contos, Uncategorized

Novo Velho Amor, Me Tire Dessa Rima Fácil

pace_amor“Não, você nunca conseguirá tornar algo novo, de novo.” O refrão da canção da fita demo de M. Ward chama minha atenção. Definitivamente esse pensamento permeia minha mente nas últimas semanas e os motivos são tantos que eu nem perderia meu tempo descrevendo cada um deles. Os envolvidos saberão. Em seguida, os grandes nadadores de lagos cantam sobre escavações em busca de luz em poços escuros ou sobre seguir procurando sussurros no meio dos berros. Yoko vem para me lembrar em seu mantra que eu sou um mar de bondade e um mar de amor, ainda que ultimamente esses mares tenham provocado uma série de ressacas indesejáveis.

Sinto o coração enfraquecer, mas não é como daquela vez que precisei ser fisicamente operado e ter percebido depois que o ritual teria sido em grande parte, espiritual. É algo diferente, uma sensação estranha que faz a gente lembrar daquele imenso buraco dentro do nosso peito, e que precisa ser preenchido por fumaça, como naquela letra do Wilco.

Na cabeça, essa metralhadora de ideias e enganações, os caminhos parecem múltiplos. Porém sinto que dessa vez preciso, de uma vez por todas, confiar em meus instintos, ou apenas me entregar ao oceano de probabilidades impostas pelo universo. Meus miolos cansaram da guerra civil que estavam provocando, precisam de uma bandeira branca que indique a direção. E por favor, não estou falando de novas ideologias, seitas orientais ou apenas um novo guru. Quero falar de coisas reais, pois “mudá-las me interessa mais”, já diria o bigodudo divino.

O mundo mudou, muitas pessoas não se contentam mais com um “relacionamento sério”, ou qualquer outra coisa que isso possa querer dizer, elas querem gritar “somos livres”, ou algo como “não seja tão careta, venha para o poliamor”. Acho realmente lindo que muita gente esteja pensando assim, e confesso que adoro estar nesse tipo de situação, sem envolvimento emocional e sem as nóias de qualquer relacionamento. Mas preciso expressar minha profunda incapacidade de lidar com isso em momentos onde a razão parece alcançar distâncias lunares, e me sinto novamente como aquele adolescente da escola, escrevendo cartas de amor e tentando aos trancos, trazer aquele tal amor de volta, mesmo que seu retorno não represente garantia de paz alguma, afinal, o amor é cego e costuma provocar feridas.

É por isso que amar é brega pra caralho. É filme americano piegas, é novela mexicana e é teatro pro povão. Não importa o quanto queremos afastar esse sentimento chinfrim, ou o quanto nos aproximamos do chamado “amor livre”, um belo dia você acorda e percebe que novamente foi mordido por ele. Atordoado, febril e demente, você tenta fugir, inventar desculpas, dizer pra si mesmo que dessa vez será diferente. No fundo, sinto que as chances disso acontecer são praticamente nulas, pelo menos no atual ponto em que me encontro, e depois de diversas ilusões amorosas e histórias inconclusivas que me fazem seguir amando pessoas do passado, ainda que em menor intensidade.

Posso tentar, mas tem certas coisas que são difíceis de negar, a flecha atravessou meu corpo capenga pela décima vez, provocando sequelas nos “artificiosos brejos da alma”, e o que vai sair disso tudo, só o universo sabe. Lições serão sempre bem vindas, mas quero saber mesmo quando poderei finalmente descansar esse coraçãozinho remendado, e poder focar em outros aspectos reais da vida.

“O amor verdadeiro te encontrará no final”, cantou o Daniel dos demônios, e é com esse sentimento que pretendo conviver o tal peso da existência, ou ao menos essa breve passagem em um planeta aleatório, cheio de contradições, destruições, anomalias e falsa moralidade. Quero ser um, como no discurso de Lynch, para assim, me sentir ainda mais perto de todos os amores que o acaso me deu. Quero ser um, para parar com essa mania de querer uma pessoa só. Quero ser um para que todos sejam meus e eu seja de todos. Quero ser o tipo de brega daquela música tribalista sobre saber namorar, e não o brega das milhões de canções sobre corações despedaçados. Prometo continuar amando seus versos e suas rimas engraçadas de amor, afinal, esse foi o combustível de infinitas fossas.

