturais deste vale haviam recebido um tremendo reforço, com o objetivo de iluminar o natal mais colorido daquele país.

A estrada até a Colômbia é longa, tortuosa e cheia de paramilitares e paralelepípedos, mas tenho certeza que isso não impedirá Pedro José de seguir sonhando. E ainda que essa história soe como mais um conto infanto-juvenil no meio de uma época obscura onde diplomatas são assassinados em galerias de arte e caminhões atropelam e matam uma dúzia de compradores.

 

Que venha o natal e um 2017 menos catastrófico, se possível.

 

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Nos Meus Sonhos Eu Choro

pace_sonhoNos meus sonhos eu choro baldes de lágrimas. Misturo os fatos recentes, acrescento doses de melancolia e pitadas de lembranças tristes do passado remoto. Bato tudo no liquidificador da mente hiperativa e o resultado é um sabor amargo que tento digerir junto com o café da manhã, igualmente amargo, pois o açúcar acabou.  

Fico tentando lembrar dos ingredientes da receita da noite anterior, e tentando entender o porquê de acordar com os olhos cheios d’água. Sem Jung ou Freud para ajudar, sinto que serei o único capaz de decifrar os segredos dessa cozinha maluca, construída aos trancos e com centenas de armários e gavetas, onde são estocados os símbolos e todos os sentimentos que costumo esconder por aí.

A morte do pai do amigo, os porres inconsequentes dos amigos alcoólatras, os recentes “foras”, a mãe em silêncio, o irmão distante, o filme da semana, o ménage a trois, o vício no tabaco, a família americana de outrora, o chefe da época do emprego estável, o pai psicólogo, John Lennon, Chico Buarque e Tom Waits, está tudo lá – sem catalogações ou qualquer tipo de organização mínima que facilite a compreensão e diminua a dor provocada por tantas experiências intensas, ainda que aparentemente sem nexo.

Se meus sonhos fossem algum bicho, ele teria dezenas de cabeças, uma cauda cheia de espinhos e uma pele enrugada cheia de manchas. E se eu acreditasse em demônios, certamente eles fariam parte desses sonhos. Obstinados em confundir e chacoalhar esse baú de emoções fechado a sete chaves em estado de vigília, talvez esses diabinhos sejam mesmo anjos com a missão de higienizar meu cerebelo, provocando sensações incômodas e necessárias para o bom funcionamento desse organismo em constante transformação, ainda que eu esqueça disso em boa parte do tempo.

Espero nunca ter a pretensão de entendê-los integralmente, afinal, os nuances e reflexões múltiplas serão sempre o maior desafio no sofá do psicanalista, capaz apenas de sugerir hipóteses tão reais quanto essa realidade que acreditamos viver.

Nesse universo onírico, infestado por infinitas possibilidades, só posso almejar a compreensão parcial de certos personagens recorrentes, baseado em seus comportamentos que depois de tantos sonhos, se tornaram previsíveis. E se a felicidade parece ausente em boa parte dessas histórias bizarras, talvez seja pelo simples fato de eu não me sentir tão triste assim. Razões e motivos não faltariam, mas decidi em determinado momento que focar nesses aspectos sombrios não seria assim, muito saudável. Prefiro seguir nessa caminhada capenga, tirando lições de cada pedra cruzada e tentando seguir o conselho do velho Dylan, de não olhar pra trás, jamais. Dúvidas não faltarão e talvez a única certeza seja aquela que me faz acreditar e perceber a vida como um emaranhado de símbolos e sensações. O desafio é como a gente se relaciona com eles, seja na rua ou na cama.

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Jardim das Esperanças

florTomada pelas caipiras maringaenses do amigo felino, lá estava ela: intensa, acrobática, e como a famosa hashtag costumava dizer, sem filtros. Tudo havia rolado rápido demais, o suposto luto ainda cicatrizava e antes do bode premeditado ela apareceu para iluminar as esperanças de mais uma noite perdida entre biritas e outros brilhos. Minutos depois éramos dois vultos descabelados rolando na grama, roubando o fogo da fogueira alheia, enquanto lembrávamos nossos nomes sob a lua oculta.  

Os dias seguintes serviram para confirmar as suspeitas: éramos duas almas vagabundas destinadas a estarem unidas por um elo mágico e estranho, invisível a olho nu e radiante aos olhos de terceiros. O mundo voltava a fazer algum sentido, a primavera havia chegado e finalmente ela estava me presenteando com uma bela flor, daquelas espécies em extinção que precisam de água e música clássica para crescerem fortes e soberanas.

E ainda que esse jardineiro infiel tenha em suas costas uma mochila cheia de flores mortas, de diversas cores e tamanhos, ele continua acreditando na possibilidade de um dia poder ver florir em seu jardim os mais lindos girassóis.

Sei que parece bizarro querer falar de amor dias antes de outra eleição, mas talvez seja disso que esses políticos de merda estejam precisando. No congresso, na presidência e no governo estadual estamos sendo representados por corações de pedra, verdadeiros mortos-vivos, cavaleiros do apocalipse zumbi anunciado nas piores teorias conspiratórias. Para driblá-los só mesmo um caminhão de boas intenções e um trem bala movido a generosas porções de amor e compreensão.

Tenho feito minha parte e no presente momento, a roleta da vida me brindou novamente com um sorriso especial, de um tipo raro, pronto para emoldurar e colocar na parede, me lembrando que a escuridão será sempre passageira e que apesar dos pesares, a vida pode valer a pena e quem sabe no final venha a constatação: “o amor que a gente dá é igual ao amor que recebemos”.

E como cantaria Roberto, “Depois que a chuva cair, outro jardim um dia há de reflorir”.