E enquanto esse amor sublime e universal não vem, seguirei contente com pelo menos um amor verdadeiro, sem rótulos ou grandes amarrações. Só não me deixe com esse silêncio brutal e descompassado com o tamanho do amor que sinto. Mensagens fabricadas não serão suficientes.

E que a paciência seja sempre a minha melhor amiga.

Em tempo, ontem Leonard Cohen partiu. Tenho certeza que esse era um cara que entendia bem desses assuntos.

    

Anúncios
contos

Curitiba Nonstop

curitibanonstop

Noite de quarta. Aniversário de improviso do jovem Paul, pizzas do tio, coca-cola, presentes atrasados, desenhos de Bob, pizza doce presente do tio, histórias de família, risadas, improvisos na gaita curta e no violão mexicano desafinado do rapaz dos dedos largos, o preto sai e entra o rosa.

Noite de quinta. Alpargatas na tempestade do equinócio de outono, críticas ao teatro, espanhol falsificado bêbado chato quebrando copos, Johnny e Brian pisando nos cacos, papos desconexos, universitários dos cursos de sempre, loira alta e magra buscando a festa pós-esquenta e o namorado inteligente do curso pseudocabeça que lembre seu pai ausente, cara descobrindo mais uma utilidade pros pelos de sua vasta barba, garoto bêbado rebelde estacionando o carro do pai sem cuidado, porta abrindo e raspando na calçada de pedras, namorada ruiva de pato branco, dono insistindo na piada, Johnny e Brian insistindo na cerveja e nos cigarros na chuva.

Noite de sexta. Reencontro de velhos amigos cada vez mais velhos, cervejas no mercado, voltas na quadra, novas companhias, papos entrecortados, deus e o diabo tentando unir os dois grandes tesouros da humanidade, pouca humildade na apresentação do artista tardio, novos projetos, mais rostos conhecidos, senhor de idade distante das drogas pesadas e parceiro para voltas na quadra, casal de amigos de passagem, o marido fica, casal de marceneiros legais, Curitiba é melhor que Joinville, cachorro quente sem vina e sem espera, mercado pré-balada, meninas de saia, garotos estranhando o cigarro do cara, taxi pra casa.

Sábado à tarde. Festival na praça importada, céu azul, sol, carro torto e aberto na rua escondida, espaço gourmet, micro-fatias de pizzas superfaturadas, sopas e caldos com costela de Adão, família reunida, óculos escuros do cantor cego, banda olímpica tocando rock, cachorros se pegando, criança hell angels apavorando na moto de brinquedo, ala dos shortinhos e das pernas das revistas, meninas com os mesmos narizes, playboys de plantão, promoções irreais, história da arte na casa do professor, chute sem querer no namorado sem nome, culpa do game do Michael.

Noite de Sábado. Volta na quadra com o reconhecido e seus conhecidos, racionalizando Tim Maia e os novos rappers, menina corrigindo a baliza e deixando a menina da rua envergonhada, amigos de volta na praça, Paul, Wilde e Brian atingem o estrelato, xépes citrus, Yoko de chapéu da moda querendo dançar, despedidas, Straits e seu dinheiro pra nada, Floyd e a música da torcida, casal e amigo buscando sanduíches na nova barba, mau humor, pratos americanos com o ketchup do filme, hambúrgueres de batata e de grão de bico, joguinho da verdade, carro pra casa da mãe, medicações necessárias, esposa descansa, parceiros em busca de barbudos, cigarros e as cervejas de sempre, ex-vizinha leitora com o novo namorado, discussões pequenas sobre língua portuguesa e o uso da crase, grandes discussões sobre amizades e o uso do tato, alguma compreensão e muito sentimento, cigarro na lateral do bar, portas fechadas, propostas de banda, mesas e cadeiras amontoadas, mais cervejas, mais um cigarro, dois ingressos pra festa dos gringos faltando um, velha rua com luzes novas, gente amontoada na cerca dos fumantes, desconto negado, disque jóquei interessante, menina e mulher afim do mesmo garoto, drink em copo de plástico, Brian cansado e querendo partir, fila pra pagar imensa, samba pro gaúcho, professora de maracatu, gases fedidos, francesas que falam português, gaúcho falando portunhol, italianos conversando com o garoto dos vinis, sonhos de artista, táxis demorados, garoto e mulher encontram a paixão nas últimas horas da madrugada, gaúcho espera sozinho e sem créditos em seu celular.

Noite de Domingo. Festival de novas bandas no bar da adolescência, sai a vodka barata e entra o rock com água, Cream e os blues caseiros surpreendem, baixista sério, platéia de amigos, a nova banda mais fofa da cidade, adolescentes cantam e se abraçam, banheiro, conhecido da próxima banda, produtor viajando, xixi, cigarro, cachorro quente sem cartão, ando meio desligado no palco, platéia semi-vazia, amigos no camarote, canções e letras de qualidade, saxofone especial, balanço legal, o eterno romance de Paul, rosto limpo e piadas verticais entre os silêncios, dançarinos imaginários, casal de amantes bebendo água, dores de ouvido, a viagem no palco, compromissos importantes, breves desabafos, parabéns ao amigo pelo filho que ainda vai nascer, desculpas públicas pela saída francesa, escada, rua, carro, casa da mãe, medicamentos necessários, textos compridos demais imitando alguém, quem os lê, talvez gravando fique melhor, o sono também deixa bêbado, chocolate na madrugada, banho, cama, carência, insônia, revisão de prioridades, revisão mental do texto, insônia, o peso nas costas, abraços, insônia, mãos dadas, sonhos de um bêbado sem iluminação.

arte, fotografias, pseudojornalismo

A Annie Por Trás Das Lentes

Para Gugagumma, por me lembrar dela, e para as mulheres, pelo seu dia (atrasado) ou mês como as farmácias costumam divulgar

annie

Annie Leibovitz é fotógrafa e como não poderia deixar de ser, ficou famosa por seus retratos. Retratos, de gente famosa e de gente que ficou ainda mais famosa depois de seus retratos. E como qualquer grande artista, ela foi além. Além dos clichês e dos preconceitos da época por ser uma mulher: indefesa, sensível e todos aqueles adjetivos que alguns insistem em colocar ao lado desse substantivo. E pseudo-feminismos à parte, esse fato sempre foi irrelevante, pelo menos para ela.

Annie ficou ainda mais conhecida por retratar um certo João, nu, abraçando em posição fetal o grande amor de sua vida – uma japonesa famosa por ter sido injustamente culpada pela separação dos besouros (pois é, ainda tem gente que acredita nessa lenga-lenga).

Na ocasião ela chegou de mansinho, assim como de costume, explicou algumas de suas idéias e segundo a japonesa com fama de bruxa, seu João curtiu sua proposta e acrescentou que aquela nudez representaria sua vulnerabilidade. Sim João, é sempre bom lembrar os mortais que pequenos ou grandes artistas, reis, papas ou presidentes americanos também são humanos (e logo, mortais) e além de carregarem o peso da existência, também fazem suas necessidades onde conseguem e se despem, quando lhes convém.

Annie aprendeu desde cedo, nas viagens de carro da família, a ver o mundo por uma lente, no caso, a da janela do carro de seu pai. Cresceu. Conheceu alguns mestres e aprendeu alguns truques com eles e com suas pequenas câmeras ainda em fase embrionária naqueles tempos e assim, roubou pra si a essência desse conceito que hoje conhecemos como portabilidade e que graças a Deus vai muito além de celulares.

Jovem e selvagem ela logo foi contratada pela revista símbolo de toda aquela contracultura norte-americana, depois que suas fotos da já velha mochila de viagem foram parar nas mãos da responsável por um setor que hoje tem pouco ou nada haver com o nome, mas que talvez naquela época ainda fizesse algum sentido – o da direção de arte.

E sendo essa jovem selvagem ela conhece e se identifica com o jornalista-escritor-gonzo Hunter Thompson, que segundo a própria, era “um maluco que nunca estava longe das drogas, pelo contrário, estava sempre dentro delas”. E junto com mais esse personagem da vida real, ela passa a conhecer os bastidores do que hoje conhecemos por “sexo, drogas e rock´n´roll”, e como o próprio Doutor Hunter fazia com seus textos, Annie também sentia que para retratar aquele mundo, ela precisava fazer parte dele, mesmo que para isso, precisasse ceder seu corpo e seu espírito. E assim, Annie conseguia fotos de extrema originalidade e imparcialidade (se é que isso seja possível), desvendando ao mundo um pouco (talvez muito) desse universo pop do rock daqueles anos ou a tal alma do artista que tantos procuram.

Os anos se passaram e para não parar de crescer Annie precisou se afastar de tudo aquilo que havia se apaixonado nos anos anteriores. Foi admitida em uma clínica de reabilitação e conseguiu ficar limpa (seja lá o que isso signifique) até os dias de hoje. E para não sucumbir aos antigos vícios, mudou de ares e caiu de cabeça num deplorável mundo novo que poucos achavam que ela se interessaria – o mainstream de uma grande revista de moda. Sob sua tutela e depois de encontrar uma nova mestra, artistas badalados de Hollywood passaram a aceitar seus milionários contratos agora com mais um novo motivo: Annie extrairia o máximo de cada estrela.

Além da moda, do rock e até de Arnold Schwarzenegger (que considero um mundo à parte), Annie ainda se aventurou na dança e este talvez tenha sido seu maior desafio, o de encontrar alguma fórmula (estudada previamente por outros mestres da fotografia) de capturar o momento exato que pudesse simbolizar a essência de um grande dançarino. Sim, Annie não se cansa (ela ainda tem três filhas pra criar), já enfrentou sérios problemas financeiros pós-fama e mesmo que seu Sobrenome agora pese tanto. Mas para alguém que nunca se importou com rótulos, provavelmente isso não faça muita diferença.

Parabéns Lebowsky, ou melhor, Leibovitz! Por seu amor e dedicação que com certeza superam sua arte e abrem novos horizontes, sem os velhos preconceitos ou as velhas lentes de sempre.

Em tempo, para quem se interessar, o documentário sobre Annie está disponível na íntegra, em inglês, no link abaixo:
http://vimeo.com/42602711

E para um coletivo infinito de suas fotos, clique aqui.

pseudojornalismo

A Hora E A Vez Das Mulheres

O que Yoko Ono, Coco Chanel, Courtney Love, Dilma Rousseff e tantas outras pessoas têm em comum? Além dos possíveis problemas estéticos (continuo achando que beleza não se discute, mas enfim) da primeira e das últimas duas, e de obviamente, todas serem “grandes” mulheres (ok, se quiser você pode fazer aquela piada gasta sobre a transexualidade de uma delas), todas obtiveram seu primeiro grande êxito no mainstream graças a uma figura masculina, já conhecida no meio (sobre a Courtney, continuo achando ela pequena, como descrevi num post lá atrás).

Seja na política, na música, na moda, ou em qualquer outro ambiente profissional, as mulheres só parecem alcançar algum lugar de destaque quando têm seus nomes associados a homens de peso. Ok, infelizmente (para mim, pelo menos) o mundo é machista, reflexo da nossa própria herança, ou como cantaria Luiz Melodia “machismo, elegância paterna”.  E é completamente compreensível que no tal discurso da vitória da nossa nova presidenta, pessoas confundam “igualdade entre homens e mulheres” com uma suposta hipervalorização da mulher – o que também não seria tão absurdo assim, já que homens vêm recebendo privilégios desde o nascimento da Dercy Gonçalves.

Sobre esse sexismo, John Lennon e a própria Dercy Yoko Ono já diziam “A mulher é o negro do mundo”. Tom Zé, ainda fez um disco inteiro dedicado ao mesmo tema há poucos anos atrás. Segundo pesquisa da USP, quase 60% das mulheres não atingem o orgasmo “E os rapazes não estão nem aí para elas”, lembra o músico.

E esse assunto está longe de se esgotar já que o macho parece ter caminhado apenas alguns tímidos passos. Muitas fêmeas também. E não estou falando de mulheres dirigindo caminhões, pilotando caças franceses ou governando países emergentes. Essas coisas trabalham em um nível simbólico interessante, mas são apenas mais um passinho de bebê.

A mudança tem que vir de dentro, para que as ações sejam naturais e não milimetricamente pensadas como em algum modelo de estatuto politicamente correto que os norte-americanos insistem em vender para o mundo.

Mulheres e homens são diferentes e sempre serão – o que obviamente, não quer dizer que um seja melhor que o outro. Portanto, sim, os direitos (constitucionais, burocráticos) têm que ser iguais. O trato, o respeito ou a estratégia como o mestre Tom Zé diz, é que necessita de revisionamento. E essas coisas não mudam da noite pro dia, é preciso pouco menos do esforço consciente que a mulher precisou para obter alguns de seus direitos básicos, ao longo dessa nossa rica e pobre história. Como diria Woody Allen, a civilização evolui, mas a passos de alguma tartaruga manca (ele não disse bem isso, mas a idéia é a mesma).